O diário do barbeiro

Não há quem conheça melhor os acontecimentos relevantes de uma cidade do que um barbeiro. Contudo, poucos dão a devida importância a ofício tão nobre.
Na literatura, encontrei apenas uma referência notável. Em um livro sobre a história dos árabes, Eugene Rogan menciona um representante notável da classe: Ahmad ibn Budayr, barbeiro de Damasco que viveu em meados do século XVIII, sob o vasto domínio do Império Otomano, cuja extensão abrangia o Oriente Médio, a África Setentrional e partes da Europa.
O barbeiro deixara um diário. Nele, nada revelava sobre suas intimidades, sua vida familiar, seus gostos ou tristezas. Os escritos concentravam-se exclusivamente na administração de Damasco. Com a expansão imperial, o governo turco delegava o comando de regiões distantes de Istambul aos notáveis locais, estratégia que permitiu ao sultão manter a hegemonia além-fronteiras por intermédio de paxás, seus governadores.
Foi nesse contexto que o barbeiro passou a documentar, corte a corte, o ambiente político de sua época: os desmandos governamentais, a degradação moral, o enriquecimento ilícito, a pilhagem do patrimônio público e as intrigas entre facções rivais. A cada tesourada, recolhia na voz popular os primeiros sinais de desgaste de um dos maiores impérios que o mundo já conhecera.
Os historiadores lhe agradeceram. Falando pouco de si e bastante dos outros, registrou preciosidades em um diário encontrado post mortem. Seus escritos constituíam um apanhado vivo de um ciclo de poder que começava a declinar. Sua pena era grave, a de um observador patriota preocupado com o destino coletivo. Por isso, evitava leviandades, salvo quando episódios aparentemente tolos repercutiam no bem comum. As intimidades sexuais, por exemplo, só eram mencionadas quando envolviam meretrizes que desfilavam publicamente com oficiais de alta patente, afrontando os preceitos de Alá.
É, caro leitor, nunca menospreze o barbeiro. Há dias em que ele permanece calado, apenas ouvindo. Em outros, torna-se efusivo: comenta manobras políticas, observa rearranjos partidários. De relance, espreita os celulares de clientes distraídos. Vez ou outra, capta segredos de alcova, alguns íntimos, outros escandalosos se viessem a público.
Não se trata de curiosidade mórbida. Longe disso. Grande parte do que sabe chega-lhe sem intenção, porque o dono do cabelo, ao reclinar a fronte para sentir a tesoura deslizar, imagina-se sozinho. Aos carecas, não se pode atribuir desleixo: precisam fixar o olhar no teto enquanto a barba é aparada, perdendo por completo a visão periférica. No fim, o barbeiro interage com quase todo o universo masculino, pois é raro encontrar um calvo que não seja barbudo.
E, de conversa em conversa, entre uma tesourada e outra, vão-se compondo sutilmente novos capítulos da história política de seu povo, sem que ninguém perceba. Mesmo séculos depois, a dinâmica da barbearia persiste. O barbeiro continua discreto, ouvindo tudo sem ser notado.
Dia desses, fui cortar a juba castigada pelos anos. Cansado e lacônico, eu mal respondia. O celular, no bolso da calça, repousava comigo. O barbeiro, então, puxou conversa. Diante do meu silêncio teimoso, perguntou se eu sabia o que era a capoeira. Apresentou-se como mestre na arte.
— Uma luta — respondi secamente.
Ele sorriu e corrigiu. Não era apenas isso. A capoeira é muito mais: é a dança da liberdade de um povo explorado, que precisou preservar suas raízes culturais em meio à colonização imposta pelos brancos aos negros. Nascida nas senzalas e nos quilombos, combinando ritmo e cantos, expressava a luta contra a opressão escravocrata.
Naquele instante, lembrei-me do barbeiro de Damasco. Imaginei-o ali, diante de mim, reencarnado séculos depois, cortando meus cabelos e rompendo meu silêncio para registrar algum acontecimento digno de nota. Será que ainda mantém um diário para documentar as antigas e inacabadas formas de imperialismo?
