Economia

Nordeste já sofria queda nas exportações aos EUA antes de tarifa de 25% entrar em vigor

22/07/2026 às 10:03

 

Antes do tarifaço de 25% anunciado pelos Estados Unidos entrar em vigor, o Nordeste já sentia os efeitos da desaceleração das exportações para o principal parceiro comercial fora da América Latina. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que oito dos nove estados nordestinos registraram queda nas vendas para o mercado norte-americano no primeiro semestre deste, indicando que a perda de competitividade e o aumento da insegurança comercial começaram antes mesmo da nova medida tarifária.

No período, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões. Juntos, os nove estados do Nordeste exportaram US$ 1,25 bilhão para o mercado americano entre janeiro e junho. A Paraíba foi a única exceção, com crescimento de 5,9%. Nos demais estados, as retrações variaram de 0,6%, no Maranhão, a expressivos 72% no Rio Grande do Norte, o pior desempenho entre todas as unidades da Federação.

A partir desta quarta-feira (22), a situação tende a se agravar com a entrada em vigor da tarifa adicional de 25% imposta pelo governo norte-americano sobre cerca de 4 mil produtos brasileiros, incluindo itens estratégicos para a economia nordestina, como açúcar, sal, calçados, vestuário, etanol, papel, máquinas e produtos químicos.

O comportamento do mercado chama atenção porque, mesmo antes da cobrança da nova tarifa, setores importantes já enfrentavam dificuldades para manter contratos e ampliar embarques. Estados que exportam produtos isentos da sobretaxa também registraram queda nas vendas.

É o caso de Pernambuco, que vendeu US$ 35,9 milhões aos Estados Unidos, uma redução de 33,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Embora a manga tenha ficado fora da lista de produtos tributados, o estado também exporta açúcar de cana e uvas, sendo o açúcar um dos itens alcançados pela nova medida.

Na Bahia, as exportações somaram US$ 373,2 milhões, com retração de 14%. O estado tem como principais produtos enviados aos Estados Unidos a celulose, derivados de cacau e sucos de frutas, responsáveis por mais de 80% da pauta exportadora. Celulose e frutas permaneceram isentas, mas isso não foi suficiente para impedir a redução dos embarques.

O mesmo cenário foi observado em Sergipe. Mesmo tendo o suco de laranja congelado — responsável por boa parte das vendas do estado aos Estados Unidos — entre os produtos excluídos da tarifa, as exportações caíram 35,9%, totalizando US$ 94,3 milhões no semestre.

No Maranhão, a retração foi menor, de 0,6%, com US$ 332,9 milhões exportados. O principal produto enviado aos Estados Unidos é o hidróxido de alumínio (alumina), também isento da nova tributação. Já o Rio Grande do Norte registrou o quadro mais preocupante. As exportações despencaram 72%, somando apenas US$ 27 milhões. O estado é um dos maiores exportadores nacionais de frutas irrigadas, como melão, melancia e mamão, além de pescados. Apesar de lagosta, atum, camarão e derivados de petróleo permanecerem fora da tarifa, o sal — outro produto estratégico para a economia potiguar — será tributado.

Segundo Luciano Bushatsky Andrade de Alencar, advogado especialista em Comércio Internacional e Direito Tributário e Aduaneiro, os números demonstram que o impacto da política comercial norte-americana começou antes da entrada em vigor da nova sobretaxa. “A queda das exportações antes mesmo da vigência da tarifa demonstra que o mercado internacional reage muito mais às expectativas do que à efetiva cobrança do imposto. Quando um importador percebe um ambiente de insegurança, ele tende a adiar negociações, reduzir pedidos ou buscar fornecedores em outros países para evitar riscos. Isso explica por que até produtos que ficaram fora da lista de tributação já apresentam retração nas vendas”, afirma.

O especialista destaca que essa perda de previsibilidade afeta especialmente setores que dependem de contratos firmados com antecedência. “Comércio exterior funciona com planejamento. Empresas negociam produção, logística, transporte marítimo e financiamento meses antes do embarque. Quando há incerteza sobre custos futuros, muitos contratos deixam de ser fechados ou entram em processo de renegociação. O prejuízo não aparece apenas quando a tarifa começa a ser cobrada; ele surge no momento em que o comprador perde confiança na estabilidade da relação comercial”, explica Luciano.

Além dos produtos agrícolas, a retração atingiu diversos bens industriais brasileiros. Segundo a CNI, houve redução nas exportações de semimanufaturados de ferro e aço, ferro fundido bruto, pasta química de madeira, derivados de petróleo e outras ligas metálicas, evidenciando que o movimento não se restringe ao agronegócio.

No Ceará, por exemplo, as exportações para os Estados Unidos caíram 36,9%, totalizando US$ 349,8 milhões. O estado, segundo maior exportador de calçados do país, já acumulava queda nas vendas do setor antes mesmo da nova tarifa e passou a redirecionar parte dos embarques para o México, que se tornou o terceiro principal destino das exportações cearenses em 2026.

De acordo com Luciano, a diversificação de mercados passa a ser uma estratégia necessária, mas não imediata. “Encontrar novos compradores não acontece da noite para o dia. Cada mercado possui regras sanitárias, exigências técnicas, padrões de certificação e canais próprios de distribuição. Substituir os Estados Unidos exige tempo, investimento e negociação. Enquanto isso, muitas empresas podem enfrentar redução de receita, perda de competitividade e impactos sobre toda a cadeia produtiva, desde o produtor rural até a logística e a indústria de transformação.”

A preocupação aumenta porque a tarifa de 25% pode não ser a única medida. A CNI alerta que uma segunda investigação comercial em andamento nos Estados Unidos poderá resultar na aplicação de uma nova sobretaxa de 12,5%, elevando a tributação total para até 37,5% sobre parte das exportações brasileiras.

Para o especialista, esse cenário reforça a necessidade de atuação conjunta entre governo e setor produtivo. “O desafio agora é restabelecer segurança jurídica e previsibilidade nas relações comerciais. Além do diálogo diplomático entre os governos, será fundamental que as empresas revisem contratos internacionais, analisem cláusulas de distribuição dos custos tarifários e avaliem estratégias para reduzir a dependência de um único mercado. O momento exige planejamento jurídico e comercial para evitar que uma crise conjuntural produza efeitos permanentes sobre a competitividade das exportações nordestinas”, conclui o advogado.

Fonte: Assessoria de Imprensa

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