Um dado inédito do Relatório Nacional da Semana da Escuta das Adolescências nas Escolas, realizado pelo MEC (Ministério da Educação), em parceria com Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação) e Itaú Social, revela que sustentabilidade e meio ambiente estão entre os conteúdos menos valorizados pelos adolescentes, em todas as faixas etárias pesquisadas.
Apenas 13% dos estudantes do 6º e 7º anos e 11% daqueles de 8º e 9º anos indicaram os dois temas como prioridade. Em contraste, a preferência por disciplinas tradicionais, como Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Humanas e Ciências da Natureza, chega a 48% e 38%, respectivamente.
Segundo Alexandre Moreira, coordenador de Desenvolvimento e Estudos do Itaú Social, o relatório, que ouviu mais de 2,3 milhões de estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental, levanta um questionamento importante para o futuro da educação e do planeta. “A Escuta nos mostrou que os jovens buscam ferramentas para a vida. Se a sustentabilidade não apareceu no topo, é porque ainda não conseguimos mostrar, na sala de aula, que ela é um instrumento essencial para o século XXI. A responsabilidade não é do estudante se interessar espontaneamente, mas nossa – enquanto educadores – de criar um currículo em que matemática, ciências e meio ambiente andem juntos para resolver problemas reais”, acrescenta.
Educação Ambiental avança para se consolidar como política de Estado no Brasil
O novo PNE (Plano Nacional de Educação), referente ao decênio 2025-2035, incorpora metas específicas dedicadas à Educação Ambiental. O plano determina o fomento de atividades nessa área em todas as redes de ensino, abrangendo todos os níveis, etapas e modalidades educacionais, com ênfase especial nas questões climáticas. Entre as diretrizes destacadas estão a universalização do conforto térmico nas escolas — essencial para garantir ambientes de aprendizagem adequados em contexto de aquecimento global — e a elaboração de planos de prevenção, mitigação e adaptação às mudanças do clima em todas as instituições educacionais.
Esse avanço no PNE dialoga diretamente com a Pneae (Política Nacional de Educação Ambiental Escolar), lançada pelo MEC em novembro de 2025, durante a COP30, realizada em Belém (PA). A Pneae representa uma política pública inovadora e específica, voltada ao fortalecimento das capacidades institucionais e pedagógicas das escolas e redes de ensino.
Outra conquista relevante é o Projeto de Lei nº 4820/2024, em tramitação na Câmara dos Deputados, que institui a obrigatoriedade da inclusão da Educação Ambiental integrada ao currículo da educação básica em todo o território nacional, tanto em redes públicas quanto privadas. A proposta enfatiza conteúdos práticos, como sustentabilidade, reciclagem, reaproveitamento e proteção dos recursos naturais, promovendo uma abordagem interdisciplinar e efetiva para o aprendizado ambiental desde os anos iniciais.
Projetos de escolas brasileiras mostram caminhos significativos para sustentabilidade
Um mapeamento realizado pelo Itaú Social, em parceria com o Instituto Catalisador, identificou práticas inovadoras de abordagem STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) implementadas por professores de escolas públicas em diversas regiões do Brasil.
O levantamento, focado nos Anos Finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano), reuniu iniciativas que integram de forma interdisciplinar essas áreas do conhecimento, com destaque para projetos que conectam sustentabilidade, tecnologia, arte e produção de alimentos. Nessas experiências, o aprendizado transcende o conteúdo teórico e se transforma em ações práticas e contextualizadas, diretamente relacionadas ao cotidiano dos adolescentes e às demandas de suas comunidades.
Meninas baianas criam robôs com lixo eletrônico e promovem igualdade de gênero
Em Pojuca (BA), o projeto RobôDelas, liderado pelo professor Manassés Fernandes Costa Neto, na Escola Municipal Professor Francisco Magalhães Neto, combina robótica e sustentabilidade para empoderar alunas do 8º ano. Utilizando lixo eletrônico, as estudantes constroem robôs funcionais, promovendo inclusão feminina na tecnologia e conscientização ambiental.
A iniciativa, que começou com o objetivo de combater estereótipos de gênero, envolveu a comunidade na coleta de materiais descartados e ganhou visibilidade em feiras científicas e rádios locais. Além de desenvolver habilidades técnicas, o projeto elevou a autoestima das alunas e inspirou novas gerações, com as fundadoras agora atuando como mentoras na segunda fase do RobôDelas.
Escola mineira cultiva sustentabilidade com horta hidropônica estudantil
Em Nova Lima (MG), uma escola está colhendo os frutos de uma iniciativa inovadora que une sustentabilidade, educação e alimentação saudável. Sob a liderança da professora Roberta Cristina Gomes Araújo, o projeto “Hidroponia na Escola” envolve 160 alunos dos Anos Finais do Ensino Fundamental em um processo interdisciplinar de criação de uma horta hidropônica, cultivando hortaliças como alface (crespa, lisa e roxa), couve, mostarda, rúcula e almeirão. Desde a concepção até a colheita, os alunos participam ativamente de todas as etapas, aprendendo na prática sobre biologia, química, meio ambiente e trabalho em equipe.
A iniciativa transforma o aprendizado em uma experiência viva, conectando os jovens ao ciclo de produção de alimentos sem solo, com uso eficiente de água e sem agrotóxicos. O resultado é uma horta escolar que não apenas abastece a merenda com alimentos frescos, mas também inspira os alunos a repensarem seus hábitos e a relação com o meio ambiente.
Estudantes criam horta e sabão sustentável em projeto escolar
Na cidade de Marabá (PA), o projeto “ConsCIÊNCIA”, coordenado pelo professor Daniel Oliveira da Silva, envolve 100 estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental em ações de sustentabilidade. Com a participação de professores de Ciências, Artes e da sala de leitura, as ações incluem a criação de uma horta escolar, produção de adubo por composteiras, fabricação de sabão com óleo de cozinha descartado e mutirões de limpeza.
O projeto estimula os alunos a replicarem práticas sustentáveis em suas comunidades, com impacto direto: pais e moradores locais já trocam óleo usado por sabão, ampliando a conscientização ambiental além da escola.
Escola de Cabrobó usa arte e reciclagem para conscientizar sobre crise climática
Em Cabrobó (PE), o professor Marcelo Augusto Alves da Silva comanda o projeto “Arte e Meio Ambiente: reciclando papel e a mente”, que engaja 60 alunos do 3º ano do Ensino Médio na reutilização de papel para criar cadernos e cartolinas. A iniciativa, que combina arte, ciência e tecnologia, nasceu da preocupação com o descarte excessivo de papel e promove reflexões sobre a crise climática.
Além de desenvolver criatividade e autonomia, o projeto planeja expandir-se para toda a escola e a comunidade, consolidando-se como uma prática permanente de educação ambiental.





