Cultura

Brasil tem chance de nova indicação ao Oscar em 2027? Especialistas avaliam

16/09/2026 às 10:12

 

Após duas temporadas de protagonismo na Academia de Hollywood, o Brasil se prepara para definir seu novo candidato ao Oscar. Nesta quarta-feira (16), a Academia Brasileira de Cinema anunciará qual dos seis filmes finalistas representará o país na corrida por uma indicação a Melhor Filme Internacional em 2027.

Estão na disputa “100 Dias”, de Carlos Saldanha; “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai; “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo; “Feito Pipa”, de Allan Deberton; “Nosso Segredo”, de Grace Passô; e “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins. Os títulos foram selecionados entre as 15 produções inicialmente habilitadas.

Vale lembrar que, nos últimos dois anos, o Brasil bateu recordes com “Ainda Estou Aqui” (2024) e “O Agente Secreto” (2025). Enquanto o primeiro venceu a estatueta de Melhor Filme Internacional no Oscar de 2025, a produção de Kleber Mendonça Filho se tornou o longa nacional mais indicado na história da premiação, com quatro nomeações.

A escolha, no entanto, será apenas o primeiro passo de uma campanha que envolve muito mais do que a qualidade artística do longa. Passagens por festivais de prestígio, prêmios internacionais, acordos de distribuição e capacidade financeira para promover o filme entre os votantes podem influenciar diretamente nas chances brasileiras.

Para entender como os seis títulos chegam à disputa e se o Brasil tem condições de manter o bom momento recente na Academia, a CNN Brasil ouviu Mariane Morisawa, jornalista, integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e votante do Globo de Ouro, e Paula Jacob, crítica, professora e pesquisadora de cinema, mestre em Semiótica e especialista em Semiótica Psicanalítica pela PUC-SP. Confira abaixo.

Brasil tem boas opções, mas larga em desvantagem

Na avaliação das duas especialistas, a seleção reúne produções relevantes e evidencia a diversidade do atual cinema brasileiro, mas o representante escolhido nesta quarta enfrentará uma corrida particularmente competitiva.

Para Mariane Morisawa, a lista oferece boas opções, embora o Brasil comece a disputa em uma posição menos favorável do que nas temporadas anteriores.

“Acho que é uma lista bem representativa do que foi o ano do cinema brasileiro. Tem filmes que foram para festivais internacionais, e isso é sempre uma chancela e fundamental para o Oscar. Em termos de qualidade, com certeza o Brasil tem bons candidatos. O problema é que não é só a qualidade”, afirma.

Paula Jacob também destaca a diversidade da seleção, que reúne diferentes regiões, perspectivas e formas de narrar o país.

“Acho que é uma lista bem importante para o nosso cinema, porque mostra cada vez mais a variedade do cinema brasileiro: os pontos de vista, as regiões do país que estão sendo filmadas e as histórias que estão sendo contadas”, avalia.

Apesar da avaliação positiva, há um obstáculo importante. Nenhum dos seis finalistas disputou as competições principais de Berlim, Cannes ou Veneza, vitrines que costumam colocar produções internacionais no radar da indústria antes mesmo do início formal da temporada do Oscar.

Para Morisawa, isso significa que o representante brasileiro, independentemente de qual seja o escolhido, tende a começar a corrida atrás de concorrentes que já chegam respaldados pelos principais festivais do calendário.

“O nosso indicado, seja ele qual for, provavelmente já chegará em desvantagem. As competições desses festivais conseguem muito mais atenção da própria indústria, onde há muitos votantes da Academia, e também dos jornalistas”, explica.

A especialista lembra que os profissionais que votam durante a temporada recebem centenas de produções. Nesse cenário, conquistar uma Palma de Ouro, um Leão de Ouro ou um Urso de Ouro, ou outro prêmio de destaque nesses festivais, funciona como uma credencial importante para chamar a atenção para determinado título.

Quais filmes chegam mais fortes?

Entre os seis finalistas, “Feito Pipa” e “Vicentina Pede Desculpas” aparecem inicialmente como títulos que reúnem elementos favoráveis para uma eventual campanha internacional, embora as especialistas evitem apontar um favorito absoluto.

Dirigido por Allan Deberton, “Feito Pipa” passou pela seção Generation do Festival de Berlim e saiu premiado. Para Morisawa, o reconhecimento em um evento internacional importante representa uma vantagem em relação aos demais concorrentes. “Berlim é um festival importante, e o fato de o filme ter sido premiado é um diferencial”, diz.

Ela pondera, porém, que a seção Generation não corresponde à competição principal da Berlinale. Por isso, embora o prêmio ajude a chamar a atenção para o longa, não produz necessariamente a mesma repercussão de um Urso de Ouro ou de outras premiações centrais do festival.

“Outros filmes brasileiros também passaram por festivais. ‘Nosso Segredo’, de Grace Passô, também esteve em Berlim, mas ‘Feito Pipa’ tem o diferencial de ter sido premiado”, acrescenta.

Já “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, participa da seção Platform do Festival Internacional de Cinema de Toronto — o que pode representar uma elegibilidade direta para Melhor Filme Internacional, caso seja vencedor. O longa também conta com a Netflix em sua distribuição, fator que, segundo Morisawa, pode facilitar a construção de uma campanha internacional.

“‘Vicentina Pede Desculpas’ pode ter uma boa repercussão por lá. Além disso, tem distribuição da Netflix, o que sempre ajuda. A Netflix tem condições de fazer uma boa campanha, que é um outro fator fundamental”, analisa.

Já Paula Jacob prefere não apontar, neste momento, um título claramente à frente dos demais. Para ela, os filmes ainda precisam demonstrar como transformarão o reconhecimento inicial em presença constante ao longo da temporada.

“É difícil dizer, a esta altura, se tem algum título que já chegue com mais força. Acho que todos os filmes que foram selecionados nessa lista ainda têm uma distribuição pequena, por enquanto. Há vários que têm prêmios importantes, como ‘Feito Pipa’, que foi premiado em Berlim, e ‘Nosso Segredo’, que recebeu prêmios importantes no Festival de Gramado. Mas ainda existe a questão da distribuição e do lançamento”, afirma.

Segundo a pesquisadora, o desempenho dependerá da capacidade de cada produção de manter sua presença ao longo do segundo semestre e estruturar uma campanha internacional, considerando que a lista é composta por filmes independentes.

“São filmes geniais, lindos, supersensíveis e com todo o potencial. Mas não é só isso que faz com que um filme seja visto pelas pessoas”, completa.

Bom momento do Brasil pode ajudar?

O cinema brasileiro chega à nova disputa com maior visibilidade internacional após os resultados obtidos nas temporadas anteriores. As especialistas, no entanto, divergem sobre o quanto esse histórico pode favorecer o próximo representante.

Para Morisawa, a sequência positiva pode fazer com que produções brasileiras despertem uma atenção inicial maior entre profissionais e jornalistas que acompanham a temporada de premiações.

“Ter dois filmes em sequência que fizeram tanto barulho na campanha como um todo, conseguiram muitas indicações, ganharam Globo de Ouro, Oscar e muitos outros prêmios ao longo do caminho, claro, faz as pessoas pensarem: ‘Nossa, acho que tem alguma coisa acontecendo no Brasil, no cinema brasileiro'”, afirma.

Nesse contexto, segundo ela, um novo candidato nacional já não chegaria à disputa sem referências.

“Quando aparece um filme e as pessoas descobrem que ele é do Brasil, já não será algo tão ‘estrangeiro’, entre aspas, ou tão sem referência quanto era antes para muitas pessoas”, acrescenta.

A jornalista ressalta, porém, que essa visibilidade não é suficiente para garantir espaço entre os indicados.

Paula Jacob adota uma posição mais cautelosa. Para ela, os resultados das temporadas anteriores não representam necessariamente uma vantagem para o escolhido de 2027.

“Não acho que o sucesso recente do cinema brasileiro possa ajudar o próximo representante. Acho que é legal, claro. O Brasil é um país que tem sido visto por diversas lentes e está em alta culturalmente falando. Mas acho que isso não é indicativo de nada”, afirma.

Segundo Jacob, os bons resultados anteriores também estiveram relacionados às características específicas das produções e às campanhas construídas ao redor delas.

“Acho que a gente teve uma sorte de contar com dois filmes muito expressivos internacionalmente, presentes em festivais internacionais importantes, como os festivais de Cannes e de Veneza. Mas, neste ano, os filmes que tiveram uma expressão maior estão em festivais menos expressivos”, disse.

Distribuição e campanha podem definir a corrida

Passar por festivais importantes é apenas uma parte da equação. Depois que o representante brasileiro for escolhido, a capacidade de manter o longa em evidência durante os meses seguintes pode ser determinante para chegar à lista de indicados.

Entre os fatores apontados pelas especialistas estão a existência de uma distribuidora internacional forte, lançamento em mercados estratégicos, sessões para votantes, presença dos realizadores em festivais e eventos, entrevistas e repercussão na imprensa estrangeira.

Moraisawa cita “Ainda Estou Aqui” como exemplo de uma campanha que reuniu diversos elementos favoráveis: um diretor conhecido internacionalmente, Walter Salles; um prêmio de roteiro em Veneza; presença em festivais ao longo do segundo semestre; e distribuição da Sony Pictures Classics nos Estados Unidos.

Ela também menciona a estrutura montada para “O Agente Secreto”, que chegou à temporada respaldado por premiações em Cannes e por distribuidoras internacionais.

“O segundo fator fundamental é ter uma boa distribuidora americana e também distribuição em outros países”, afirma.

Segundo Morisawa, uma campanha competitiva pode envolver cifras milionárias, usadas para manter o filme visível diante dos integrantes da indústria ao longo de vários meses. “Tudo é pago. É preciso produzir material, colocar o filme nas plataformas, organizar sessões em Los Angeles, Nova York e na Europa, além de viajar para festivais. É muita coisa e muito dinheiro envolvido”, explica.

Paula Jacob também considera que a disputa depende de uma combinação entre distribuição e marketing.

“É preciso que acordos de distribuição sejam feitos internacionalmente para que esses filmes cheguem ao público a que precisam chegar, às pessoas a quem precisam chegar, e façam um barulho internacional”, afirma.

A pesquisadora lembra que uma campanha não se limita à presença do longa nas salas de cinema. Entrevistas, reportagens na imprensa internacional, eventos e aparições dos profissionais envolvidos na produção ajudam a manter o título em circulação durante a temporada.

“É preciso enviar os diretores e os atores, dar entrevistas e estar presente nos principais veículos e espaços. Tudo precisa acontecer de novo. É uma roda que precisa girar”, diz.

Escolha precisa ir além da preferência pessoal

Diante desse cenário, Morisawa defende que a escolha do representante brasileiro considere não apenas a avaliação artística dos seis concorrentes, mas também as condições concretas que cada produção possui para sustentar uma campanha internacional.

“Nessa hora, é preciso ser pragmático. É preciso perguntar: qual é o filme brasileiro que tem mais chances de chegar lá? Não qual é o filme de que eu mais gosto ou qual é o diretor de que eu mais gosto. Isso tudo é muito importante”, comenta.

Segundo a jornalista, fatores como trajetória em festivais, distribuição, recursos financeiros e estrutura de campanha precisam entrar na avaliação. “A decisão precisa ser profissional, pragmática e bem informada. Afinal, esse filme representará o Brasil lá fora”, acrescenta.

Mesmo com os obstáculos, as especialistas não descartam que o cenário mude ao longo dos próximos meses. Afinal, a definição do representante nacional marca apenas o início de uma temporada que se estenderá até 2027.

E outras categorias?

As chances brasileiras também podem ir além de Melhor Filme Internacional, embora as especialistas recomendem cautela neste momento da temporada.

Para Morisawa, ainda é cedo para identificar uma candidatura brasileira especialmente competitiva em outra categoria. “Por enquanto, eu não vejo. Pode ser que a gente esteja esquecendo de alguém, de algum brasileiro que está aí em alguma outra [produção]”, pondera.

A jornalista avalia que, diante da força dos concorrentes internacionais já apresentados ao longo do ano, até mesmo chegar à categoria de Melhor Filme Internacional deve representar um desafio significativo.

“Sonhar a gente sempre pode e deve, né? Pode acontecer? Pode. Sempre pode. Mas, para ser honesta e sincera, estamos em um ano em que conseguir uma indicação ao Oscar de Filme Internacional já será muito difícil para o Brasil, pelo menos em princípio e no papel”, afirma.

Jacob também evita apontar uma candidatura específica fora da categoria internacional. Para ela, a temporada atual pode apresentar um cenário mais conservador para produções de fora dos Estados Unidos, diante da repercussão estrangeira dos últimos anos.

“Não consigo pensar exatamente no que poderíamos sonhar. Sempre acho que a gente pode sonhar, mas talvez seja necessário ter um pouco de cautela neste ano”, avalia.

A Academia Brasileira de Cinema anunciará nesta quarta-feira (16) qual dos seis finalistas será o representante brasileiro. A partir daí, o escolhido entrará oficialmente em uma corrida contra produções apresentadas por dezenas de países, primeiro por uma vaga na pré-lista e, posteriormente, entre os cinco indicados a Melhor Filme Internacional.

Fonte: CNN Brasil

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