ARACAJU/SE, 9 de abril de 2026 , 11:30:43

Entenda os 3 principais pontos de divergência para um cessar-fogo entre EUA e Irã

 

A continuidade do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã continua incerta nesta quinta-feira (9). A trégua anunciada há dois dias tem se mostrado frágil e cheia de incertezas, com registro de violações e o fechamento do Estreito de Ormuz.

O cessar-fogo previa que, durante duas semanas, EUA e Israel pausem os ataques ao território iraniano. Em contrapartida, o Irã se comprometeria a reabrir o Estreito de Ormuz, mas a abertura da via marítima durou apenas algumas horas.

Na manhã de quarta (8), foram registrados ataques de ambos os lados do conflito. O Irã afirma que ilhas iranianas foram atacadas e denuncia os ataques de Israel ao Líbano. Simultaneamente, países do Golfo (como Arábia Saudita e Kuwait) denunciaram ataques de mísseis e drones iranianos ocorridos já durante a vigência da trégua.

Contexto: o cessar-fogo, por determinação, é apenas uma pausa. Neste caso, a trégua correrá em paralelo com as negociações oficiais entre as duas partes para um acordo definitivo de paz, que daria fim ao conflito. Essas conversas começarão nesta sexta-feira (10) em Islamabad, no Paquistão, que media as tratativas.

Confira abaixo as principais divergências entre EUA e Irã em relação ao cessar-fogo.

1. Plano de 10 pontos como base

Ao confirmar o cessar-fogo, na terça-feira, o Irã disse ter apresentado aos EUA, por meio do Paquistão, um plano de dez pontos como condição para dar fim à guerra.

Trump inicialmente classificou a proposta como uma “base viável” ou “trabalhável” para iniciar as negociações definitivas. Mas, nesta quarta, disse que “apenas alguns pontos” são viáveis.

Já a Casa Branca afirmou que o plano de dez pontos foi considerado “inaceitável” e descartado, e que as negociações com Teerã passarão a se basear em uma nova proposta iraniana, descrita pelos EUA como “mais condensada e razoável” e cujo conteúdo não foi divulgado.

As autoridades iranianas, por sua vez, indicam que a primeira lista segue válida e a defendem como base confiável para um acordo.

2. Compromisso nuclear

Um dos dez pontos do plano iraniano prevê a manutenção do enriquecimento de urânio.

Nesta quarta, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã (espécie de Ministério da Segurança) alegou que Washington concordou com o termo. Já Trump negou e disse que vai “escavar” todo o urânio enriquecido do solo iraniano, inclusive com a ajuda de Teerã.

“Não haverá enriquecimento de urânio, e os Estados Unidos, em cooperação com o Irã, irão escavar e remover todo o “material nuclear” profundamente enterrado (bombardeiros B-2). Isso agora, e desde o ataque, está sob vigilância por satélite extremamente rigorosa”, disse Trump em um post nesta quarta (8).

Na noite de terça (7), a Associated Press já havia informado sobre essas inconsistências nas versões do acordo. Segundo a agência, o plano divulgado pelo Irã, em língua persa, continha a frase “aceitação do enriquecimento” para seu programa nuclear, algo que estava ausente nas versões em inglês compartilhadas por diplomatas iranianos com jornalistas.

O programa de enriquecimento de urânio do Irã é motivo de discórdia entre Teerã e os EUA e outros países do Ocidente há muitos anos, devido à preocupação de que o regime busque construir uma arma nuclear.

Por que o enriquecimento de urânio é polêmico?

O urânio tem uma variante chamada U-235, usada como combustível e para a produção de armas. Só que o urânio encontrado na natureza tem apenas 0,72% desse elemento.

O processo de enriquecimento de urânio aumenta a concentração de U-235. Isso é feito em centrífugas, que giram em alta velocidade para separar o U-235 de outros tipos de urânio, usando um gás chamado hexafluoreto de urânio.

O urânio com baixa concentração de U-235 (de 3% a 5%) é usado como combustível de usinas nucleares. Já níveis acima de 20% são geralmente usados para pesquisa.

Quando o enriquecimento chega a cerca de 90%, o material pode ser usado na produção de armas nucleares. Por isso, esse processo é altamente sensível e monitorado pela Agência Internacional de Energia Atômica.

3. Inclusão do Líbano

Este é o maior impasse do acordo.

O Paquistão, que tem atuado como mediador do conflito, e o Irã afirmam que a trégua inclui o Líbano — e, portanto, proíbe ataques ao país durante o período do cessar-fogo.

“Tenho o prazer de anunciar que a República Islâmica do Irã e os Estados Unidos da América, juntamente com seus aliados, concordaram com um cessar-fogo imediato em todos os lugares, incluindo o Líbano e outros, com efeito imediato”, disse o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, em um comunicado publicado nas redes sociais nesta terça (7).

No entanto, Israel e EUA declararam que o Líbano e o combate ao Hezbollah estão fora do acordo.

Em comunicado divulgado na madrugada desta quarta-feira (8), o gabinete do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse que apoiava a adesão de Trump ao cessar-fogo, “desde que o Irã abra imediatamente os estreitos e interrompa todos os ataques contra os EUA, Israel e países da região”.

“O cessar-fogo de duas semanas não inclui o Líbano”, acrescentou.

Em entrevista à PBS, a rede de TV pública dos EUA, nesta quarta (8), Trump disse que “eles (Líbano) não estão incluídos no acordo” de cessar-fogo. “Por causa do Hezbollah. Eles não foram incluídos no acordo também”, disse.

Já a CNN Internacional afirmou ter ouvido da porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, que, em uma conversa com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, Trump não se opôs a que Israel seguisse atacando o Líbano.

Forças israelenses fizeram nesta quarta (8) o maior ataque ao território libanês desde o início da guerra. Os bombardeios deixaram 254 mortos e mais de 830 feridos, segundo balanço das autoridades libanesas. Eles ocorreram na capital, Beirute, e em outros locais, principalmente no sul do Líbano.

Fonte: G1

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