Política

Caso Master: entenda como investigações da PF podem afetar pré-candidaturas do PT

18/06/2026 às 16:25

 

A nova fase da operação Compliance Zero, que cumpriu mandados de busca e apreensão nesta quinta-feira (18) contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo federal no Senado, coloca o PT no epicentro do escândalo do Banco Master às vésperas do início da campanha eleitoral.

Além de prejudicar o projeto de reeleição de Jaques Wagner, as relações com o empresário Daniel Vorcaro têm potencial para impactar as pré-campanhas petistas na Bahia e até a pré-candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que buscará o quarto mandato presidencial.

A nona fase da operação, que investiga os desdobramentos do suposto braço político do banqueiro, também desloca o foco eleitoral do escândalo para a esquerda, após o vazamento do áudio do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedindo financiamento ao filme “Dark Horse”. Antes disso, o senador e ex-ministro do governo Bolsonaro Ciro Nogueira (PP-PI) foi alvo da operação Compliance Zero.

Jaques Wagner é peça-chave para o projeto de continuidade na gestão petista da Bahia

Ex-governador baiano, Jaques Wagner é um aliado muito próximo de Lula e considerado nome fundamental para o projeto de manutenção do governo petista na Bahia. O PT administra o estado baiano há 20 anos, desde a vitória de Wagner em 2006.

Incumbente do cargo, o governador Jerônimo Rodrigues (PT-BA) disputará a reeleição estadual com apoio de Lula e dos ex-governadores petistas Jaques Wagner e Rui Costa. A dupla estará na chapa de Rodrigues na corrida eleitoral pelas duas cadeiras em disputa no estado ao Senado. Enquanto Wagner é pré-candidato à reeleição, o ex-ministro Rui Costa deixou a Casa Civil no início de abril para se dedicar à campanha e reforçar o palanque do seu sucessor na Bahia.

Segundo a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, Wagner teria recebido diversos pagamentos, negociado um apartamento em Salvador e voado em jatinhos de Vorcaro. No Congresso Nacional, o parlamentar teria atuado em favor do banco com a chamada “Emenda Master” – que aumentaria os limites de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), apresentada por Ciro Nogueira.

Secretário do governo PT e enteado de Jaques Wagner é alvo da operação contra o Banco Master

O secretário do Meio Ambiente do Estado da Bahia, Eduardo Sodré, também foi alvo da nona fase da operação Compliance Zero. Ele é enteado de Jaques Wagner e gestor da BN Financeira, empresa do núcleo familiar do senador petista. As investigações apontam que ele seria responsável pelas cobranças ao empresário Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master.

Em Salvador, a empresa de Lima, a casa de Wagner e a sede do PT foram alvos da operação nesta quinta-feira. A relação entre o empresário e o político teve início durante o processo de privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), proprietária da rede de supermercados Cesta do Povo, responsável pela venda subsidiada de produtos aos servidores da Bahia durante a gestão do ex-governador Rui Costa. Em 2018, Wagner chefiava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia.

A empresa de Augusto Lima arrematou o leilão e teve permissão do governo Rui Costa de operar um cartão de crédito, o Credcesta, com oferecimento de empréstimo consignado para cerca de 400 mil servidores, pensionistas e aposentados. Além disso, Lima recebeu exclusividade para operar os empréstimos por 15 anos com juros de aproximadamente 5% ao mês.

Por esse motivo, a oposição acusa o PT baiano de ser o responsável pelo embrião do esquema do Banco Master, que se estendeu pelo país com tentáculos no mercado financeiro e nos Três Poderes em Brasília.

Na avaliação do cientista político e professor da FGV São Paulo Eduardo Grin, a pré-candidatura da dupla de ex-governadores que vão concorrer ao Senado será mais impactada do que a do governador Jerônimo Rodrigues. “Ele ainda pode fazer as entregas [no governo], mesmo sendo muito próximos do ex-governadores. Foi Rui Costa quem o lançou — ele era secretário de Educação —, e isso pode mitigar um pouco o efeito”, analisa.

No entanto, Grin pondera que qualquer relação com Daniel Vorcaro pode ser considerada uma espécie de “criptonita”, enfraquecendo as pré-candidaturas de diferentes bandeiras partidárias. “Toda denúncia que envolve algum político no país que tenha o carimbo de ter tido relação com Vorcaro e Banco Master vai causar prejuízo. Hoje ele é o inimigo público número um”, acrescenta o analista político.

Para Grin, uma forma de reduzir o desgaste a Lula seria um anúncio rápido em relação a Wagner. “O governo Lula deve afastá-lo de imediato da liderança do Senado para mostrar que o PT não seria conveniente com isso”, especula.

ACM Neto também está na mira da investigação

A investigação da PF também apura a eventual relação com ACM Neto (União-BA), principal opositor à reeleição de Rodrigues na Bahia. “Ou seja, digamos que nós estamos aí zerados desse ponto de vista, a principal candidatura de oposição não poderá acusar o Jerônimo”, aponta Grin.

Segundo sondagem eleitoral do instituto do Paraná Pesquisas divulgado em maio, ACM Neto aparece à frente com 47,8% das intenções de voto, enquanto Jerônimo Rodrigues registra 38,7% no cenário estimulado do primeiro turno. Já na disputa pelo Senado, Rui Costa lidera com 48,8%, seguido por Jaques Wagner, com 40,6%.

A Gazeta do Povo entrou em contato com a Secretaria do Meio Ambiente do governo baiano, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem.

A defesa de Augusto Lima afirmou que as diligências realizadas pela PF eram “desnecessárias”, pois ele está há seis meses à disposição das autoridades. “De todo modo, as medidas contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos”, completa a defesa do empresário.

Jaques Wagner nega relação com Vorcaro e diz que Lula expressou “confiança” em sua inocência

O senador Jaques Wagner (PT-BA), alvo da nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (18) pela Polícia Federal, negou ter qualquer relação atual com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master e que, segundo as investigações, seria próximo do parlamentar através de seu ex-sócio.

Jaques Wagner também afirmou que recebeu um telefonema do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mais cedo, se solidarizando por ter sido alvo da operação e sinalizando que ele continuará no cargo de líder do governo no Senado.

A Polícia Federal justificou a nova fase da operação afirmando que o senador teria recebido vantagens financeiras do Banco Master para atender a interesses privados dentro do Congresso, entre eles a chamada “Emenda Master” para aumentar os limites de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e mudanças em legislações relativas a empréstimos consignados.

Jaques Wagner ressaltou que foi contra o encaminhamento dessa emenda, afastando qualquer envolvimento no atendimento a esse interesse político de Vorcaro. O senador pontuou que tem uma relação institucional com o colega Ciro Nogueira (PP-PI), mas sem envolvimento nesta proposta.

“Minha relação com Daniel Vorcaro é praticamente zero, nunca tive maiores entendimentos com Daniel. O entendimento foi na venda do Credicesta. […] Eu estive com Daniel apenas duas vezes, quando ele entrou como sócio do Augusto Lima e quando me pediu uma indicação para a área jurídica do banco”, afirmou o senador em entrevista à BandNews TV.

Jaques Wagner se refere ao cartão de empréstimo consignado que foi criado a partir da venda de uma rede estatal baiana de supermercados para o empresário Augusto Lima, que foi sócio de Vorcaro no Banco Master. Ele adquiriu a rede junto de um fundo de investimentos espanhol que, posteriormente, repassou o negócio ao antigo Banco Máxima para gerar fluxo de caixa.

O senador ainda se disse desconfortável com o cumprimento da operação às 6h em sua casa, mas ressaltou que decisão judicial se cumpre e que o momento ainda é de investigação, não há nenhuma acusação e que não há o que temer.

Já em relação aos US$ 55 mil e aos 33 mil euros em espécie encontrado em seus endereços em Brasília e em Salvador, Jaques Wagner justificou como sendo pagamentos de diárias do Senado e compra própria de moeda estrangeira para viagens internacionais desde 2019.

“Comprei dinheiro para viajar. Não tenho nada pra esconder, o dinheiro estava guardado em um cofre, em Brasília, inclusive em um envelope com o timbre do Senado. Nunca recebi dinheiro do Master ou do Augusto Lima”, pontuou o senador rebatendo a investigação da Polícia Federal de que ele teria recebido pagamentos de empresas ligadas ao Master para atuar em interesses políticos de Daniel Vorcaro.

Entre outros pagamentos, a investigação aponta que ele teria negociado com Lima um apartamento de luxo em Salvador no valor de R$ 2,4 milhões. Jaques Wagner negou que tenha recebido o imóvel como propina e afirmou que fez uma negociação privada com o empresário para poder comprar para sua filha.

“Sobre o apartamento, está em construção. Eu tinha interesse de ajudar a minha filha a comprar um apartamento desse, o Augusto Lima é um investidor e eu pedi a ele para eu recomprar depois. Não teve nenhuma transferência de patrimônio pra mim, não tenho nenhuma relação com o Master ou o Credicesta”, afirmou.

“A liderança do governo fica a cargo do presidente Lula, com quem falei hoje, acho sinceramente muito difícil que ele mexa na minha posição pela relação que a gente tem e pela confiança que ele tem em mim. Ele fez questão de me ligar, se solidarizar comigo”, completou.

De acordo com ele, Lula teria dito a ele que “fique firme. Essa é uma tentativa de desestabilizar você, mas conte com a minha confiança”. Jaques Wagner ainda minimizou o que chamou de “fogo amigo” de correligionários defendendo que seja afastado da liderança do governo no Senado.

O senador também negou que tenha intermediado qualquer conversa privada de Lula com Vorcaro ou participado da articulação que levou o banqueiro ao presidente através do ex-ministro Guido Mantega, em uma reunião fora da agenda oficial em dezembro de 2024.

Apesar da operação, Jaques Wagner descartou qualquer chance de ser isolado por Lula por risco de respingo do escândalo do Banco Master na eleição presidencial, e garantiu que sua candidatura à reeleição ao Senado está mantida. De acordo com ele, todo seu patrimônio está declarado no Imposto de Renda, afastando qualquer possibilidade de ligação com os supostos bens e recebimentos apontados pela investigação.

Fonte: Gazeta do Povo

Foto: Ricardo Stuckert/PR

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