Entre 25% e 40% do peso eliminado com medicamentos à base de GLP-1, como o Ozempic e o Wegovy, não é gordura: é massa magra. Isso inclui músculo, tecido fundamental para mobilidade, metabolismo da glicose e qualidade de vida a longo prazo.
O problema não é exclusivo desses medicamentos cujo princípio ativo é a semaglutida. Toda intervenção para emagrecimento, dietas, cirurgia bariátrica, uso de GLP-1, implica alguma perda muscular. O que diferencia o momento atual é a escala: com dezenas de milhões de pessoas usando esses medicamentos em todo o mundo, o impacto coletivo sobre a massa muscular se tornou uma questão clínica relevante o suficiente para mobilizar laboratórios farmacêuticos e pesquisadores independentes, segundo a Scientific American.
Ensaios clínicos com semaglutida e com tirzepatida (vendida como Zepbound e Mounjaro) estimam que, em alguns anos de tratamento, pacientes podem acumular uma perda muscular equivalente a duas décadas de envelhecimento natural. Entre os 20 e os 80 anos, o ser humano já perde cerca de 30% da sua massa muscular de forma gradual. Adicionar o efeito dos GLP-1 a esse processo, especialmente em pessoas mais velhas, que já têm massa muscular reduzida e uma alta taxa de prescrição desses medicamentos, pode resultar em perda significativa de força e função física.
O músculo que não aparece na balança
Músculos são mais do que estrutura: eles são o principal local de armazenamento e metabolização de glicose no organismo. A massa muscular de uma pessoa é um dos preditores mais confiáveis de sua mobilidade futura. Perder músculo, mesmo em proporção ao peso total perdido, amplifica o risco de quedas, fraturas e declínio metabólico. Uma pesquisa ainda em fase de revisão por pares aponta uma possível associação entre o uso de GLP-1 e o aumento do risco de osteoporose.
Alguns pesquisadores argumentam que a perda muscular observada com GLP-1 é, em geral, proporcional ao emagrecimento e não representaria um problema clínico para a maioria. Mas essa avaliação não é unânime, especialmente quando se considera a população idosa.
O que a indústria está desenvolvendo
A Eli Lilly, fabricante do Zepbound e do Mounjaro, está desenvolvendo um medicamento chamado bimagrumab, voltado especificamente para a preservação muscular durante o emagrecimento. O mecanismo de ação envolve o bloqueio da miostatina, proteína responsável por suprimir o crescimento muscular. Ao inibir os receptores nos quais a miostatina se encaixa, o bimagrumab desativa essa espécie de “interruptor de desligamento” do desenvolvimento muscular.
Em ensaio clínico de fase 2, financiado pela Eli Lilly e publicado na Nature Medicine, uma equipe liderada pelo especialista em composição corporal Steven Heymsfield, do Pennington Biomedical Research Center, testou a combinação de bimagrumab com semaglutida. O resultado foi uma redução de 22% do peso corporal em 72 semanas, com 92% dessa perda proveniente de gordura — contra 76% no grupo que usou apenas semaglutida. Participantes que tomaram os dois medicamentos não apenas preservaram mais músculo, como desenvolveram novas fibras musculares e tiveram os maiores ganhos em força de preensão.
Há ressalvas. Em estudos anteriores com pessoas mais velhas, o bimagrumab promoveu crescimento muscular sem tradução clara em melhora de força, velocidade de caminhada ou resistência física. Dimitris Papamargaritis, pesquisador de obesidade da Universidade de Leicester, avalia que o medicamento pode estar “apenas aumentando o músculo sem os benefícios funcionais e metabólicos”. Novos estudos combinando tirzepatida e bimagrumab estão em andamento.
Outra frente de pesquisa envolve os SARMs, moduladores seletivos do receptor de androgênio. São compostos sintéticos projetados para ativar receptores de androgênio principalmente no músculo e nos ossos, com potencial para estimular o crescimento muscular com menos efeitos colaterais do que a testosterona, que age de forma ampla no organismo, incluindo coração e próstata. Uma revisão publicada em 2025 mostrou correlação entre SARMs e melhoras em desempenho físico e composição corporal, mas o perfil de segurança ainda não está estabelecido.
Enquanto os novos medicamentos não completam os ensaios clínicos necessários para comprovar segurança e eficácia, as estratégias com maior respaldo científico para preservar músculo durante o uso de GLP-1 são duas: treino de resistência e ingestão adequada de proteína. Ian Neeland, cardiologista e especialista em obesidade da Case Western Reserve University, recomenda entre 1,2 e 1,6 gramas de proteína por quilo de peso corporal ao dia (o dobro da recomendação padrão) e que exercícios de força correspondam a cerca de um terço do volume total de atividade física.
Para Neeland, a grande maioria dos adultos mais velhos tolera bem os medicamentos GLP-1. O problema não está no uso em si, mas na falta de atenção à composição corporal durante o tratamento. Emagrecer com qualidade, nesse contexto, significa perder gordura sem abrir mão do tecido que sustenta a independência física nas décadas seguintes.
Fonte: Época Negócios





