Entrevistas

ENTREVISTA ESPECIAL: Planejamento e inteligência garantem menor taxa de mortes violentas em SE

31/10/2026 às 05:45

 

Sergipe consolidou uma tendência histórica de queda nos índices de homicídios e Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), mantendo-se como o único estado do país sem território sob domínio de facções criminosas. Em entrevista exclusiva ao Jornal Correio de Sergipe e ao Portal AJN1, o secretário de Estado da Segurança Pública, João Eloy, discute os desafios estruturais, a continuidade administrativa e as estratégias de inteligência para o enfrentamento à criminalidade no estado. Também explica a polêmica envolvendo a negativa de liberação do delegado André David, entre outros assuntos. Baiano de Chorrochó, João Eloy de Menezes foi aprovado no primeiro concurso para Delegado de Polícia Civil de Sergipe em 1993, Ele é o secretário de Segurança Pública mais longevo da história de Sergipe – somados os períodos são cerca de 16 anos no comando da pasta-, e se destaca no cenário nacional por uma gestão marcada pela continuidade administrativa e por consolidar o estado como um exemplo na redução histórica de índices de criminalidade. Confira a entrevista a seguir: 

 

Correio de Sergipe/AJN1 –  Secretário, Sergipe tem apresentado uma tendência histórica de queda nos índices de homicídios e crimes violentos letais intencionais (CVLIs) nos últimos anos. A que fatores estruturais o senhor atribui a manutenção dessa redução no atual cenário?

João Eloy – Essa redução é resultado de um trabalho contínuo, que envolve planejamento, investimentos, inteligência policial e, principalmente, integração entre as forças de segurança. Nos últimos anos, ampliamos os investimentos em equipamentos, estruturas e efetivo, fortalecemos as ações investigativas e aprimoramos o policiamento ostensivo. É importante destacar o apoio do governador Fábio Mitidieri, que tem tratado a segurança pública como prioridade e garantido condições para que as instituições avancem. Sergipe chegou a registrar uma redução histórica nos crimes violentos, alcançando a menor taxa de mortes violentas desde o início da série histórica. Não existe resultado sustentável sem planejamento, investimentos e continuidade das políticas públicas de segurança.

 

CS/AJN1-  Apesar da melhora nos índices gerais de criminalidade, crimes patrimoniais como roubo e furto de celulares — que motivaram ações recentes como a Operação Última Chamada — ainda impactam fortemente a rotina da população. Como as polícias estão atuando especificamente para desmantelar a cadeia receptadora desses produtos no estado?

João Eloy – Nosso trabalho não se limita a prender quem pratica o furto ou o roubo. Precisamos chegar também àqueles que compram, comercializam e alimentam essa cadeia criminosa. A Operação Última Chamada é um exemplo dessa estratégia, com mais de 1,1 mil aparelhos recuperados nas ações realizadas. Também utilizamos ferramentas de rastreamento e identificação dos equipamentos, além de investigações para identificar os responsáveis pela receptação. É importante que a população registre o boletim de ocorrência e forneça os dados do aparelho, porque essas informações ajudam diretamente o trabalho da Polícia Civil.

 

CS/AJN1-  Recentemente, a SSP-SE indeferiu o pedido de cessão do delegado André David para a Secretaria Municipal de Segurança de Aracaju, justificando a decisão com base no déficit do quadro funcional da Polícia Civil. Qual é o tamanho real desse déficit atualmente e qual é a previsão concreta para a realização de novos concursos públicos na área de segurança?

João Eloy – A Polícia Civil, assim como outras instituições da segurança pública, precisa de recomposição permanente do seu quadro funcional. Temos uma demanda operacional crescente e precisamos garantir que as delegacias mantenham condições adequadas de atendimento e investigação em todo o estado. A decisão sobre a cessão de servidores considera justamente essa necessidade de preservar a capacidade de atuação da instituição. A realização de novos concursos é uma pauta importante para a segurança pública, mas depende de planejamento, disponibilidade orçamentária e autorização do Governo do Estado. Nosso objetivo é avançar nessa recomposição.

 

CS/AJN1-  O senhor é o secretário de Segurança Pública mais longevo da história de Sergipe, tendo comandado a pasta em diferentes gestões partidárias e governos. Como a sua experiência de transição e continuidade administrativa auxilia na blindagem da atuação das polícias contra interferências políticas?

João Eloy – A segurança pública precisa ser tratada como política de Estado, e não como política de governo. Tenho a experiência de ter ocupado essa função em diferentes momentos da administração pública e aprendido que as instituições precisam ter autonomia técnica para cumprir suas atribuições. Meu compromisso sempre foi com a população sergipana e com o fortalecimento das nossas forças de segurança. O governador Fábio Mitidieri tem compreendido a importância dessa continuidade e respeitado o trabalho técnico das instituições. As decisões policiais devem ser orientadas pela lei, pela técnica e pelo interesse público, independentemente de circunstâncias políticas.

 

CS/AJN1-  Sergipe possui divisas geográficas importantes com a Bahia e Alagoas, estados que enfrentam fortes dinâmicas de facções criminosas. Como o Complexo de Operações Policiais Especiais (COPE) e os batalhões especializados, como o Batalhão de Caatinga em Carira, têm atuado em operações do tipo Extramuros para conter o avanço dessas facções em solo sergipano?

João Eloy – Sergipe tem uma característica muito importante: somos o único estado brasileiro que não possui território sob domínio de facções criminosas. Isso não significa que não tenhamos a presença ou a tentativa de atuação dessas organizações, mas demonstra a capacidade de resposta das nossas forças de segurança. O COPE, as unidades especializadas da Polícia Militar e os setores de inteligência trabalham de forma integrada, inclusive em cooperação com polícias de outros estados. O Batalhão de Caatinga, por exemplo, fortalece nossa presença em regiões estratégicas. Nossa estratégia é agir preventivamente, investigar, prender e impedir que essas organizações consigam estabelecer domínio territorial em Sergipe.

 

CS/AJN1-  A interiorização da violência é um desafio nacional. De que forma a instalação de novas delegacias, como a recente inauguração em Estância, e o fortalecimento de bases integradas estão ajudando a equilibrar a percepção de segurança entre a capital, a Grande Aracaju e os municípios do interior?

CS/AJN1- Passamos por um importante processo de investimentos na infraestrutura da segurança pública, com construção, reforma e modernização de prédios policiais em diferentes regiões do estado. Esse avanço tem contado com o apoio e a prioridade dada pelo governador Fábio Mitidieri à modernização das estruturas da segurança pública. A instalação de novas delegacias, como a de Estância, e a melhoria das estruturas já existentes garantem melhores condições de trabalho aos profissionais e de atendimento à população. Esse processo também fortalece a presença do Estado no interior, amplia nossa capacidade de investigação e permite uma atuação mais próxima das comunidades. Segurança pública precisa estar presente em todos os municípios sergipanos.

 

CS/AJN1-  Sergipe é reconhecido pela realização de eventos de massas, como o Pré-Caju e os festejos juninos, que demandam grandes esquemas integrados comandados pelo Ciosp. Que tipo de tecnologias de videomonitoramento e inteligência artificial estão sendo consolidadas no estado para passar do patamar de monitoramento para a prevenção ativa de delitos?

João Eloy – Sergipe realiza grandes eventos ao longo de todo o ano, como o Arraiá do Povo, os festejos juninos nos municípios, o Pré-Caju e o Réveillon, que mobilizam milhares de pessoas e exigem um planejamento especial das forças de segurança. Temos avançado na utilização da tecnologia, do videomonitoramento e da inteligência policial, com o Ciosp e o Centro Integrado de Comando e Controle coordenando as ações e reunindo informações em tempo real. Esse trabalho também conta com o apoio do Governo do Estado, que tem investido no fortalecimento da estrutura operacional e tecnológica das instituições. Essa estrutura permite identificar situações de risco, direcionar o efetivo e dar respostas mais rápidas às ocorrências. Nosso objetivo é utilizar cada vez mais a tecnologia para antecipar problemas e garantir que a população possa participar desses eventos com tranquilidade.

 

CS/AJN1-  Além do combate ao crime nas ruas, a SSP tem focado na violência doméstica com ações como a Operação Mulher Segura II. Diante do crescimento no número de feminicídios em Sergipe — já são 22 casos este ano —, o que a secretaria planeja para expandir o atendimento humanizado e o monitoramento de agressores em todo o território estadual?

João Eloy – O enfrentamento à violência contra a mulher exige muito mais do que a atuação policial. Precisamos investir em educação e prevenção, especialmente na mudança de uma cultura machista, ainda muito presente em comportamentos masculinos antigos e conservadores. Ao mesmo tempo, temos trabalhado para fortalecer a rede de proteção, ampliar o atendimento humanizado e melhorar a resposta imediata à mulher que sofre violência. A Polícia Civil tem atuado com rapidez na apuração dos casos, e todos os registros são prontamente analisados e encaminhados para as providências investigativas necessárias. Também precisamos acompanhar os agressores e garantir o cumprimento das medidas protetivas. Nosso compromisso, compartilhado com o Governo do Estado, é acolher, proteger e dar uma resposta firme a cada situação de violência.

 

CS/AJN1-  Há uma demanda crescente da população e de especialistas pelo fortalecimento de políticas de segurança cidadã e de proximidade. Qual é o papel que o senhor enxerga para o investimento em programas sociais e a integração com as Guardas Municipais do estado nesse planejamento de longo prazo?

João Eloy – As Guardas Municipais são parceiras importantes das forças estaduais de segurança. Temos buscado fortalecer essa relação por meio de ações conjuntas, capacitações e integração operacional, sempre respeitando as atribuições e competências de cada instituição. A Acadepol, por exemplo, já formou guardas municipais de dezenas de municípios sergipanos, contribuindo para a qualificação desses profissionais. Acreditamos que segurança pública também se constrói com prevenção, educação e oportunidades. Quanto maior a integração entre as instituições e o envolvimento dos municípios, maior será nossa capacidade de proteger a população.

 

CS/AJN1-  Para encerrar, secretário, ao olhar para os próximos passos da pasta, qual é o principal gargalo logístico ou operacional que o senhor considera urgente resolver para garantir que os cidadãos sergipanos se sintam plenamente seguros ao sair de casa?

João Eloy – Tenho a experiência de ter acompanhado de perto, ao longo de diferentes governos, uma transformação consistente em todo o cenário da segurança pública de Sergipe. E é preciso reconhecer o papel do governador Fábio Mitidieri nesse processo. Ele tem sido um governador transformador na área da segurança pública, dando prioridade aos investimentos e criando condições para que nossas instituições avancem. A Polícia Civil e a Polícia Militar passaram por importantes processos de renovação e fortalecimento, estruturamos uma Polícia Científica muito mais moderna e estratégica, que há dez anos não tínhamos nas condições atuais, e também ampliamos a capacidade operacional do Corpo de Bombeiros, com novos equipamentos e melhores estruturas. Tudo isso, somado ao trabalho diário dos nossos homens e mulheres, contribuiu para que Sergipe alcançasse a condição de estado mais seguro do Nordeste e para o fortalecimento da confiança da população nas nossas instituições. O grande desafio agora é não interromper esse processo de modernização. Precisamos continuar investindo, acompanhando a evolução da criminalidade e garantindo que nossas forças de segurança tenham condições de responder aos novos desafios. A população sergipana confia no nosso trabalho, e precisamos estar sempre à altura dessa confiança.

← AnteriorContas de luz: Aneel mantém bandeira tarifária verde…Próximo →Frota de veículos elétricos em Sergipe cresce 290%…