Visão monocromática

06/05/2026 às 13:02

 

 

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Antônio Wellington Brito Júnior

 

Em tempos de paixões ideológicas inflamadas, é comum ouvir que devemos sempre lutar por uma causa. Se necessário, morrer por ela. Ideólogos de todas as cores repetem o mantra: apenas o embate salva. Marxistas convictos, neoliberais do “Tio Sam”, devotos cristãos. Há admiradores de Jesus, de Gandhi, de Trotski e de Thatcher. Alguns dispostos à promoção de guerrilhas contra “a opressão”. Independentemente do credo, o inimigo comum é o mesmo: a inação, o conformismo, a indiferença. O coro compartilhado diz que só haverá mudanças quando houver disposição sólida contra o sistema. Dar a própria vida por uma ideia, se preciso. 

Mas o que significa, de fato, morrer por uma causa? Será defender com unhas e dentes, numa roda de amigos, um ditador de esquerda? Será, enquanto se assiste ao jornal, fechar os olhos para as atrocidades de um tirano de direita? Nunca consegui me filiar integralmente a nenhum dos lados. Para cada problema, vejo a singularidade da perspectiva. Ou simplesmente nada vejo. Apenas duvido. Em alguns temas, inclino-me para um polo; em outros, para o oposto. Há assuntos em que ambos os extremos se voltam contra mim. Viro, então, uma Antígona deslocada das discussões. 

No fundo, vi poucos morrerem por uma convicção inabalável. A morte só convida quando, além da ideia pulsante, há um mundo sombrio levando para a desolação. E, quando esse mundo se impõe sem mediações, nenhuma teoria parece suficiente para descrevê-lo.

Era meados de 1993. O fotógrafo Kevin Carter documentava conflitos africanos. Estava no Sudão. Organismos internacionais lideravam uma missão humanitária de distribuição de alimentos. Uma criança tentava se aproximar do centro de alimentação das Nações Unidas. Faminta, sem forças, caminhava em passos trôpegos. Ajoelha-se no meio do percurso. Depois, prostra-se. Antevê que não chegará ao destino. Um abutre pressente o fracasso e fica ao lado da criança, aguardando o desfecho trágico. Com o olhar fixo, o urubu também tem fome. É o local onde a inanição habita sem qualquer constrangimento. Carter titubeia entre agir e registrar. A cena é aterrorizante. Tão perversa que nem sequer merecesse uma fotografia. Um dilema moral se apossa da mente do fotógrafo. Mas ele é um homem de ação. Antes de socorrer, opta por capturar o momento com sua lente luminosa. Enfrentará depois a hipocrisia dos críticos. Será abjurado por deixar a ave de rapina se aproximar demais do alvo. A foto percorre o planeta. É uma imagem forte demais até para almas martirizadas. Não cabe nem mesmo na infinita dor que grassa nos rincões do globo terrestre. Ganha as páginas do The New York Times. O fotógrafo é aclamado pela crítica e premiado com o festejado Pulitzer. Torna-se modelo de profissionalismo submetido a toda prova. Os detratores o rotulam um insensível, perseguindo cegamente a fama, à custa do suplício. 

Meses passam, e a imagem logo é esquecida. Até que se informa o suicídio da testemunha do Apocalipse. Novamente, a imagem do inferno vem à tona. Quem capturou o colorido da pior imagem da História optou por não viver mais. Dizem que Carter deixa uma carta. Nela, comenta a tristeza que testemunhou. Assevera que o testemunho o massacra. Chega à inarredável conclusão: as pessoas professam milhares de ideias, milhões de sistemas sociais perfeitos, bilhões de modelos adequados de governança, mas não enxergam quem morre subnutrido ao seu lado. É tudo tão absurdo que a existência só pode ser um arremedo do destino. Se, em algum momento de sua vida, leu os “Irmãos Karamázov” de Dostoievski, foi projetado ao capítulo de O Grande Inquisidor, no qual os personsagens Ivan e Aliócha controvertem acerca da presença de Deus num mundo em que crianças indefesas são dizimadas por tiranos desalmados sem que ninguém possa fazer nada. 

As lentes da câmera subjugam a retina do fotógrafo célebre. A desventura premiada enxerga que uma ideia, por mais poderosa, precisa de impulsionamento. E são raros os que, na abstração do abismo, arregaçam as mangas. Intenções altivas são pouco praticáveis. É sempre preciso que o materialismo da vida brutal interceda em favor das grandes teorizações. Burlar a inércia enquanto povos são martirizados e abandonados à própria sorte. Pintar em colorido as fotos que estão em preto e branco, invisíveis no grande desfiladeiro da existência insana. 

A fome, a maior das negativas humanitárias, é um retrato soberano e cru que dispensa qualquer credo. É um documento monocromático onde cabem todas as variações dos feixes de luz. Não é nem de esquerda nem de direita; não escolhe lados. Não reage a meros argumentos. Reina ao lado dos memoráveis pensamentos sem ser notada. É a imagem seca de um abutre, espreitando uma criança inocente. E assiste, impassiva, ao eco de intelectuais teorizando sobre sistemas políticos idealmente perfeitos.

 

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