ARACAJU/SE, 8 de fevereiro de 2026 , 20:17:02

Impactos de plásticos sobre a saúde humana podem dobrar até 2040

 

Durante décadas, o debate sobre o destino consciente dos plásticos concentrou-se na poluição visível, sobretudo nos resíduos em oceanos, rios e paisagens urbanas. No entanto, evidências científicas recentes indicam que os danos associados a esse material vão muito além do lixo acumulado no ambiente. Um novo estudo, publicado na The Lancet Planetary Health, sugere que os impactos negativos dos plásticos sobre a saúde humana podem dobrar até 2040.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM), em colaboração com cientistas da Universidade de Toulouse (França) e da Universidade de Exeter (Inglaterra). A pesquisa analisou os efeitos à saúde ao longo de todo o ciclo de vida dos plásticos, desde a extração de combustíveis fósseis, passando pela produção industrial, até o descarte final ou a liberação no meio ambiente.

Uma métrica utilizada pelo estudo foi o uso dos chamados “anos de vida ajustados por incapacidade” (DALYs, na sigla em inglês), que medem a perda de anos de vida saudável. Trata-se do primeiro trabalho a estimar, em escala global, os DALYs associados às emissões de gases de efeito estufa, poluentes atmosféricos e substâncias químicas tóxicas provenientes do ciclo de vida dos plásticos. Essas emissões estão associadas a doenças respiratórias, câncer, impactos do aquecimento global e outras condições graves.

Danos à saúde

Segundo os autores, os danos à saúde humana aparecem em todas as etapas do ciclo de vida desse material. Para avaliar a magnitude do problema, a equipe utilizou modelos que compararam diferentes cenários futuros de produção, consumo e gestão de resíduos plásticos entre 2016 e 2040. No cenário de “tendência atual”, os impactos à saúde associados aos plásticos mais do que dobrariam em 24 anos.

Os resultados indicam que, até 2040, cerca de 40% dos danos à saúde estariam relacionados às emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo, contribuindo para o aquecimento global.

A poluição do ar, gerada principalmente durante os processos de produção, responderia por 32% dos impactos, enquanto a liberação de substâncias químicas tóxicas no meio ambiente corresponderia a 27%. Os efeitos restantes estariam ligados à redução da disponibilidade de água, aos danos à camada de ozônio e ao aumento da radiação ionizante.

Em comunicado, Megan Deeney, da LSHTM, afirmou que os resultados mostram “que os impactos negativos dos plásticos na saúde vão muito além do momento em que compramos um produto de plástico ou colocamos itens de plástico em uma lixeira de reciclagem”.

Segundo ela, para além dos padrões de consumo, é necessária uma transformação estrutural em toda a cadeia produtiva. “Ações muito mais ambiciosas por parte dos governos e maior transparência da indústria são necessárias para conter essa crescente crise global de saúde pública relacionada ao plástico”.

Caminhos possíveis

Os pesquisadores também avaliaram cenários alternativos, com diferentes níveis de intervenção dos plásticos. Medidas isoladas, como o aumento da coleta ou da reciclagem de resíduos plásticos, mostraram ter efeito limitado sobre a redução dos impactos globais à saúde. Mas a combinação de ações em uma mudança mais abrangente poderia reduzir em 43% os danos à saúde associados aos plásticos.

O estudo aponta que a produção primária de plásticos é a principal fonte de impactos à saúde em todos os cenários analisados. Segundo os autores, a redução da produção, sem a simples substituição do plástico por outros materiais igualmente prejudiciais para o meio ambiente e para os seres humanos, traria os maiores benefícios.

Xiaoyu Yan, da Universidade de Exeter, ressaltou que a falta de divulgação padronizada sobre a composição química dos plásticos limita severamente a capacidade de avaliações de ciclo de vida fundamentarem políticas públicas eficazes. “Nosso estudo mostra que essa abordagem pode revelar os impactos gigantescos dos plásticos na saúde humana ao longo de todo o ciclo de vida”.

Apesar dos resultados que apontam para uma questão importante, os pesquisadores reconhecem que a pesquisa teve limitações. O estudo não conseguiu incluir, por exemplo, os potenciais impactos à saúde durante a fase de uso dos plásticos, nem os efeitos de muitos produtos químicos, microplásticos e nanoplásticos, devido à escassez de dados e à falta de transparência por parte da indústria.

Ainda assim, os autores são enfáticos quanto à necessidade de ação. Para eles, mecanismos globais, obrigatórios e coerentes, além do compartilhamento de dados são essenciais para o avanço da pesquisa e para a formulação de políticas eficazes.

Fonte: GALILEU

 

 

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