Benefícios e atração de trabalhadores

O mercado de trabalho contemporâneo vem passando por uma transformação importante na forma como os trabalhadores avaliam uma oportunidade profissional. O salário continua sendo elemento central, mas deixou de ser o único componente capaz de determinar a atratividade de uma vaga. Benefícios como vale-transporte, plano de saúde, vale-refeição, seguro de vida, plano odontológico, vale-alimentação, participação nos lucros e resultados e programas de bem-estar passaram a integrar uma dimensão mais ampla da remuneração e da qualidade do emprego.
Um levantamento realizado pelo Infojobs, com 211.422 vagas publicadas entre junho e setembro de 2026, ajuda a dimensionar essa realidade. O vale-transporte aparece em 109.608 oportunidades, correspondendo a 51,8% da base analisada. O plano de saúde está presente em 74.152 vagas, ou 35,1%, enquanto o vale-refeição aparece em 63.429 anúncios, aproximadamente 30% do total. Também apresentam elevada frequência o seguro de vida, o plano odontológico e o vale-alimentação.
Esses números revelam algo que vai além de uma simples preferência das empresas por determinados benefícios. Eles mostram que uma parcela relevante da remuneração do trabalhador está associada à capacidade de a empresa contribuir para despesas que fazem parte do cotidiano das famílias, a exemplo de: deslocamento, alimentação, saúde, proteção financeira e bem-estar. Benefício não é apenas vantagem, trata-se de renda disponível. Uma maneira importante de compreender os benefícios é observar seu efeito sobre a renda efetivamente disponível para o trabalhador.
Imagine dois profissionais com salários nominais semelhantes. O primeiro precisa arcar integralmente com transporte, alimentação durante a jornada e despesas médicas. O segundo recebe vale-transporte, vale-refeição e plano de saúde. Embora os dois possam apresentar salários semelhantes na folha de pagamento, a renda econômica disponível para suas famílias pode ser bastante diferente.
É justamente nesse ponto que os benefícios assumem uma dimensão social e econômica relevante. O vale-transporte reduz uma despesa necessária para que o trabalhador consiga exercer sua atividade profissional. O vale-refeição e o vale-alimentação ajudam a proteger parte da renda destinada à alimentação. O plano de saúde reduz a exposição financeira a despesas médicas e amplia o acesso a serviços de saúde. O seguro de vida oferece proteção adicional à família diante de eventos inesperados. O plano odontológico atua sobre uma despesa que muitas vezes é postergada pelas famílias de menor renda.
Portanto, não se deve analisar exclusivamente o salário nominal. É necessário observar o que poderíamos chamar de renda econômica ampliada do trabalhador, formada pela remuneração monetária mais o valor econômico e social dos benefícios recebidos.
Essa perspectiva é particularmente importante para trabalhadores de menor renda. Para quem recebe uma remuneração elevada, determinado benefício pode representar uma conveniência. Para uma família com orçamento restrito, entretanto, um benefício pode significar a diferença entre conseguir ou não realizar uma consulta médica, manter uma alimentação adequada durante a jornada ou preservar parte da renda para outras despesas essenciais.
Essa discussão pode ser relacionada ao pensamento do economista indiano Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1998. Sen desenvolveu a chamada abordagem das capacidades, segundo a qual o desenvolvimento não deve ser medido apenas pelo crescimento da renda ou pela quantidade de bens que uma pessoa possui. O elemento fundamental é a capacidade efetiva que o indivíduo tem de escolher e realizar aquilo que considera importante para sua vida. Essa abordagem ajuda a compreender por que os benefícios trabalhistas podem produzir efeitos que ultrapassam seu valor monetário.
Um plano de saúde, por exemplo, não representa apenas uma vantagem financeira. Ele pode ampliar a capacidade de uma pessoa de cuidar da própria saúde. O vale-transporte não é apenas um crédito destinado ao deslocamento, ele pode ampliar a capacidade de acessar o local de trabalho. O auxílio-creche pode aumentar as possibilidades de participação profissional de trabalhadores com filhos pequenos. O benefício alimentação pode contribuir para a segurança alimentar da família. Assim, os benefícios podem ser entendidos como instrumentos que ajudam a transformar renda em capacidades concretas. Essa distinção é fundamental. Duas pessoas podem receber a mesma remuneração, mas apresentar condições de vida diferentes dependendo de suas necessidades, responsabilidades familiares, localização, acesso a serviços públicos e custos associados ao trabalho.
A contribuição de Sen permite, portanto, ampliar o debate sobre se a qualidade de um emprego não deveria ser avaliada apenas pelo salário, mas também pelas condições que ele oferece para que o trabalhador tenha maior segurança, autonomia e possibilidades de desenvolvimento.
Do ponto de vista empresarial, os benefícios também possuem uma função estratégica. Em mercados de trabalho mais competitivos, as empresas disputam trabalhadores não apenas pelo salário, mas pelo conjunto da experiência oferecida. Um profissional pode comparar duas oportunidades levando em consideração salário, plano de saúde, alimentação, transporte, possibilidade de participação nos resultados, jornada, flexibilidade e perspectivas de desenvolvimento.
A discussão ganha ainda mais importância quando conectada às políticas de inclusão produtiva. Inserir uma pessoa no mercado formal de trabalho é fundamental, mas o objetivo da inclusão produtiva não deveria terminar na obtenção de um emprego. É necessário criar condições para que esse emprego seja capaz de contribuir para uma trajetória sustentável de melhoria de vida.
