O homem que não pôde ser Ninguém

19/08/2026 às 05:05

 

Assisti ao filme “A Odisseia”, de Christopher Nolan, numa manhã de sábado, com esposa e filhos — como adoro fazer. Almoçamos depois discutindo o longa-metragem. Todos gostamos e aprendemos. Declaro logo a suspeição: sou fanático por história, literatura e mitologia, e havia lido o clássico poema anos atrás por influência de minha saudosa mãe. O filme me devolveu a ele com entusiasmo de menino.

Merece os prêmios e estatuetas que vai disputar, e merece gratidão: fazer milhões discutirem Odisseu, em pleno século XXI, é serviço que nenhum ensaio acadêmico presta.

Mas há uma cena emblemática que não está lá, e a falta dela explica quase tudo o mais. A cena está na passagem de Odisseu pela terra dos ciclopes.

O “Meu nome é Ninguém” desapareceu. Preso na caverna, Odisseu diz ao ciclope chamar-se Ninguém, e o ardil só funciona porque há outros ciclopes na ilha: quando Polifemo cego grita por socorro, os vizinhos ouvem que “Ninguém” o feriu e voltam a dormir. É uma armadilha construída com palavras, demonstração pura da inteligência que define o herói. Sem ela, Odisseu escapa pelo susto, não pelo cálculo.

Perde-se também o contrapeso. Já salvo no mar, a vaidade fala mais alto e ele grita o próprio nome, autorizando Polifemo a pedir a Poseidon a vingança de onde nascerá toda a desgraça seguinte. Nolan substitui essa culpa pelo remorso de ter inventado o cavalo de Tróia: mais nobre e moderna, porém, estranha a Homero.

E onde a Odisseia fica na estante?

Vale um mapa, porque a confusão é comum. A Ilíada e a Odisseia pertencem ao vasto conjunto de cantos e poemas antigos que a tradição reuniu em torno da Guerra de Troia e que chamamos de Ciclo Épico. A Ilíada não narra toda a guerra: concentra-se em 50 dias do último ano do cerco e em torno da cólera de Aquiles causada pela arrogância do rei de Micenas, Agamêmnon, comandante supremo do exército grego. A Odisseia vem depois: não conta a queda de Troia, mas o retorno difícil de Odisseu a Ítaca, dez anos depois da vitória grega.

A Eneida é outra coisa. Não integra o Ciclo Épico em sentido próprio: é um poema latino do século I a.C., escrito por Virgílio, sob o imperador romano Augusto. É uma obra de propaganda que glorifica os heróis romanos. Um mito de origem que se conecta a esse mundo grego ao narrar a saga de Eneias, príncipe troiano, filho da deusa Vênus, que vencido foge da cidade em chamas com o pai Anquises, o filho Ascânio e os deuses domésticos. Odisseu quer voltar para casa; Eneias precisa fundar outra. Um é o herói do retorno; o outro, do dever. Guarde a distinção: ela reaparece adiante.

Mas vamos ao que Nolan preservou e o que inventou?

O filme é uma proeza física. Estimado em 250 milhões de dólares e já acima de 1,1 bilhão em bilheteria, foi apresentado como primeiro lançamento cinematográfico rodado com câmeras IMAX 70mm, capazes de reduzir o ruído para captar diálogos e filmaram a travessia em embarcação real, com atores remando e velejando. Isso aparece na tela: há uma textura que o digital comum raramente alcança, uma paleta arenosa costurando os saltos temporais, corpos e monstros com peso de coisa tocável. Polifemo devorando os companheiros evoca o “Saturno devorando seus filhos”, de Goya. Os lestrigões e a travessia entre Cila e Caríbdis parecem pensados para devolver matéria ao mito, e isso se sente no peso das coisas.

A cena de Argos foi mantida, e é das mais bonitas, mereceu, inclusive, ser eternizada numa tela Ulysses and Argus, pintada no século XIX pelo artista britânico Briton Rivière. No poema, o velho cão reconhece o dono disfarçado de mendigo, abana o rabo, não encontra forças para levantar-se e morre — vinte anos resolvidos em poucos versos. Nolan a amplia com flashbacks: sublinha o que Homero havia sussurrado, mas comove.

Matt Damon entrega um Odisseu esgotado e crível. A rainha Penélope, interpretada por Anne Hathaway, administra o reino há vinte anos sem poder sentar-se no trono, e diz isso em voz alta. Homero não escreveu essas falas, mas sua Penélope, com o ardil da mortalha tecida de dia e desfeita à noite, já era da mesma estirpe do marido: dar-lhe voz política extrapola um traço que estava lá. São boas invenções: a Helena, por Lupita Nyong’o, presa num casamento violento com Menelau, e o Antínoo, de Robert Pattinson, ganha um passado de covardia — pagou para não embarcar e mandou o filho de um pastor morrer em seu lugar. Nenhum dos dois tem essa espessura no poema.

Há ainda uma importação silenciosa. Sinon, vivido por Elliot Page, não existe em Homero: vem da Eneida, o grego que se deixa capturar e convence os troianos, chorando, a puxar o cavalo para dentro das muralhas. Ali se vê Virgílio, não Homero — o que não chega a ser defeito, desde que o espectador saiba.

E tudo funciona. Chorei, sorri, senti desconforto, suspense, tensão, adrenalina e emoção. São três horas que passam depressa – o que, tratando-se de um poema de três mil anos – é elogio maior do que parece.

E o que mais se perdeu no filme?

Feácios e Nausícaa foram apagados. No poema homérico, o náufrago é recolhido pela princesa e narra suas aventuras na corte de Alcínoo — razão pela qual o leitor só descobre a viagem na metade do livro. Nausícaa é o último teste da provação de Odisseu: jovem, encantadora, com um pai disposto a torná-lo genro e herdeiro do trono. Ele recusa, e a delicadeza da despedida levou Nietzsche a escrever, em Além do Bem e do Mal, que se deve partir da vida como Odisseu partiu dela — “mais abençoando do que apaixonado”. O corte, somado ao desaparecimento do caso amoroso com a feiticeira Circe, torna o Odisseu do filme melhor do que Homero quis.

No filme, a cena da sedutora ninfa do mar, Calipso, por Charlize Theron, engoliu a passagem pela ilha dos lotófagos. No poema, o lótus faz esquecer a pátria, e Calipso retém o herói na ilha Ogígia por sete anos oferecendo-lhe a imortalidade, que ele recusa, chorando à beira-mar, preferindo envelhecer ao lado de uma mortal. Já na película, Odisseu aparece enfeitiçado, sem lembrar sequer que tem esposa e filho: a recusa deixa de ser escolha, e escolha não feita nada significa.

Lamentavelmente, o episódio mais cinematográfico também sumiu. O guardião dos ventos, Éolo, senhor da ilha Eólia, entrega a Odisseu um odre com os ventos contrários; dez dias depois, com Ítaca já à vista, os marinheiros o abrem por cobiça enquanto o capitão dorme, e a tempestade os devolve ao ponto de partida. É a lição central do poema, e Nolan a deixou na praia: a desgraça vem de dentro.

O Hades encolheu. Ali Odisseu encontra a mãe, Anticleia, e descobre que ela morreu de saudade dele; encontra Agamêmnon, morto pela esposa Clitemnestra ao voltar da guerra por vingança pelo sacrifício de sua filha Ifigênia, contraste sombrio com Penélope; e encontra Aquiles, a quem a Ilíada dera o destino duplo de morrer jovem com glória, e que agora confessa preferir ser escravo de um camponês pobre a reinar sobre os mortos. É a Odisseia revogando a ética da Ilíada. No filme, restam apenas Sinon e Agamêmnon. As sereias passam quase despercebidas, quando eram o emblema do autocontrole; e a Telemaquia, os quatro cantos em que o filho procura o pai em Pilos e Esparta, reduziu-se a quase nada.

Por fim, o reconhecimento entre marido e mulher virou um broche dourado com o símbolo de Atena, que Penélope dera a Odisseu antes da partida, no lugar do leito que ele construíra sobre o tronco vivo de uma oliveira enraizada no chão da casa. A troca é eloquente: um objeto que se dá e se carrega tomou o lugar daquele que não podia ser movido. O casamento deixou de ter raiz e passou a ter lembrança.

Os dois Odisseus

O de Homero é “multiversátil” para Trajano Vieira, “a complicated man” para Emily Wilson. Mente com talento, dorme com feiticeiras, chora de saudade e ainda passa um ano com Circe. Busca glória. Não é bom: é admirável, que é outra coisa.

O de Nolan é fiel, arrependido, traumatizado, movido pelo desejo do bem. Atena, vivida por Zendaya, deixa de ser deusa e torna-se projeção de uma jovem troiana morta no saque, consciência culpada que se dissolve quando a culpa é confessada — coerente com o aviso da primeira cena, que promete “um tempo de magia aparente”. Os deuses viram metáfora psicológica; a hybris, trauma. E o final, em vez do trono restaurado, manda o casal ao exílio rumo ao poente, com Telêmaco herdando Ítaca: um Odisseu que termina como Eneias, fundando outra vida em vez de retomar a antiga. Nolan fez dele um homem melhor e um herói menor.

Dias depois, dei por mim invocando Odisseu na tribuna, em uma sustentação oral perante a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Sergipe. O poema não saiu mais de casa.

Vá ao cinema, leve a família e procure a maior tela. Depois abra a Odisseia, um canto por vez, em voz alta, ela foi feita para ser cantada. Você encontrará lá o odre dos ventos, a mãe no Hades, Aquiles arrependido da glória, Nausícaa pedindo para não ser esquecida, e um homem que grita o próprio nome do convés porque não suportou ser Ninguém.

Nolan filmou uma bela viagem. Homero escreveu a que ainda não coube numa tela. E que a megalomania de Nolan o leve a ousar mais duas: a Ilíada e a Eneida. Ainda há muita Troia por filmar.

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