Inclusão produtiva pode mudar o patamar de vida

A formação de novos Mecânicos de Manutenção Aeronáutica (MMA), anunciada a partir da parceria entre o SEST SENAT e a Azul, abre uma oportunidade que vai muito além da capacitação de profissionais para atender às necessidades da aviação brasileira. Ela permite pensar em uma questão estratégica para o Brasil que seria como transformar políticas de transferência de renda e proteção social em portas de entrada para trajetórias profissionais capazes de mudar, de forma duradoura, o patamar de vida das famílias de baixa renda.
O acordo prevê a formação de mecânicos de aeronaves em Campinas, inicialmente nas habilitações de Aviônicos e Célula, com possibilidade de posteriormente incorporar também o Grupo Motopropulsor (GMP). A primeira turma está prevista para o segundo semestre de 2027.
Esse movimento é particularmente relevante porque a aviação não representa apenas um setor de alta tecnologia. Ela também possui uma cadeia de atividades que demanda profissionais especializados, certificados e submetidos a padrões rigorosos de formação e segurança. Em 2026, o próprio Ministério de Portos e Aeroportos lançou 74 bolsas gratuitas para a formação de Mecânicos de Manutenção Aeronáutica, em parceria com o SENAT, com curso de 1.440 horas, incluindo 1.200 horas de formação teórica e 240 horas de estágio obrigatório.
É justamente nesse ponto que surge uma agenda de grande importância para o Cadastro Único e o Bolsa Família, que é da proteção social à inclusão produtiva. Cabe destacar que o Cadastro Único não deveria ser compreendido apenas como uma porta de entrada para benefícios sociais. Ele constitui uma grande infraestrutura de identificação das famílias de baixa renda brasileiras e pode ajudar o Estado a localizar pessoas que possuem potencial para participar de processos de qualificação profissional e inserção produtiva, que é exatamente o trabalho que desenvolvemos.
O Bolsa Família, por sua vez, tem como função central assegurar proteção social e contribuir para a superação de situações de pobreza. A existência do benefício não deve ser vista como incompatível com a busca por emprego e qualificação. Ao contrário, o desenho do programa contempla mecanismos como a Regra de Proteção, justamente porque uma família pode elevar sua renda por meio do trabalho sem que isso signifique imediatamente a perda de toda a proteção. Essa concepção é fundamental para uma política moderna de inclusão socioeconômica.
O desafio de análise é acompanhar quantas pessoas do Cadastro Único conseguiram ingressar em uma trajetória profissional capaz de elevar estruturalmente sua renda, sua qualificação e suas perspectivas de vida.
Na minha visão, o mecânico de aeronaves é um importante exemplo de mobilidade social, sendo a formação de um Mecânico de Manutenção Aeronáutica um exemplo emblemático dessa mudança de abordagem. Não se trata simplesmente de oferecer uma ocupação temporária ou uma atividade de baixa produtividade. Trata-se de construir uma trajetória que exige formação técnica, conhecimentos especializados, disciplina, responsabilidade e certificações específicas.
Desa forma, trabalha-se na construção de um programa de formação nessa área de forma integrada com uma estratégia de inclusão socioeconômica do Cadastro Único, identificando jovens e adultos de famílias de baixa renda que apresentem perfil, escolaridade e interesse compatíveis com a formação.
O processo é iniciado no território de residência do público-alvo, identificando-se inicialmente que está no cadastro único, para que seja possível a adequada orientação profissional, seguida de um nivelamento educacional, passando para a formação técnica, tendo na sequência um estágio e por fim a certificação e contratação do empregado, na perspectiva de progressão profissional. Referida ação obedece a lógica de que o objetivo final não é simplesmente retirar uma pessoa da condição de beneficiária de um programa social; o que se pretende é criar condições para que ela conquiste autonomia econômica sustentável.
Ressalte-se que existe uma diferença importante entre inclusão laboral e mobilidade socioeconômica, pois uma pessoa pode ingressar no mercado de trabalho e continuar submetida a baixos salários, elevada rotatividade e pouca possibilidade de progressão. Nesse caso, houve inserção ocupacional, mas o salto de qualidade de vida pode ser limitado. Já a inclusão produtiva de maior impacto procura alcançar outro resultado, como o de elevar o estoque de capital humano da pessoa e colocá-la em uma trajetória profissional ascendente. É aqui que ocupações técnicas especializadas podem desempenhar papel importante.
Um jovem de uma família inscrita no Cadastro Único que consiga ingressar em uma formação aeronáutica pode experimentar uma mudança que ultrapassa seu próprio emprego. A nova qualificação pode alterar sua renda, suas expectativas profissionais, sua capacidade de financiar a educação dos filhos e sua possibilidade de adquirir bens, morar melhor e planejar o futuro. O impacto pode alcançar toda a família.
A lógica que é trabalhada no Cadastro Único é a de identificar capacidades, vocações e oportunidades. Imagine, por exemplo, que uma pessoa de 19 anos, pertencente a uma família de baixa renda, esteja concluindo o ensino médio, tenha interesse por mecânica e viva em uma região próxima a um polo aeronáutico. Essa pessoa poderá ser identificada para receber orientação profissional; reforço em matemática, física e inglês técnico; preparação para processos seletivos; bolsa de formação; auxílio para transporte e alimentação; formação técnica; estágio; certificação profissional e por final será empregada por uma empresa. Essa integração pode transformar uma vaga de treinamento em uma verdadeira ponte de mobilidade social.
