A obesidade é uma doença crônica multifatorial, influenciada por fatores hormonais, metabólicos e genéticos. Apesar disso, ainda é comum que o tema seja tratado como um simples “balanço contábil” de calorias. “O discurso de que basta ‘comer menos do que gasta’ ignora mecanismos biológicos que surgem com o ganho de peso, e que dificultam tanto o emagrecimento quanto a manutenção do peso perdido. Na teoria tudo é aceitável. No mundo real é bem diferente”, afirma o endocrinologista Dr. Ricardo Barroso, endocrinologista membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP), que responde abaixo às principais dúvidas sobre o assunto.
CS/AKN1 – Doutor, muita gente acha que obesidade é só falta de disciplina. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Ricardo Barroso – Não. A obesidade envolve determinantes biológicos e ambientais que influenciam o apetite, a saciedade, o metabolismo e a tendência a recuperar peso após emagrecer. Isso ajuda a explicar por que “fazer tudo certo” nem sempre gera o resultado esperado — e por que culpar o paciente é um erro.
CS/AKN1 – Por que “contar calorias” nem sempre funciona?
Ricardo – Porque o organismo reage ao emagrecimento com adaptações que podem reduzir o gasto energético e aumentar a fome. Ou seja: mesmo com esforço, o corpo pode “contrabalançar” as mudanças de dieta e atividade física, dificultando o processo.
CS/AKN1 – Qual é o papel dos hormônios na obesidade?
Ricardo – Os hormônios são parte central da regulação do peso. O tecido adiposo produz substâncias que interferem no apetite e no metabolismo (como leptina, adiponectina, resistina), e o trato gastrointestinal também participa dessa regulação por meio de hormônios ligados à saciedade — como as incretinas (por exemplo, o GLP-1), que inspiraram uma classe de medicamentos usada no tratamento da obesidade e do diabetes. Depois que a pessoa ganha peso é muito mais difícil perdê-lo, já que há essa alteração hormonal que favorece a manutenção do peso.
CS/AKN1 – O metabolismo muda com a obesidade?
Ricardo – Sim. A obesidade pode levar a resistência à insulina e hiperinsulinemia (maiores níveis de insulina para manter a glicose sob controle), além de favorecer processos como a lipogênese — a formação de gordura. Também ocorre inflamação crônica, que alimenta um ciclo de piora metabólica: inflamação aumenta resistência à insulina, que aumenta inflamação, e assim por diante.
CS/AKN1 – Por que tanta gente emagrece e volta a engordar?
Ricardo – Um dos motivos é que o corpo pode manter uma espécie de “memória” do peso máximo já atingido e, ao perder peso, passa a atuar para voltar a esse patamar. Isso inclui reduzir o gasto energético basal e aumentar a fome. À medida que você vai perdendo peso, o quilo seguinte vai ficando mais difícil porque o próprio organismo vai trabalhar para voltar ao peso máximo.
CS/AKN1 – Genética influencia mesmo?
Ricardo – Sim. Há um componente hereditário relevante. Existem casos raros de obesidade monogênica, mas, na maioria, a influência vem de múltiplas variações genéticas (polimorfismos) que, em conjunto com o ambiente, elevam o risco de ganho de peso. A hereditariedade pode estar presente em mais de 50% dos casos.
CS/AKN1 – Por que a mesma dieta funciona para uma pessoa e não para outra?
Ricardo – Mesmo com IMC semelhante, os fatores hormonais, metabólicos e genéticos podem se manifestar de maneira diferente. Além disso, a resposta varia conforme sexo, idade, fase da vida (como menopausa) e contexto clínico. Por isso, não existe uma única dieta ou um único tratamento que funcione para 100% dos pacientes.
CS/AKN1- O fator psicológico interfere no tratamento?
Ricardo – Interfere muito. Quando a perda de peso desacelera, é comum ocorrer frustração e queda de motivação — especialmente quando a pessoa acreditou que haveria uma resposta linear ao esforço. Reconhecer a complexidade biológica da obesidade ajuda a reduzir culpa e a fortalecer estratégias de cuidado no longo prazo.
CS/AKN1 – Medicamentos contra obesidade são “atalho”?
Ricardo – Não. Em muitos casos, são recursos válidos e podem ser ainda mais importantes quanto maior o grau de obesidade e o risco associado. O ponto principal é que medicação e mudança de estilo de vida não competem — elas se complementam, ajudando a contornar mecanismos fisiológicos que favorecem a recuperação do peso.
CS/AKN1 – O ambiente também tem responsabilidade?
Ricardo – Sim. A SBEM-SP destaca o papel do ambiente obesogênico: menor gasto de energia no cotidiano (tecnologia), maior oferta e consumo de alimentos ultraprocessados, além de fatores sociodemográficos como renda e escolaridade, que podem aumentar a exposição a esses alimentos e reduzir tempo e oportunidade para atividade física. O convívio social também influencia: quando o excesso de peso se torna comum ao redor, tende a ser percebido como “normal”.
CS/AKN1 – Precisa chegar ao “peso ideal” para ter ganho em saúde?
Ricardo – Não. Mesmo reduções de 5% do peso corporal já podem trazer benefícios clínicos importantes, como melhora da sensibilidade à insulina, da hemoglobina glicada no diabetes, da esteatose hepática e de triglicérides. Perdas em torno de 8% a 10% podem melhorar a pressão arterial e reduzir risco cardiovascular. As metas devem ser individualizadas, conforme risco e contexto de cada paciente.
