Em janeiro de 1976, há exatos 50 anos, o mundo se despediu de um dos maiores talentos da literatura: Agatha Christie. Autora de uma obra monumental, traduzida para dezenas de idiomas e lida por milhões de pessoas ao redor do planeta, ela foi a romancista que mais vendeu livros na história.
Nascida em 15 de setembro de 1890, em Torquay, no sul da Inglaterra, Christie era filha de Frederick Miller, um americano abastado, e de Clara Boehmer. Cresceu em Ashfield, uma grande casa com jardim, onde teve uma infância confortável e pouco convencional. Educada em casa nos primeiros anos, aprendeu a ler sozinha ainda muito jovem, aos 5 anos de idade. Nesse período, teve a imaginação profundamente estimulada pelas histórias contadas por Clara e pelas leituras infantis, desenvolvendo o hábito de criar seus próprios mundos e personagens.
Sua educação prosseguiu na França, onde estudou música, canto e piano. Chegou até mesmo a considerar seguir carreira na área, mas abandonou a ideia devido à timidez. Foi nesse período que se consolidou seu amor por viagens, uma influência decisiva em sua obra futura.
O nascimento de Poirot
Durante a Primeira Guerra Mundial, Agatha trabalhou como enfermeira e, posteriormente, em um dispensário hospitalar. Essa experiência foi crucial para sua escrita, já que o contato com medicamentos e substâncias tóxicas forneceu o conhecimento técnico que tornaria os envenenamentos uma marca registrada de seus enredos. Em meio à guerra, aceitou uma aposta da irmã Madge e decidiu escrever um romance policial. Assim nasceu O Misterioso Caso de Styles, publicado em 1920, que apresentou ao mundo o detetive belga Hercule Poirot.
Naquela época, milhares de refugiados belgas buscaram abrigo na Inglaterra, e a cidade de Torquay os recebeu com hospitalidade. Agatha Christie imaginou então que um desses refugiados — um antigo e brilhante policial belga — seria o detetive ideal para protagonizar seu romance.
Para o método do crime, Agatha recorreu naturalmente ao veneno, valendo-se do conhecimento adquirido em seu trabalho no dispensário durante a guerra. A precisão com que descreveu o envenenamento foi tamanha que, após a publicação do romance, ela recebeu um reconhecimento incomum para uma autora de ficção: uma resenha elogiosa no Pharmaceutical Journal. Para concluir o manuscrito, isolou-se por duas semanas no Moorland Hotel, em Dartmoor, onde, durante longas caminhadas, encenava cenas e dialogava em voz alta como se fosse suas próprias personagens. Apesar do esforço, o texto foi inicialmente rejeitado por diversas editoras.
O ano de 1919 marcou uma virada decisiva. Após o fim da guerra, Archie Christie — com quem Agatha era casada desde 1914 — conseguiu emprego na capital, de modo que o casal se mudou para um apartamento em Londres. Em 5 de agosto, nasceria Rosalind, a única filha da escritora. Nesse mesmo ano, o editor John Lane, do The Bodley Head — o sétimo a avaliar o manuscrito — aceitou publicar O Misterioso Caso de Styles e contratou a escritora para produzir mais cinco livros, sugerindo alterações que incluíam o famoso desfecho na biblioteca, em vez de um clímax no tribunal.
Novas obras
Nos anos seguintes, Agatha ampliou sua produção literária, experimentando novas formas de suspense, como O Adversário Secreto, que apresentou a dupla Tommy e Tuppence. Em 1922, ela e Archie embarcaram em uma longa viagem pelo Império Britânico, deixando Rosalind aos cuidados da família. A experiência rendeu episódios curiosos — como Agatha tornar-se a primeira mulher britânica a surfar em pé — forneceu material para obras ambientadas na África, como O Homem do Traje Marrom. De volta à Inglaterra, a família se estabeleceu em Sunningdale, onde Agatha publicou seu segundo romance de Poirot, Assassinato no Campo de Golfe, e decidiu mudar de editora, passando a trabalhar com a William Collins and Sons, atual HarperCollins, em busca de condições mais justas para sua carreira.
Eram meados da década de 1920 e o sucesso literário de Christie crescia. Mas no ano de 1926 sua vida pessoal entraria em colapso, com a morte da mãe e o fim do casamento. Nesse mesmo ano, protagonizou um episódio que se tornaria um dos mais intrigantes de sua biografia: seu desaparecimento por 11 dias, amplamente divulgado pela imprensa. Encontrada em um hotel utilizando um nome falso e alegando não reconhecer o próprio marido, Agatha jamais comentou publicamente o ocorrido.
No final de 1927 Agatha criou Miss Jane Marple, uma detetive amadora de inteligência notável. Pouco depois, conheceu o arqueólogo Max Mallowan, com quem se casou em 1930. Ao lado dele, passou longas temporadas no Oriente Médio, participando ativamente de escavações arqueológicas. Essas viagens influenciaram diretamente romances, como Assassinato no Expresso do Oriente, Morte no Nilo e Assassinato na Mesopotâmia.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Agatha manteve uma produção intensa, escrevendo algumas de suas obras mais sombrias, como E Não Sobrou Nenhum. Nesse período, redigiu também Cai o Pano e Um Crime Adormecido, os romances finais de Poirot e Miss Marple, guardados para publicação futura. Paralelamente, investiu no teatro, alcançando sucesso com A Ratoeira.
Ao longo das décadas seguintes, Christie consolidou sua posição como ícone literário. Ela chegou a explorar outros gêneros sob o pseudônimo Mary Westmacott e recebeu inúmeras honrarias, incluindo o título de Dama do Império Britânico, em reconhecimento à sua contribuição à literatura. Faleceu tranquilamente em 1976, aos 85 anos de idade.
Fonte: Aventuras na História





