Abertura de Mercados Agrícolas

Abordarei neste ensaio, algumas informações estratégicas do Brasil, a partir de dados coletados do painel “Aberturas de Mercados – SCRI”, do Ministério da Agricultura e Pecuária, revelando que a política de abertura de mercados tornou-se um dos principais instrumentos da diplomacia econômica brasileira nos últimos anos. Os dados mostram uma estratégia consistente de diversificação geográfica e de ampliação da pauta exportadora do agronegócio brasileiro.
Um ponto importante é a evolução das aberturas de mercados, conforme verificado nos dados que indicam uma aceleração significativa das negociações internacionais, conforme a saber: 2023: 78 novos mercados, 2024: 222 novos mercados, 2025: 225 novos mercados e 2026 (até 27 de julho): 62 mercados abertos em 93 destinos (países, blocos ou territórios).
Esse crescimento evidencia uma mudança de escala na diplomacia sanitária e comercial brasileira. A abertura de mercados depende de negociações técnicas envolvendo requisitos sanitários, fitossanitários, certificações e acordos bilaterais, processos que frequentemente levam anos para serem concluídos.
O importante é a diversificação da pauta exportadora, através de mercados abertos que abrangem praticamente todas as cadeias produtivas do agronegócio, com destaque para carne bovina e derivados, carne de aves, carne suína, material genético animal, bovinos vivos, pescado, DDG de milho, frutas, como abacate e açaí e sementes, mudas e produtos vegetais.
Observa-se uma evolução importante, pois o Brasil deixa de exportar apenas commodities tradicionais e amplia sua presença em produtos de maior valor agregado, incluindo genética animal e alimentos processados.
A distribuição geográfica em países com maior número de aberturas inclui México, Coreia do Sul, Etiópia, Arábia Saudita, Japão, China, Índia, Canadá, Reino Unido, Estados Unidos, Chile, Rússia, Vietnã, entre diversos outros. Do ponto de vista geopolítico, isso demonstra que o Brasil evita concentrar suas exportações em um único parceiro comercial.
Essa estratégia reduz riscos decorrentes de guerras comerciais, sanções econômicas, crises políticas, desaceleração econômica localizada e barreiras sanitárias.
Existe efetivamente uma predominância dos produtos de origem animal, conforme demonstrado no painel, onde aproximadamente 34,1% das aberturas correspondem a produtos de origem animal, seguidos por produtos vegetais (31,9%), material genético animal (15,6%) e outras categorias.
Isso confirma que a competitividade brasileira permanece fortemente baseada na pecuária, na disponibilidade de terras, na tecnologia tropical desenvolvida pela pesquisa agropecuária e na elevada produtividade.
A evolução observada para os mercados agrícolas brasileiro, confirma diversos conceitos clássicos da Economia Internacional. Em David Ricardo, vejo a teoria das Vantagens Comparativas. Ricardo demonstrou que os países tendem a especializar-se nos produtos em que possuem menor custo relativo de produção.
Neste sentido, o Brasil possui vantagens comparativas claras em proteína animal, soja, milho, açúcar, café, frutas tropicais e celulose. Cada abertura de mercado amplia o aproveitamento dessas vantagens.
De acordo com Heckscher-Ohlin, este modelo é o de países que exportam bens intensivos nos fatores de produção que possuem em abundância. Dessa forma, o Brasil dispõe de grande disponibilidade de terras, água, clima favorável e tecnologia agropecuária tropical. Consequentemente, torna-se um grande exportador agrícola.
Na nova Teoria do Comércio de Paul Krugman, temos o argumento que economias de escala e diferenciação dos produtos também determinam o comércio internacional, pois a abertura para produtos como genética animal, alimentos industrializados, DDG e ingredientes para alimentação animal, apontam que o Brasil avança além da exportação de commodities primárias.
Na dimensão que gosto de analisar que é a dimensão Geopolítica, as aberturas de mercado possuem significado estratégico na segurança alimentar mundial. Este item foi afetado recentemente por pandemias, a Guerra Rússia-Ucrânia, as tensões no Mar Vermelho e os conflitos no Oriente Médio; fazendo com que a segurança alimentar passasse a ocupar posição central nas agendas nacionais. Diante deste cenário, o Brasil consolidou-se como fornecedor confiável. Um fato positivo é que o painel da abertura comercial da agricultura brasileira demonstra uma forte expansão em mercados para Ásia, África e Oriente Médio. Isso demonstra uma política comercial compatível com um mundo multipolar, no qual o crescimento econômico desloca-se progressivamente para o Sul Global.
Os dados indicam que o Brasil vive um período de elevada eficácia na abertura de mercados agrícolas. Entre 2023 e 2025, o número anual de novos mercados praticamente triplicou, refletindo uma atuação coordenada entre diplomacia comercial, defesa agropecuária e negociação sanitária.
Sob a perspectiva econômica, essa evolução reforça a posição do Brasil como uma potência agroexportadora baseada em vantagens comparativas e ganhos de escala. Do ponto de vista geopolítico, a diversificação de parceiros comerciais fortalece a inserção internacional do país, reduz sua dependência de mercados específicos e amplia sua relevância na segurança alimentar global. O desafio estratégico para os próximos anos será converter esse avanço em maior agregação de valor às exportações, ampliar a participação de produtos industrializados do agronegócio e preservar a competitividade diante de exigências ambientais e sanitárias cada vez mais rigorosas.
