O preço da prevenção: cortes globais ameaçam combate ao HIV

O mundo corre o risco de retroceder no combate ao HIV devido à drástica redução no financiamento global, alertou o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids). Durante a Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada nesta última semana de julho no Rio de Janeiro, a agência revelou que os recursos globais para o enfrentamento da doença caíram 18% em 2025, atingindo o menor patamar em quase duas décadas. Esse cenário de desfinanciamento coloca em risco direto o alcance do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 (ODS 3), que prevê a erradicação da Aids como ameaça à saúde pública até 2030.
Segundo os dados do Unaids, embora 2025 tenha registrado os menores índices globais em 30 anos — com 1,2 milhão de novas infecções e 570 mil mortes —, a queda nos investimentos estrangula os serviços de prevenção comunitária. A instabilidade afeta severamente a América Latina, região que caminhou na contramão global e contabilizou uma alta de 13% nas novas infecções entre 2010 e 2025.
No Brasil, o cenário exige atenção redobrada sobre a gestão e o financiamento de políticas públicas no Sistema Único de Saúde (SUS). O país, historicamente reconhecido por sua vanguarda no fornecimento universal de tratamentos e na formulação de estratégias de saúde pública, amarga um aumento superior a 20% nos novos casos de infecção desde 2010. Com cerca de 1 milhão de pessoas vivendo com o vírus hoje, o Estado enfrenta o desafio contínuo de garantir orçamento diante da necessidade de incorporação de novas tecnologias preventivas e terapêuticas — um gargalo que, não raramente, deságua no aumento da judicialização da saúde.
Apesar das pressões orçamentárias, o SUS demonstra capilaridade em vitórias recentes. Relatórios discutidos na AIDS 2026 indicam que o acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) saltou 41% no último ano no Brasil. Outro marco histórico comemorado foi a certificação do país como a primeira nação com mais de 100 milhões de habitantes a eliminar a transmissão vertical do HIV (da mãe para o bebê na gestação ou parto), evidenciando a eficácia do cuidado pré-natal na rede pública.
A fronteira científica também trouxe esperança no Rio de Janeiro, com o anúncio de dois novos casos de possível cura (remissão) no Brasil e o avanço de medicamentos injetáveis de ação prolongada, cuja proteção se assemelha à de uma vacina. Contudo, os especialistas presentes no evento foram categóricos: o maior desafio atual deixou de ser apenas científico e passou a ser político e orçamentário.
A garantia de que essas inovações de alto custo cheguem à população de forma equitativa dependerá da solidez do financiamento estatal. Sem um orçamento público robusto que assegure a universalidade do SUS, o Brasil corre o risco de restringir o acesso a essas novas tecnologias, dificultando o cumprimento das metas do ODS 3 e comprometendo a efetividade do direito à saúde no país.
