O Brasil já possui o que precisa para ocupar um lugar de potência socioambiental e agente de diálogo global, e a COP30 será o palco perfeito para mostrar esse potencial ao mundo. É o que revela o estudo “O Brasil que o Brasil quer ser”, encomendado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), composto por lideranças da sociedade civil.
O estudo reúne as vozes de 90 lideranças e pesquisadores, além de mais de 3.000 brasileiros de diferentes regiões do país, para compreender como o Brasil se enxerga e quais caminhos pode seguir para construir um futuro mais coeso e influente nos cenários nacional e internacional.
A esperança continua sendo um sentimento predominante entre os brasileiros. No entanto, o estudo revela uma transformação significativa nesse sentimento. Se antes essa esperança estava atrelada a um futuro idealizado — uma espera constante pelo momento em que “o Brasil finalmente dará certo” — agora cresce a consciência de que o país já tem o que o mundo precisa.
Essa mudança de percepção desafia o “complexo de vira-lata”, que, por décadas, reforçou a ideia de que o Brasil era um país atrasado e limitado por suas dificuldades estruturais. O estudo aponta que essa visão limitante tem raízes profundas em três fatores principais: a imagem global do Brasil associada quase exclusivamente à diversão e aventura; a persistência das mazelas históricas que, embora devam ser enfrentadas, não precisam definir o futuro do país; e a polarização política recente, que dificulta um consenso sobre um projeto nacional compartilhado.
“O Brasil tem a chance de redefinir sua trajetória e assumir um papel de protagonismo global. O estudo mostra que é hora de deixarmos de lado a visão de país eternamente promissor e começarmos a agir como a potência que já somos”, destaca Lourenço Bustani, fundador da Mandalah e coordenador do grupo de trabalho responsável pela condução do estudo.
Agora, em vez de projetar um futuro incerto, a percepção coletiva aponta que a vocação, o território, a natureza, a diversidade cultural e a história do Brasil são a própria esperança para um mundo em transformação. “A construção do Brasil passa pela valorização da nossa diversidade. Precisamos contar nossa história de forma mais estruturada e mostrar que o Brasil é um país que gera impacto global”, afirma Débora Emm, fundadora da Inesplorato e integrante do grupo de trabalho responsável pela condução do estudo.
Outro ponto de destaque do estudo é a identidade simbólica do país. Pela primeira vez, a Amazônia aparece como o principal símbolo da identidade brasileira, superando o Rio de Janeiro. Esse dado reflete a crescente consciência nacional e internacional sobre o papel central do Brasil na agenda ambiental e no desenvolvimento sustentável.
Visão externa
De um ponto de vista de mercado global, o Brasil tem um posicionamento mediano, já que está bem posicionado quando comparado aos seus pares do BRICS e está sempre à frente de todos os outros países da América Latina, mas invariavelmente abaixo de uma grande concentração de países europeus e grandes potências tradicionais — conforme mostram o Ranking das Nações 2023, da Ipsos, e o ranking Melhores Países 2024, da BAV.
Considerando a associação de países com traços de personalidade, a pesquisa da Ipsos mostra que o mundo considera o Brasil divertido, um adjetivo que pode ser positivo se comparado a outros presentes no levantamento, como problemático, perigoso, fraco, enganoso, arrogante e sem graça, mas negativo se pensarmos que outros países são lembrados pelos adjetivos confiável, amigável, feliz, criativo, forte, generoso, atraente, competente e sofisticado.
Além disso, segundo a pesquisa Best Countries (BAV), o Brasil só aparece como líder na categoria Aventura, que tem como características a atratividade de emoções e belezas naturais para lazer, e possui pontos considerados frágeis e problemáticos do ponto de vista de desenvolvimento de país, como “apoio a empreendedores e espíritos pioneiros”, “sociedades cuidadosas, sustentáveis e equitativas para todos”, “garantia de ambientes favoráveis para o florescimento dos negócios” e “bom tratamento aos seus cidadãos ao longo de todas as fases da vida”.
“Em resumo, a imagem do Brasil no exterior é positiva em termos de hospitalidade, turismo e apreciação da natureza, mas carece de força em áreas estratégicas como inovação, sustentabilidade e direitos humanos”, pontua o estudo “O Brasil que o Brasil quer ser”.
Como norteadores para melhorar a visão externa sobre o país, é preciso investir em infraestrutura e logística para otimizar o valor sobre o potencial turístico; ampliar o conhecimento sobre os “diversos Brasis” a partir de narrativas para além dos estereótipos ligados à diversão; e reforçar políticas internas que melhorem sua reputação como país seguro, estável, ético e inclusivo, além de comunicar o que já é feito.
O estudo identificou ainda 18 espaços de excelência nos quais o Brasil já se destaca mundialmente, cuja visibilidade deve ser fortalecida e ampliada visando o amadurecimento da impressão que o país passa para o mundo. São eles: biodiversidade, democracia, artes e cultura, políticas públicas, ecossistema de startups, empreendedorismo social, ciência, tecnologias financeiras, matriz energética limpa, minerais críticos para a transição energética, biocombustíveis, setor aéreo, agricultura de baixo carbono, ecoturismo, design, gastronomia, movimentos sociais e esportes.
Oportunidade estratégica
A COP30 é apontada pelo estudo como uma oportunidade decisiva para o país se posicionar como líder global em sustentabilidade e articulação internacional. “O evento representa uma janela sem precedentes para sinalizar à comunidade internacional que, de uma vez por todas, o Brasil tem todas as credenciais necessárias para liderar a agenda climática e promover a paz no mundo“, aponta Lourenço Bustani.
O estudo defende que a conferência pode ser um marco para consolidar a imagem do Brasil não apenas como potência ambiental, mas como um ator-chave na mediação global, também capaz de articular soluções para os desafios da transição energética e da economia verde, por exemplo.
“O mundo está buscando modelos de desenvolvimento sustentável, e o Brasil tem todas as credenciais para liderar essa transformação de maneira autêntica e eficiente”, acrescenta Jeanine Pires, conselheira do CDESS e integrante do grupo de trabalho responsável pelo estudo.
Fonte: InfoMoney