ARACAJU/SE, 13 de março de 2026 , 12:27:40

Pesquisa sobre nanocelulose extraída de bagaço de malte recebe prêmio 25 Mulheres na Ciência

 

O Brasil figura entre os maiores produtores de cerveja do planeta e, junto aos bilhões de litros fabricados anualmente, gera grandes volumes de bagaço de malte como resíduo do processo produtivo. Composto por celulose, hemicelulose e lignina, esse subproduto costuma ter destinação limitada e baixo valor econômico. Convertê-lo em um material de alto desempenho tecnológico exige não apenas reaproveitamento, mas conhecimento químico aprofundado e perspectiva de aplicação em escala industrial.

Foi com base nesse desafio que a doutoranda Gabriela Barros, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos (PEP) da Universidade Tiradentes, conceito máximo na CAPES, desenvolveu a tese intitulada “Biofilmes de nanocompósitos de bagaço de malte”. O estudo lhe garantiu o prêmio 25 Mulheres na Ciência – América Latina 2026, promovido pela 3M, entregue em 11 de fevereiro, data que marca o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência.

A pesquisa converte o principal resíduo da indústria cervejeira em um material ultrafino denominado nanocelulose, posteriormente combinado a outros componentes para a formação de filmes biodegradáveis. Esses biofilmes podem ser aplicados na produção de embalagens sustentáveis e em revestimentos industriais. Além de contribuir para a redução de resíduos, o trabalho demonstra que é possível obter um produto resistente e estável, com potencial para competir com alternativas já consolidadas no mercado.

De acordo com Gabriela, o maior obstáculo esteve na complexidade estrutural do material de origem. “O principal desafio foi transformar um resíduo complexo como o bagaço de malte, rico em celulose, hemicelulose e lignina, em uma nanocelulose com características específicas para a formação do produto final. Foi necessário otimizar etapas de pré-tratamento químico para não degradar excessivamente a fração celulósica”, explica.

Engenharia aplicada

Ao iniciar o doutorado, Gabriela decidiu adotar metodologias já estabelecidas na literatura científica. Contudo, ao longo do desenvolvimento do estudo, percebeu que apenas reproduzir protocolos existentes não asseguraria os resultados pretendidos para o tipo de extração desejado. “Esse processo me ensinou a desenvolver maior senso crítico, especialmente na seleção, adaptação e validação das metodologias”, relata.

Um dos pontos de destaque da pesquisa foi a utilização de um processo químico menos agressivo, desenvolvido e patenteado pelo grupo de pesquisa, além da escolha de um resíduo agroindustrial abundante e ainda pouco valorizado. “O uso do bagaço de malte e de um processo químico menos agressivo foi essencial para garantir eficiência sem comprometer a integridade da nanocelulose”, enfatiza.

Para validar a eficácia do material, a pesquisadora submeteu os biofilmes a diversos ensaios laboratoriais. Entre os testes realizados, foram analisadas a resistência à tração, a capacidade de suportar esforços sem rasgar e o nível de alongamento antes da ruptura, propriedades fundamentais para assegurar que uma embalagem não se rompa com facilidade.

Também foram conduzidas análises térmicas para verificar o comportamento do material diante de variações de temperatura, avaliando sua estabilidade estrutural, além de testes de barreira ao vapor d’água, fator determinante na conservação de alimentos e medicamentos. Adicionalmente, exames microscópicos permitiram examinar a estrutura interna e identificar o tipo de nanocelulose obtido, característica que influencia diretamente na resistência e na durabilidade do produto final.

Escala e mercado

O avanço decisivo da pesquisa ocorreu quando os resultados passaram a se aproximar dos parâmetros exigidos por materiais que já competem no segmento de embalagens inteligentes. No Brasil, onde a produção de cerveja é significativa, o bagaço de malte é gerado em grandes quantidades e frequentemente subaproveitado. Sua transformação em nanocelulose amplia o ciclo de vida do resíduo, agrega valor tecnológico e reduz impactos ambientais, inserindo-o em cadeias produtivas mais sofisticadas.

Segundo Gabriela, o material apresenta potencial de aplicação nas indústrias alimentícia, farmacêutica e cosmética, sobretudo na fabricação de embalagens biodegradáveis e revestimentos com propriedades específicas de barreira e resistência. “Atualmente, o principal desafio para avançar rumo à escala industrial está relacionado ao custo energético do pré-tratamento necessário para a extração da nanocelulose”, ressalta.

Reconhecimento internacional

Para Adriana Santos, docente do PEP da Universidade Tiradentes e orientadora da tese, o reconhecimento internacional está associado à solidez científica e ao potencial de aplicação prática do trabalho. “A pesquisa desenvolvida por Gabriela se destaca pela integração entre inovação tecnológica, sustentabilidade e potencial de aplicação industrial. Trata-se de uma abordagem alinhada à economia circular, agregando valor a um resíduo e transformando-o em um material de alto desempenho tecnológico”, afirma.

Ela destaca que o diferencial do projeto reside na combinação entre rigor metodológico, inovação no processo de extração e viabilidade de escalonamento. “Não se trata apenas de um avanço laboratorial, mas de uma proposta com potencial de transferência tecnológica”, observa, acrescentando que a premiação evidencia a qualidade da produção científica desenvolvida no programa.

Sobre o perfil da pesquisadora, Adriana aponta características decisivas para o resultado alcançado. “Sua curiosidade é marcada pela busca constante por soluções inovadoras e pela disposição em aprofundar discussões teóricas e experimentais. Outro aspecto decisivo é sua paixão pela ciência. Quando assume um desafio, o faz com planejamento, foco e dedicação; essa persistência foi essencial para que sua pesquisa alcançasse reconhecimento internacional”, destaca.

Para a professora, a conquista amplia a visibilidade da ciência produzida no país e reforça o protagonismo brasileiro na área de materiais sustentáveis. “A conversão do bagaço do malte em nanocompósitos aplicáveis a biofilmes poliméricos sustentáveis posiciona o Brasil como agente relevante na transição para uma economia circular e de baixo impacto ambiental. No campo dos materiais sustentáveis, essa conquista fortalece o protagonismo do país na valorização de resíduos agroindustriais e no desenvolvimento de biomateriais avançados”, conclui.

Fonte: Asscom Unit

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