Não é novidade que o nível das águas oceânicas vai aumentar com os avanços das mudanças climáticas. Mas, para além do desaparecimento de locais como as Ilhas Maldivas ou Veneza, os impactos no oceano podem ser economicamente custosos. Isso é o que revela um novo estudo publicado na revista Nature Climate Change.
Segundo os pesquisadores da Universidade da Califórnia (Estados Unidos), os danos relacionados ao clima causados ao oceano serão refletidos em um elevado custo social do carbono. Quando o assunto é oceano, esse custo passa a ser conhecido como “custo social azul”, uma medida do prejuízo econômico causado pelas emissões de gases de efeito estufa, considerada mais precisa do que os cálculos comumente usados como base para créditos ou compensações de carbono.
“Se não atribuirmos um preço aos danos que as mudanças climáticas causam ao oceano, eles permanecerão invisíveis para os principais tomadores de decisão. (…) Este estudo é o primeiro a atribuir valores monetários equivalentes a esses impactos oceânicos negligenciados”, afirmou Bernardo Bastien-Olvera, da Universidade Nacional Autônoma do México, em comunicado.
As expectativas não são nada animadoras: os pesquisadores constataram que o custo global das emissões de dióxido de carbono para a sociedade poderá dobrar.
O que é “custo social azul”?
As variações de temperatura nas águas dos oceanos são o fator que mais tem chamado a atenção dos pesquisadores. A emissão de gases do efeito estufa na atmosfera, por exemplo, causa danos ao aquecer as águas, alterando a química do ecossistema aquático, sobretudo por reduzir a retenção de gás oxigênio no meio – essencial para a sobrevivência das espécies.
O aumento na temperatura também potencializa a ocorrência de eventos climáticos extremos, como na formação de tempestades.
Essas mudanças também têm alterado a distribuição de espécies e danificado ecossistemas como recifes de coral, manguezais, pradarias marinhas e florestas de algas. Há também impactos em infraestruturas como portos, que podem ser danificados pelo aumento de inundações e tempestades.
O “custo social azul” do carbono é uma ferramenta usada na análise de custo-benefício para que sejam tomadas decisões de cunho ambiental por órgãos governamentais e pelo setor privado. Assim, políticas públicas e planejamentos financeiros podem ser executados com informações mais concretas e detalhadas.
Para Katharine Ricke, também da Universidade da Califórnia, o oceano é difícil de ser valorizado do ponto de vista financeiro. Isso porque a maioria das pessoas que dependem dele para sobreviver não sabem como fazer essa análise.
“Proteger o meio ambiente pode ter custos iniciais elevados, por isso precisamos de métodos para pensar sobre as compensações que estamos fazendo como sociedade. (…) custo social azul do carbono é uma nova estrutura para reconhecer esses valores”, disse Ricke.
Como calcular?
Para elaborar a contabilização, o estudo analisou valores de uso de mercado diretos, como a diminuição da receita da pesca ou a redução do comércio. Valores como os impactos na saúde – ocasionados pela redução da disponibilidade de nutrientes – e o desfrute da biodiversidade pelos seres humanos também foram considerados pela equipe de pesquisadores.
Depois, os pesquisadores estimaram os custos dos impactos da emissão de gases de efeito estufa para os oceanos. Eles concluíram que os custos sociais azuis do carbono são de R$ 248,20 por tonelada de dióxido de carbono liberado na atmosfera.
Isolado, o número pode parecer pequeno. Mas, segundo a Global Carbon Budget, as emissões globais de 2024 chegaram a marca de 41,6 bilhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera. Este valor implica em um prejuízo de aproximadamente US$ 2 trilhões (mais de R$ 10, 7 trilhões).
Essas estimativas preveem que os danos ao mercado de capitais estarão entre os maiores danos sociais com o avanço acelerado das mudanças climáticas. A expectativa é que até 2100, a perdas globais sejam de US$ 1,66 trilhões (quase R$ 9 trilhões) todos os anos. Esse valor este não contabiliza outros problemas como o uso turístico dos ecossistemas oceânicos nem os potenciais problemas de saúde à população.
Os autores do estudo também descobriram que a distribuição dos impactos ocorre de maneira desigual pelo mundo. Ilhas e pequenas economias que dependem da exploração econômica das áreas oceânicas, por exemplo, correm riscos maiores quando comparadas às economias menos dependentes.
Entre os principais problemas está a insegurança alimentar. O aquecimento dos oceanos reduz a disponibilidade de nutrientes essenciais em frutos do mar, como cálcio, ácidos graxos ômega-3, proteínas e ferro. Essa perda de nutrientes pode estar ligada ao aumento do risco de doenças e mortes adicionais, que poderiam então ser atribuídas a tais perdas nutricionais.
Fonte: GALILEU





