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Inflação tem maior impacto no Nordeste brasileiro, apontam indicadores

04/05/2026 às 14:30

 

Há um ano morando em João Pessoa, na Paraíba, a professora Priscila da Silva, de 33 anos, começa a rever contas que há pouco tempo fechavam com mais facilidade. Ela trocou o Rio por uma cidade mais barata, mas nos últimos meses sentiu seu custo de vida subir, num movimento que os índices de preços vêm confirmando. Com as contas básicas comprimindo o orçamento e o valor dos imóveis disparando, o plano de financiar a tão sonhada casa própria está ficando mais difícil de alcançar.

“O mercado é o que tem ficado mais caro, especialmente carnes e laticínios. Se antes gastava R$ 400, agora gasto R$ 500, R$ 550. Para driblar essa alta, busco promoção, compro frutas da época e marcas intermediárias. Lazer está mais caro. Uma água de coco custava R$ 3 quando cheguei, agora custa R$ 6. Meu aluguel também subiu”, conta. “Estou trabalhando mais para economizar para o apartamento. Como o valor da entrada é cada vez mais alto, tenho precisado pegar mais aulas”.

Priscila, que dá aulas de português e espanhol como autônoma, tem sentido peso maior do cotidiano no bolso como muitos brasileiros, mas os indicadores apontam que esse mal-estar é mais agudo no Nordeste. Preços de itens essenciais como alimentação, aluguel, gasolina e gás de cozinha subiram mais nas principais cidades da região que no restante do país.

Como o Nordeste tem a menor renda domiciliar per capita do país, o impacto é ainda maior e se soma ao alto endividamento das famílias que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva promete atacar com o novo programa de renegociação de dívidas. O petista, que disputa a reeleição em outubro, tem perdido aprovação no Nordeste, um importante reduto eleitoral do PT, segundo as pesquisas.

Cesta sobe quase 10%

Das dez capitais do país com as maiores altas na cesta básica, seis são nordestinas. Embora o conjunto de alimentos básicos seja mais caro em São Paulo (média de R$ 883,94), nas capitais do Nordeste ela registra altas mais intensas neste ano. No Recife, subiu para R$ 654,62, alta de 9,82% entre janeiro e março, quase o dobro da previsão de inflação para todo o ano (4,86%) aferida no boletim Focus, do Banco Central. Em São Paulo, o reajuste médio da cesta básica foi de 4,49%, segundo o Dieese.

O feijão-carioca foi um dos “vilões” dessa disparada da cesta básica no primeiro trimestre. Em Salvador, acumula alta de 27% no ano; em Teresina, 24,7%; no Recife, 24%; e, em Belém, quase 50%. É uma combinação de fatores. O preço do produto em baixa no ano passado desestimulou produtores e reduziu a área plantada para a safra seguinte, diminuindo a oferta. Desequilíbrios climáticos afetaram a colheita. Sem alternativa importada, diferentemente do feijão-preto, o preço do grão preferido dos nordestinos disparou.

Também puxaram o custo da cesta básica para cima carnes, farinha de mandioca e laticínios (com o leite na entressafra). No Recife, a carne já subiu 5,39% neste ano. A farinha de mandioca aumentou 4,38% na capital pernambucana e 13% em Fortaleza.

“É uma alta concentrada em quatro itens, mas muito importantes”, diz Patrícia Costa, economista do Dieese. Até março, não vimos efeito da alta dos combustíveis sobre os preços dos alimentos, talvez por conta das políticas (de subvenção) feitas. Vamos ver como será em abril, porque a alta do diesel encarece o frete e se transfere para outros preços”.

Desde o início do conflito no Irã, no fim de fevereiro, o preço médio de revenda da gasolina ao consumidor no Nordeste subiu de R$ 6,28 para R$ 6,93 o litro, alta de 10,35%, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP). É a maior variação entre todas as regiões do país no período, assim como no diesel: 26,25%. A estrutura produtiva e a logística explicam por que o Nordeste sofre mais quando há choques desse tipo, afirma Isadora Osterno, pesquisadora do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste do FGV Ibre:

“As cadeias de produção são mais caras aqui. A gasolina, por exemplo, chega mais cara. A questão logística tem impacto relevante no repasse de preços para a região”.

O rendimento médio real domiciliar per capita é de R$ 1.340 no Nordeste, segundo dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2024, enquanto a média nacional é R$ 2.068. Qualquer variação no custo de alimentação, habitação (incluindo tarifas como luz e água) e transporte tem efeito mais intenso nos lares nordestinos porque é maior a parcela da renda comprometida com itens básicos, explica Isadora, que mora em Fortaleza e vê no dia a dia os dados que compila. Na capital cearense, o transporte urbano teve reajuste de 20% neste ano.

“Aqui, a gasolina chegou a R$ 7,20. É normal ver no posto de gasolina promoção a R$ 7,00”, conta a economista.

André Braz, coordenador do índice de preços do FGV Ibre, concorda que a transmissão da alta dos combustíveis para outros produtos é sentida de maneira mais forte no Nordeste, que tem perfil menos produtor e mais consumidor:

“Os salários são menores na região, então as famílias sentem mais a variação do custo de vida. Como uma parcela dos produtos parte do Sudeste, principalmente de São Paulo, o frete entra com uma participação maior nos preços”, diz.

Gasolina mais cara

A educadora física Catarina Rodrigues, de 47 anos, que dirige uma escola em Itabuna e passa parte da semana com a mãe em Ilhéus, diz que a vida nas duas cidades do Sul da Bahia não é cara, mas deixou de ser considerada barata como antes. Sempre na estrada entre as duas cidades, ela percebeu que o gasto com combustível aumentou nos últimos meses, chegando a R$ 1.200 por mês.

“No início do ano, a gasolina era R$ 6 e pouco. Hoje, tá R$ 7,61”, diz Catarina, que começou a cortar outras despesas. “Dou uma segurada nos gastos. Quando dá, vou de bicicleta em algum lugar ou caminho até lá. Ontem mesmo liguei pra diminuir o plano da operadora de celular”.

Na esteira do petróleo, o gás de cozinha também ficou mais caro no Nordeste (4,82%) desde o início da guerra, embora com diferença menor para as outras regiões. No Maranhão, o botijão subiu 8,38% no período, chegando a R$ 125,17.

Aluguel em alta

Os aluguéis são outro fator decisivo para o orçamento familiar que sobe forte na região. Entre janeiro e março, cinco capitais nordestinas aparecem entre as dez com maiores altas no índice FipeZap. Aracaju teve reajuste médio de 7,06% na locação residencial, seguida por Maceió (4,66%), Natal (4,22%), Recife (4,18%) e João Pessoa (3,87%). Em Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre, por exemplo, as variações foram de 0,91%, 1,5% e 1,99%, respectivamente.

Alison Oliveira, coordenador do índice FipeZap, diz que os preços dos imóveis nas capitais nordestinas ficaram acomodados por anos, mas entraram agora em um ciclo de alta.

“A oferta não consegue responder na mesma magnitude, e você acaba vendo essas altas de preço. O desemprego segue baixo, e as famílias estão renda maior, mas os juros estão altos e menos pessoas conseguem arcar com um financiamento, por isso acabam tendo de ficar na locação. Aumenta a demanda pelo aluguel”.

Sem uma perspectiva clara no Oriente Médio, a pressão inflacionária do petróleo tende a se agravar, observa Braz, da FGV. O impacto mais agudo no Nordeste, uma fortaleza eleitoral de Lula, é um alerta à campanha dele, diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. A percepção sobre os preços pesa na avaliação do eleitor da economia, observa. Mesmo com desemprego na mínima histórica e alta da renda no último ano, as dívidas e o comprometimento maior do orçamento com gastos básicos criam um descompasso, diz o pesquisador:

“Uma coisa é a macroeconomia, outra é a sensação. O consumidor percebe no dia a dia a alta de itens básicos. Como são custos fixos, o brasileiro sabe no centavo quanto custa. É o que chamamos de sinalizador de preço”.

Fonte: O GLOBO

 

 

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