Obras de infraestrutura sustentam projeção de crescimento e mantiveram postos de trabalho na construção civil no 1º semestre de 2026

A construção civil brasileira continua crescendo e gerando empregos, mas cada vez mais apoiada nas obras de infraestrutura do que no mercado imobiliário tradicional. Essa foi a principal mensagem da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) ao divulgar o balanço do segundo trimestre do setor e suas perspectivas para 2026.
A entidade manteve sua projeção de expansão de 1,2% para a construção civil neste ano, apesar de um ambiente marcado por juros elevados, custos acima da inflação e deterioração da confiança dos empresários. Segundo a CBIC, o avanço das concessões, das Parcerias Público-Privadas (PPPs) e dos investimentos em saneamento vem compensando parte das dificuldades enfrentadas pelos segmentos mais dependentes do crédito.
“O melhor dinamismo das obras de infraestrutura e os lançamentos imobiliários realizados nos últimos dois anos, que ainda estão em execução, nos levaram a manter a projeção de crescimento”, afirmou a economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, durante a apresentação.
A leitura da entidade reflete uma mudança na composição do crescimento do setor. Pela primeira vez desde o início da série histórica do Novo Caged, em 2020, as obras de infraestrutura superaram a construção de edifícios na geração de empregos durante um primeiro semestre.
Entre janeiro e junho, a infraestrutura criou 64.793 vagas com carteira assinada, alta de 30,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Enquanto isso, a construção de edifícios gerou 60.552 vagas, queda anualizada de 2,19%; e os serviços especializados para construção, 43.617 vagas, redução de 7,14%.
No mesmo intervalo, a construção civil como um todo abriu 168.962 postos formais, crescimento de 6,5%.
Para a CBIC, o desempenho está diretamente relacionado aos investimentos privados em projetos de saneamento e infraestrutura que começaram a sair do papel após mudanças regulatórias e leilões realizados nos últimos anos.
Segundo o presidente da entidade, Eduardo Almeida, dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB) mostram que 84% dos investimentos em infraestrutura têm origem no setor privado.
Setor cresce, mas confiança piora
Se o mercado de trabalho continua resiliente, os indicadores de confiança e atividade contam uma história mais cautelosa. O Índice de Confiança do Empresário da Construção encerrou o primeiro semestre com 47,2 pontos, o menor nível desde 2016. Pela metodologia da pesquisa, resultados abaixo de 50 pontos indicam falta de confiança.
Para Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o problema não é apenas a queda recente da confiança, mas sua persistência.
“Uma coisa é uma falta de confiança pontual. Outra é uma persistência de falta de confiança por um período muito longo. Isso tende a se refletir em decisões de investimento, contratações e lançamento de novos empreendimentos”, afirmou.
Já a média do indicador “Nível de Atividade” da Construção ficou em 46,4 pontos nos primeiros seis meses de 2026, o menor patamar registrado desde 2020, ano da chegada da pandemia no Brasil, quando caiu para 39,1 pontos.
Juros seguem no centro das preocupações
A principal explicação para esse ambiente de cautela continua sendo a política monetária. Segundo a CBIC, desde que a taxa básica de juros passou a operar em dois dígitos, em 2022, ela figura entre os principais problemas apontados pelos empresários da construção que participaram do levantamento. No segundo trimestre deste ano, voltou a ocupar a primeira posição do ranking de preocupações do setor.
Na avaliação da entidade, os juros elevados afetam tanto a demanda imobiliária quanto a capacidade de investimento das empresas. Também contribuem para o aumento do endividamento das famílias, reduzindo o consumo de materiais de construção e limitando pequenas reformas residenciais.
A preocupação aparece inclusive nos indicadores ligados à cadeia produtiva. A produção de insumos típicos da construção recuou 4,1% entre janeiro e maio na comparação anual, enquanto as vendas do varejo de materiais de construção caíram 1%.
Crédito imobiliário reage
Apesar do cenário desafiador, o financiamento imobiliário apresentou recuperação no primeiro semestre. O volume financiado com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) somou R$ 160,3 bilhões entre janeiro e junho, avanço de 17,5% em relação ao mesmo período de 2025.
O destaque ficou com o SBPE, principal fonte de crédito para imóveis de mercado, cujo volume financiado cresceu 28,55%, na comparação anual. Segundo a CBIC, o desempenho reflete mudanças regulatórias implementadas recentemente e o aumento do limite de financiamento dentro do Sistema Financeiro da Habitação (SFH).
No semestre, foram financiadas 563,4 mil unidades habitacionais, o melhor resultado para o período desde 2021.
Custos continuam pressionando
O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) acumulou alta de 6,44% nos 12 meses encerrados em julho, contra inflação de 4,44% medida pelo IPCA. Já o Custo Unitário Básico (CUB Brasil), calculado pela própria CBIC, subiu 7,06% em 12 meses até junho.
Materiais, equipamentos e mão de obra continuam pressionando os orçamentos. Entre os insumos que mais encareceram, a entidade destacou o fio de cobre, cujo preço médio aumentou mais de 21% no período. Também registraram altas expressivas itens como cimento, esquadrias, vidro e concreto.
Segundo a CBIC, parte dessa pressão está relacionada ao aumento dos custos de energia observado após os conflitos geopolíticos dos últimos anos. A entidade argumenta que muitos dos insumos utilizados pela construção possuem processos produtivos intensivos em energia, o que fez com que a alta do petróleo e de outros custos energéticos fosse repassada aos preços finais dos materiais.
“São geralmente insumos que dependem muito de energia”, explicou o presidente da CBIC, Eduardo Almeida, ao comentar o avanço dos custos de materiais. A economista-chefe da entidade, Ieda Vasconcelos, acrescentou que a alta do petróleo após os conflitos no Oriente Médio também ajudou a pressionar os preços dos insumos da construção.
O tema é fonte de preocupação em relação aos projetos habitacionais de interesse social. A CBIC informou que vem discutindo o tema com o governo federal, argumentando que a alta dos materiais pode comprometer a viabilidade econômica de contratos do programa Minha Casa, Minha Vida que possuem preços previamente definidos e sem mecanismos adequados de reajuste.
Interiorização do crescimento
A apresentação também mostrou uma mudança geográfica da atividade. Embora São Paulo continue liderando a geração de empregos em números absolutos, a CBIC passou a analisar a criação de vagas proporcionalmente ao tamanho da população dos estados. Nesse critério, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Santa Catarina aparecem como os mercados mais dinâmicos do país.
O caso mais emblemático é o de Inocência (MS), município impulsionado pela construção de uma das maiores fábricas de celulose do mundo – o “Projeto Sucuri”, da Arauco. Segundo a entidade, a cidade tem cerca de 8 mil habitantes, mas atualmente abriga uma população flutuante próxima de 23 mil pessoas, o que vem estimulando simultaneamente obras de infraestrutura e construção de edifícios.
Para a CBIC, o movimento evidencia como os investimentos em infraestrutura estão se tornando um vetor de transformação econômica para regiões fora dos grandes centros tradicionais do país.
Fonte: InfoMoney
