ARACAJU/SE, 29 de agosto de 2025 , 16:17:03

Conheça nova série em streaming que aborda contrabando de remédios contra AIDS, na década de 80, no Brasil

 

Na década de 1980, o Brasil passou por uma epidemia de AIDS — rotulada de forma preconceituosa, devido à desinformação, como “câncer gay” pelos jornais da época.

Em 1989, os Estados Unidos começaram a comercializar o medicamento AZT, usado no tratamento contra a AIDS. No entanto, na época, o remédio não era distribuído no Brasil. Diante da situação, os comissários de bordo da extinta companhia aérea Varig começaram a contrabandear o AZT dos EUA para o Brasil. Os comissários brasileiros não passavam pela alfândega e, por isso, os comprimidos entravam livremente no país. Muitos funcionários do aeroporto sabiam sobre o contrabando do medicamento AZT, mas por causa da epidemia, deixavam os comprimidos entrarem no Brasil.

A nova minissérie da HBO Max, “Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente”, retrata a história dos comissários de bordo que contrabandeavam AZT para o Brasil.

Na produção, Fernando ou Nando (Johnny Massaro) vê alguns amigos da comunidade LGBTQIA+ sofrerem com a AIDS, mas continua desdenhando do crescente número de casos. Nando vive em uma bolha de negação contra a doença até receber seu próprio diagnóstico.

Em busca de tratamento, Nando e Lea (Bruna Linzmeyer), sua melhor amiga na aviação, começam a trazer AZT, que só passaria a ser produzido no Brasil em 1993, de forma ilegal. Posteriormente, o esquema começa a ser ampliado para ajudar outras pessoas da comunidade LGBTQIA+ (e toda a sociedade).

Nando é diagnosticado por uma médica da empresa em que trabalha, que decide omitir a doença da aviação para permitir que ele consiga fazer o contrabando. Afinal, os funcionários que recebiam diagnóstico de AIDS eram afastados por invalidez e impedidos de trabalhar. Na época, a doença era vista como uma sentença de morte e devido a desinformação, as pessoas acreditavam que a transmissão acontecia somente pelo toque físico — levando a ações preconceituosas de segregação contra pessoas com HIV.

“As pessoas hoje em dia que vivem com HIV, vivem bem, vivem por muitos anos com toda a medicação. A gente tem os medicamentos de prevenção, como a PReP e o PEP. Mas, apesar de tudo isso, o preconceito, o estigma ainda é enorme. Então, a gente espera que a série traga o debate, que as pessoas se sintam provocadas a repensar e discutir e – quem sabe – a gente conseguir diminuir um pouquinho do preconceito”, disse a diretora da minissérie, Carol Minêm.

Os remédios de Profilaxia Pré-Exposição (PReP) são comprimidos antirretrovirais que devem ser tomados diariamente para impedir o estabelecimento do vírus HIV no corpo. Já o medicamento de Profilaxia Pós-Exposição (PEP) é um tratamento iniciado após a exposição ao vírus.

“A gente evoluiu muito, mas eu acho que ainda falta um pouco da gente falar disso. Porque existe o PreP e o PEP, mas as pessoas não sabem. Hoje em dia as pessoas que tomam o PreP é muito mais a comunidade LGBT, mas tem muita mulher que se infecta com o vírus. Então, por que que todo mundo não está discutindo, pensando e falando? Acho que, apesar de toda a evolução no nosso sistema de saúde, ainda falta a gente falar mais sobre esse assunto”, diz Minêm.

A diretora ainda ressalta a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) para a distribuição dos medicamentos. “Não existe nenhum país como o Brasil que distribui a medicação tanto para prevenção quanto para quem vive com HIV, de maneira tão diversa para todo o país, para toda a população, e de graça”.

A obra fala sobre um período histórico muito conturbado no Brasil, ao mesmo tempo em que ressalta a importância do debate sobre a doença e dos riscos de contaminação, independente da orientação sexual. “O desafio é ser fiel à realidade e também poder criar, porque afinal é uma história de ficção, com vários pontos ficcionais. Mas a gente cria para entreter, para instigar as pessoas a assistirem, mas com fidelidade aos fatos reais”, conta Minêm.

Luta pela sobrevivência

A ideia de contar essa história real surgiu do produtor, Tiago Pimentel. “Ele assistiu ao documentário Carta Para Além dos Muros. A produção tem uma pessoa que conta que tomou o remédio trazido por comissários de bordo ilegalmente e trouxeram para o Brasil os remédios nos anos 1980. Ele achou essa ideia muito interessante, foi investigar. Aí, surgiu a ideia da série”, conta Minêm.

“A gente fez muita pesquisa, conversou com pessoas que trouxeram remédio na época. Ele [Tiago Pimentel], procurou a HBO e a gente criou essa história junto com os nossos criadores, Léo Moreira e a Patrícia Corso. Espero que as pessoas gostem”, afirma a diretora.

O processo de interpretar os personagens também exigiu um extenso processo pesquisa. “Um eixo de pesquisa que eu fiz foi sobre os anos dourados da aviação, do que era trabalhar com uma como comissária de bordo nos anos 1980/1990. Conversei com algumas comissárias e tinha de antecipar as necessidades do cliente: um prazer em servir”, diz Bruna Linzmeyer para a GALILEU.

“E eu acho que a Lea é uma personagem que ela tem muito prazer em se doar para o outro. Ela se doa para o Nando, ela se doa para a causa do contrabando do AZT, ela se doa para o amante dela, que não quer nada com ela, que a trata supermal”, afirma. “Eu acho que o arco dela é algo que, talvez, todas nós mulheres temos que atravessar em algum momento, que é o de conseguir olhar para si: o que é que eu quero da minha vida?”.

“Então, existe uma doçura dessa mulher. Mas ela está atravessando muita porrada, e ela sustenta. Ela está morrendo de medo do Nando morrer, ela tem medo de ser presa, ela tem medo de perder esse filho, ela tem medo do que que vai ser esse amante que não quer se separar”, conta Bruna Linzmeyer.

“Ela tem medo de perder o emprego, mas ela vai sustentando as coisas com doçura. E eu acho que isso é desafiador. E a série tem uma linguagem de série: as coisas acontecem muito rápido, as cenas acontecem muito rapidamente. Então, é preciso sustentar essas camadas”, afirma Linzmeyer.

Johnny Massaro destaca a liberdade de seu personagem. “Fernando é um comissário de bordo dos anos 1980 e 1990, que vive a sua vida de forma absolutamente livre, vive todos os seus prazeres, transa com quem quer, vai para onde quer, principalmente porque é um comissário de bordo. Então, ele transita pelo mundo numa época que isso era um pouco mais difícil”, diz.

“Ao mesmo tempo, ele é um personagem com toda essa pulsão de vida que descobre o diagnóstico. Ele se vê diante da própria finitude, da própria vulnerabilidade. Então, acaba tendo que fazer esse percurso de egoísmo para a alteridade, do individualismo para a coletividade”, afirma. “Eu acho que a série faz esse serviço, sabe? Não só de atualizar o que é viver com HIV hoje em dia, porque felizmente é radicalmente diferente do que era viver na época”.

Massaro conta recebeu o impacto do seu personagem e da série antes da estreia. “Eu já tenho recebido muitas mensagens de pessoas que vivem com HIV. Pessoas que dizem, tipo: ‘olha, descobri o diagnóstico no começo do ano, estou sabendo que a série vai rolar’ ou ‘vivo com HIV há nove anos’. Então, isso impacta muito, porque cumpre um papel, fecha um ciclo do fazer artístico, que envolve obviamente entreter, mas idealmente também poder informar e transformar a sociedade”.

Qual é a situação da AIDS no Brasil?

Segundo o boletim epidemiológico da Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), de 2007 até junho de 2023, foram notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) 489.594 casos de infecção pelo HIV no Brasil. Desses números, 41,5% eram da região Sudeste, 21,3% do Nordeste, 19,1% do Sul, 10,2% do Norte e 7,9% do Centro-Oeste. Entre 2020 e 2022, houve um aumento de 17,2% no número de casos de infecção pelo HIV.

“A série traz ao debate público o tema do HIV/AIDS, sobre a importância da gente falar sobre isso e procurar informação sobre quais são os processos que a gente precisa passar quando se expõe ou foi exposta a uma situação de risco”, ressalta a atriz travesti Kika Sena.

“Eu acho que acho que a gente precisa de educação. Eu acho que a gente precisa ir para as escolas, pensar que o espaço da educação básica, por exemplo, é um espaço de discussão sobre saúde. E eu acho que inclusive a falta de informação, a falta de estudo é que nos põe em situação de risco, porque cria preconceito”, afirma.

Johnny Massaro conta a GALILEU que, na sua visão, a série alcança um serviço social sobre o debate da AIDS. “Márcia Rachid, nossa consultora, bate muito nessa tecla que, sim, naquela época era uma sentença de morte. Mas hoje é uma sentença de vida, especialmente porque pessoas que vivem com HIV e estão em tratamento, têm expectativa de vida igual ou muitas vezes maior do que quem não vive, justamente por conta de um acompanhamento periódico”, diz Massaro.

“Por que ainda as pessoas que vivem com HIV têm essa vergonha? É essa vergonha, esse preconceito, esse estigma, essa desinformação que ainda matam 10 mil pessoas por ano. Então, a gente precisa falar sobre isso, porque essas pessoas não precisam morrer. Porque, embora não tenha cura, tem um tratamento que garante a qualidade de vida dessas pessoas”.

A minissérie “Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente” estreia no dia 31 de agosto na HBO Max.

Fonte: GALILEU

 

 

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