ARACAJU/SE, 11 de março de 2026 , 19:53:28

Aumento no preço dos combustíveis pode agravar fome em escala global, alerta ONU

 

O aumento no preço dos combustíveis provocado pela escalada do conflito no Oriente Médio pode ampliar os níveis de fome em escala global. O alerta foi feito pelo Programa Mundial de Alimentos (WFP), da Organização das Nações Unidas (ONU), durante o último fim de semana, em um comunicado divulgado simultaneamente em Cairo, Beirute e Roma.

Segundo a agência humanitária, a alta dos custos energéticos desde os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã, em 28 de fevereiro, e a posterior resposta militar iraniana, já tem efeitos diretos sobre cadeias logísticas, mercados de alimentos e o poder de compra das famílias mais vulneráveis.

A intensificação da violência tem causado mortes, destruição e deslocamentos em massa na região, enquanto as repercussões econômicas ultrapassam fronteiras e podem pressionar ainda mais o preço global da comida.

Cadeias de suprimento sob pressão

O conflito interrompe cadeias de abastecimento, aumenta os custos de transporte e reduz a capacidade das famílias de comprar alimentos, agravando a insegurança alimentar em áreas já fragilizadas.

No Líbano, por exemplo, o deslocamento interno de centenas de milhares de pessoas ocorre em um contexto de elevada vulnerabilidade alimentar. Dados recentes da ONU indicam mais de 500 mil deslocados e centenas de abrigos coletivos para civis que fugiram das áreas afetadas pelos confrontos.

Em Gaza, mesmo após a reabertura de uma passagem importante para entrada de ajuda humanitária, a assistência continua extremamente limitada. Segundo o diretor do WFP para a Palestina, Shaun Hughes, cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem praticamente “de mão em boca”, dependendo de rações reduzidas distribuídas pela agência.

Além da escassez direta de alimentos, o aumento dos custos logísticos também dificulta o trabalho humanitário. O WFP afirma ainda que rotas marítimas mais longas, congestionamentos portuários e riscos associados à guerra estão atrasando operações de assistência.

Gargalos globais no comércio

Um dos principais fatores de preocupação é a situação do Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde passa aproximadamente um quarto do petróleo transportado por navios no mundo, além de grandes volumes de gás natural liquefeito e fertilizantes.

Com a escalada militar na região, o fluxo de navios foi desacelerado e os preços do petróleo já ultrapassaram US$ 90 (cerca de R$ 470) por barril. Paralelamente, tarifas de frete, seguros contra riscos de guerra e custos de combustível marítimo estão subindo.

Em nota, o WFP descreve a situação como um conjunto de “duplos gargalos” que afetam simultaneamente os mercados de transporte marítimo, energia e fertilizantes — três pilares fundamentais da produção e distribuição de alimentos no planeta.

Para reduzir o impacto nas operações, a agência passou a adaptar suas rotas de abastecimento, ampliando o uso de fornecedores e corredores logísticos via Turquia, Egito, Jordânia e Paquistão, além de rotas terrestres entre os Emirados Árabes Unidos e o Levante.

Fertilizantes em risco

O impacto do conflito sobre o setor agrícola mundial pode se tornar ainda mais profundo devido à dependência global de fertilizantes produzidos no Golfo Pérsico. Embora a região seja conhecida sobretudo como grande exportadora de petróleo e gás, sua abundância energética impulsionou o desenvolvimento de fábricas que produzem insumos essenciais para fertilizantes, especialmente os nitrogenados, responsáveis por nutrir culturas que produzem cerca de metade dos alimentos consumidos no mundo.

Grande parte desses produtos precisa ser transportada pelo Estreito de Ormuz. Com a interrupção do tráfego marítimo, fertilizantes produzidos na região estão sendo armazenados perto de portos, aguardando a retomada das exportações, lembra o jornal The New York Times.

Cinco grandes exportadores — Irã, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein — respondem coletivamente por mais de um terço do comércio global de ureia, um dos principais fertilizantes nitrogenados, além de quase um quarto da amônia comercializada internacionalmente. Assim, a interrupção dessas cadeias pode provocar aumento expressivo de preços.

Em apenas uma semana, a ureia negociada no Egito subiu cerca de 37%, passando de aproximadamente US$ 485 (R$ 2.530) para US$ 665 (R$ 3.470) por tonelada. Especialistas ouvidos pelo veículo alertam que fertilizantes mais caros levam agricultores a reduzir sua aplicação nas lavouras, o que diminui a produtividade agrícola e reduz a oferta de alimentos, elevando os preços no mercado global.

O impacto tende a ser mais severo em países de baixa renda, especialmente na África e no sul da Ásia, que já enfrentam dificuldades fiscais e altos níveis de endividamento. Se os preços de fertilizantes e alimentos continuarem subindo, governos podem ser forçados a ampliar subsídios agrícolas ou enfrentar inflação alimentar e aumento da desnutrição.

Fonte: GALILEU

 

 

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