Saúde

Brasil é um dos sete países que integram pesquisa para criar vacina contra chikungunya

11/06/2026 às 15:15

 

Um consórcio internacional liderado pelo Instituto Pasteur, da França, anunciou o lançamento do ACT-CHIK (Accelerating Clinical Trials for CHIKungunya Vaccine in Africa), um projeto de quatro anos que pretende acelerar o desenvolvimento clínico de uma vacina contra a chikungunya e fortalecer a produção de imunizantes no continente africano. A iniciativa recebeu financiamento de 15,3 milhões de euros (cerca de R$ 91,8 milhões na cotação atual) do programa Global Health EDCTP3, ligado à União Europeia.

O principal objetivo do projeto é avançar o desenvolvimento da MV-CHIK, uma vacina contra a chikungunya baseada no vírus do sarampo e originalmente desenvolvida pelo Instituto Pasteur. Para isso, pesquisadores realizarão um ensaio clínico de fase Ib/III em Ruanda, Quênia, Nigéria e Senegal. Enquanto isso, o grupo pretende preparar a transferência da tecnologia de fabricação do imunizante para um produtor africano.

Uma doença em expansão

Transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, a chikungunya provoca febre alta, dores intensas nas articulações, fadiga, dor de cabeça e erupções cutâneas. Em alguns casos, as dores articulares podem persistir por meses ou até anos.

Segundo o comunicado, o número de casos registrados na África aumentou significativamente nas últimas duas décadas, embora a doença continue sendo frequentemente subdiagnosticada e subnotificada. Ele ainda destaca que as mudanças climáticas estão ampliando a área de distribuição dos mosquitos transmissores, aumentando o risco de surtos em diferentes regiões do mundo, especialmente na África. O Brasil também registra casos.

“A chikungunya continua sendo uma doença negligenciada na África, apesar de seu crescente impacto. O projeto ACT-CHIK representa uma oportunidade única para gerar dados clínicos essenciais nas populações que mais precisam dessa vacina”, afirmou Sotiris Missailidis, coordenador do Projeto ACT-CHIK no Instituto Pasteur, em comunicado.

Como serão as pesquisas

A MV-CHIK é uma vacina desenvolvida a partir da cepa Schwarz do vírus do sarampo. Ela é um imunizante vivo atenuado e recombinante, desenvolvido a partir de uma tecnologia já utilizada pelo Instituto Pasteur. Seis estudos clínicos de fases I e II realizados na Europa, nos Estados Unidos e em Porto Rico envolveram cerca de 600 adultos e apresentaram resultados considerados satisfatórios em termos de segurança, tolerabilidade e resposta imunológica.

Agora, o ACT-CHIK pretende ampliar essa etapa de desenvolvimento. O ensaio clínico recrutará 940 participantes, entre adultos de 18 a 55 anos, adolescentes de 12 a 17 anos e crianças de 5 a 11 anos. Os voluntários virão tanto de áreas endêmicas quanto não endêmicas dos quatro países participantes. O objetivo é gerar dados que permitam avaliar o desempenho da vacina em populações africanas, incluindo faixas etárias mais jovens.

Produção de vacina na África

Além dos estudos clínicos, o projeto inclui uma estratégia voltada à fabricação de vacinas na África. A proposta é preparar a transferência da tecnologia de produção da MV-CHIK para o Instituto Pasteur de Dakar, no Senegal, descrito pelos organizadores como o único fabricante de vacinas do continente com pré-qualificação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O Brasil também participa da iniciativa. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) será responsável pela preparação dos materiais utilizados nos ensaios clínicos e contribuirá com sua experiência na produção de vacinas durante o processo de transferência tecnológica.

Os organizadores afirmam que o projeto apoia o plano da União Africana de fabricar localmente 60% dos imunizantes utilizados no continente até 2040.

Consórcio reúne instituições de sete países

O ACT-CHIK reúne sete instituições de França, Ruanda, Senegal, Brasil, Nigéria, Quênia e Coreia do Sul. Entre elas estão o Instituto Pasteur, a Universidade de Ruanda, o Instituto Pasteur de Dakar, a Fiocruz, o Hospital Universitário Especializado de Irrua, o Instituto de Pesquisa Médica do Quênia (KEMRI) e o Instituto Internacional de Vacinas (IVI).

Segundo os coordenadores do projeto, a iniciativa busca não apenas avaliar uma nova vacina contra a chikungunya, mas também fortalecer a capacidade de pesquisa clínica, regulamentação e fabricação de imunizantes no continente africano. O projeto terá duração de 48 meses, entre maio de 2026 e abril de 2030.

Para Sylvanus Okogbenin, do Hospital Universitário Especializado de Irrua, mais do que testar uma vacina promissora, a iniciativa amplia a capacidade de pesquisa clínica dos países envolvidos e ajuda a construir infraestrutura para enfrentar futuras epidemias.

“Ao trabalharmos juntos além-fronteiras, estamos contribuindo para um futuro em que a África lidere o desenvolvimento e a implementação de soluções para seus próprios desafios de saúde”, destacou Okogbenin.

Fonte: GALILEU

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