Queijos e processos

Carlo Ginzburg morreu no último dia 17 de junho, em Bolonha, aos 87 anos. Seu livro “O Queijo e os Vermes”, publicado em 1976, tornou-se um clássico da historiografia e da literatura. Seu autor pertencia à geração que reinventou a maneira de escrever História. Em vez de reis, guerras e tratados, preferiu um moleiro. Em vez dos grandes acontecimentos, processos por heresia.
Não foi por acaso. Ginzburg nasceu em Turim, em 1939. Era filho de Natalia Ginzburg, uma das maiores escritoras italianas do século XX, e de Leone Ginzburg, intelectual antifascista, preso e morto sob tortura pelos nazistas.
Em “O Queijo e os Vermes”, seu personagem real chama-se Domenico Scandella. A aldeia o conhecia como Menocchio. Camponês. Moleiro. Leitor (uma raridade, naquele tempo). Não era padre, jurista nem filósofo. Pertencia àquela classe social da qual ninguém esperava uma cosmologia própria. Mas ele tinha uma que conflitava com a oficial.
Menocchio lera alguns livros religiosos, textos populares, relatos de viagem. Misturou tudo à tradição oral e às próprias experiências. Construiu uma visão de mundo singular. Dizia que o universo nascera de uma massa semelhante a um queijo, da qual surgiram vermes que depois se transformaram em anjos. A imagem atravessou os séculos. Mas o livro não é sobre essa imagem. É sobre a reação que ela provocou, somada a outras ideias heterodoxas dele, como a negativa da natureza divina de Cristo, da virgindade de Maria e algumas outras mais.
As primeiras denúncias não vieram de Roma. Vieram da própria aldeia em que ele vivia. Vizinhos e o pároco local comunicaram ao Santo Ofício que o moleiro dizia coisas “perigosas”. Pouco depois, um simples camponês tornava-se objeto de atenção das mais altas autoridades eclesiásticas.
O contraste já impressiona. De um lado, um homem que vivia do moinho e dizia coisas sem grande conexão lógica ou base estruturada. Do outro, a instituição mais poderosa de seu tempo.
O processo começa em 1584, perante o tribunal inquisitorial de Aquileia e Concordia. Os autos que Ginzburg perlustrou revelam rigor formal. Há denúncia, interrogatórios sucessivos, registros minuciosos, confrontação das respostas, pareceres e sentença. Em apenas um mês, Menocchio é interrogado quatro vezes. Tudo é documentado. Tudo é classificado. Tudo segue um rito processual preciso.
A Inquisição aparece como uma máquina burocrática de impressionante eficiência. Pergunta. Anota. Compara. Retoma. Adverte. Delibera. Depois, pune. Mas existe uma questão que retorna obstinadamente. Quem ensinou aquelas ideias ao moleiro?
Os inquisidores parecem convencidos de que deve existir um mestre, uma seita, uma conspiração ou algum foco de contaminação intelectual. Era o tempo da Reforma Religiosa e da Contrarreforma. Temia-se tudo que não fosse ortodoxo.
Menocchio responde sempre da mesma maneira: as ideias eram suas, tinham nascido em sua própria cabeça. Isso inquieta. A Inquisição parecia mais preparada para enfrentar uma organização do que uma consciência.
A sentença é severa. Menocchio não é apenas declarado herege. É qualificado como “heresiarca”, alguém capaz de fundar e difundir uma nova heresia. A pena de prisão perpétua custeada pelo próprio condenado foi aplicada.
Depois de quase dois anos preso em Concordia, por sua boa conduta, por exprimir arrependimento e desejo de viver em conformidade com as regras religiosas, obtém uma forma de prisão domiciliar vigiada em sua aldeia. A história poderia terminar aí. Porém, quinze anos depois, tudo recomeça.
Novas informações de sua conduta desviante e suas ideias exóticas chegam ao conhecimento das autoridades eclesiásticas. Ele voltara a falar como antes. Outro inquisidor assume o caso. Menocchio já tem cerca de sessenta e sete anos. O processo agora parece perseguir um objetivo diferente. No primeiro julgamento, ainda existia espaço para corrigir. No segundo, resta apenas concluir que toda tentativa de correção fracassou. O homem que antes era considerado recuperável passa a ser tratado como definitivamente irrecuperável. Ele é sentenciado à morte.
Antes, cabe lembrar que há um momento particularmente duro nos autos. Menocchio é submetido ao suplício das cordas. Mesmo sob tortura, recusou aquilo que talvez pudesse salvá-lo. Não atribui suas ideias a terceiros. Não inventa mestres. Não delata inocentes. Insiste em dizer que pensava por conta própria. Do seu jeito: assistemático, confuso. Mas do seu modo.
Roma acompanha o caso de perto. Os juízes hesitam. O Papa Clemente VIII intervém pessoalmente e determina a execução, que se consuma.
Essa resistência confere ao personagem uma conformação peculiar. Não porque o transforme em herói. Mas porque preserva sua autonomia intelectual até o fim.
É nesse ponto que fica explícito que, sob muitos aspectos, “O Queijo e os Vermes” não é apenas um livro sobre um episódio do século XVI, mas, em particular, sobre a aplicação da lei.
O direito contemporâneo continua cercado por autos e depende de comunicações externas para instaurá-los: petições, denúncias. Também hoje a vida chega ao processo por meio de documentos, depoimentos, mensagens, vídeos, laudos e registros digitais. De delações. A tecnologia multiplicou os vestígios. Não eliminou a necessidade de interpretá-los. Ao contrário. Quanto mais evidências existem, maior se torna o risco de imaginar que elas falam sozinhas. Não falam. Toda prova depende de contexto. Toda narrativa depende de escolhas. Todo procedimento transforma acontecimentos dispersos numa sequência inteligível. Todo processo corre o risco de começar já prejulgado.
Os juízes de Menocchio eram seus investigadores. Eram também ofendidos indiretos por suas heresias (dado que a instituição a que pertenciam era o alvo de descredibilização por suas ideias). Eles não apenas decidiam, eles se defendiam de uma potencial ameaça. Seriam imparciais?
Isso conversa com o presente. Ginzburg explicitou que os autos preservam o passado. Mas guardam também as perguntas de quem investigou, as categorias de quem acusou e a linguagem de quem julgou. São documentos preciosos. Jamais indiferentes. É possível recompor uma época com o que eles dizem. É possível refletir muito a partir deles. É possível pensar o presente com base neles.
