Uma investigação da Polícia Federal aponta que o Banco Master teria realizado cerca de R$ 2,8 bilhões em operações de câmbio para uma empresa investigada por suspeita de lavar dinheiro ligado ao PCC e ao grupo terrorista Hezbollah. As remessas ocorreram entre 2018 e 2021, período anterior à mudança de nome e de estratégia da instituição, então chamada Banco Máxima.
De acordo com uma apuração publicada nesta segunda-feira (2) pela Folha de S. Paulo e confirmada pela Gazeta do Povo por fontes a par da investigação, foram enviados US$ 531 milhões para a One World Services (OWS), empresa brasileira que atua na venda direta de criptoativos sem intermediação de corretoras tradicionais. A Polícia Federal aponta que a corretora utilizou contas no Master para comprar bitcoins destinados a pessoas condenadas por lavagem de dinheiro para organizações criminosas.
Em resposta à apuração, o Banco Master afirmou que “as apurações sobre esse tema foram objeto de acordo firmado com o BC [Banco Central], que encerrou o caso no âmbito administrativo, sem reconhecimento de irregularidade”. O valor da multa aplicada no acordo não foi divulgado pela instituição.
Segundo a apuração, as operações se concentraram entre dezembro de 2018 e abril de 2021, fase em que o câmbio ganhou peso no balanço do banco. Daniel Vorcaro ingressou na instituição em 2017 e assumiu o controle em 2018, com aprovação do Banco Central formalizada em agosto de 2019.
Nos autos, a Polícia Federal afirma que oito instituições financeiras, incluindo o Master, “de forma deliberada fecharam os olhos para a realidade de seus clientes”. A Operação Colossus, iniciada em 2022 e com desdobramentos em 2024 e 2025, monitora movimentações de cerca de R$ 60 bilhões, sendo R$ 8 bilhões em câmbio.
No caso específico do Master, foram identificadas 331 operações justificadas como aumento de capital de uma offshore da OWS em Miami. Pela regra vigente à época, cada remessa exigia ata societária comprovando o aporte, mas apenas 15 documentos foram apresentados às autoridades.
A Polícia Federal e o Banco Central também apontaram inadequação na finalidade declarada das operações, o que reduzia o recolhimento de impostos. Enquanto aumentos de capital pagavam IOF de 0,38%, a compra de ativos no exterior seria tributada em 1,1%. Os investigadores ainda encontraram indícios de fraude nas atas apresentadas.
“Alguns desses arquivos foram digitalizados com alguns minutos de diferença uns dos outros”, registra o relatório policial, que cita documentos repetidos em datas próximas.
Em dezembro de 2022, o Banco Central dispensou a exigência de documentação para justificar determinadas operações de câmbio no exterior, medida que enfraqueceu o principal instrumento usado pela Polícia Federal para apontar irregularidades. Desde o fim do ano passado, as operações com criptoativos passaram a ser reguladas e precisam ser informadas à autarquia como as demais casas de câmbio.
INSS notificou Master três vezes para comprovar consignados
O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) notificou o Banco Master pelo menos três vezes para apresentar os documentos que comprovem a existência legal e o consentimento válido de aposentados e pensionistas em mais de 250 mil contratos de empréstimos consignados. O órgão bloqueou cerca de R$ 2 bilhões em repasses ao banco no dia 26 de novembro de 2025, e que ainda está válida até a conclusão da apuração interna.
Segundo uma apuração publicada nesta segunda-feira (2) pela GloboNews, o Banco Master teria promovido uma “expansão agressiva” da carteira de crédito nos últimos exercícios que resultou em um “número expressivo de averbações desprovidas do devido lastro documental” e “sem a observância dos requisitos de segurança exigidos”.
“A apuração realizada constatou que a instituição financeira falhou em apresentar a documentação comprobatória requisitada pela Diretoria de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão”, diz trecho de um despacho da investigação interna do INSS elaborado no dia 19 de novembro de 2025, um dia depois do Banco Central decretar a liquidação do Master.
Em nota à Gazeta do Povo, a defesa do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, contestou a investigação e afirmou que a instituição “sempre atuou em estrita observância às normas e aos procedimentos estabelecidos pelo INSS para a concessão de crédito consignado, incluindo os requisitos de formalização, identificação do contratante e comprovação de consentimento”.
A concessão dos mais de 250 mil empréstimos consignados supostamente de forma irregular levou à convocação de Daniel Vorcaro para depor na CPMI do INSS na quinta-feira (5) a pedido do presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG). Em princípio, e para não confrontar com as investigações sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF), o depoimento do banqueiro deverá se restringir aos contratos de crédito consignado firmados entre o banco e os beneficiários do instituto.
Ainda de acordo com a investigação interna do INSS, o Banco Master foi notificado formalmente “em três oportunidades, sendo a última após contato com o liquidante no dia 23/01”. Mesmo após as notificações, o instituto afirma que ainda aguarda a entrega completa da documentação exigida.
“No momento, o INSS aguarda manifestação e envio da documentação pelo banco. A expectativa é de que a situação seja reavaliada em até 15 dias”, informou o órgão.
O mesmo despacho destaca que a instituição financeira não apresentou os documentos solicitados pela Diretoria de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão. Para o INSS, a ausência dessas informações compromete a confiabilidade dos contratos e expõe beneficiários a possíveis descontos indevidos em seus benefícios.
Outro trecho do documento é ainda mais duro ao classificar a situação como crítica. Segundo o órgão, a “omissão na apresentação de mais de 250 mil contratos constitui uma falha grave e insanável, que lança dúvidas fundadas sobre a existência jurídica e a validade do consentimento dos beneficiários em um percentual alarmante das consignações”.
Além da falta dos contratos físicos, a análise de amostras disponíveis no sistema eConsignado identificou documentos genéricos e padronizados. Segundo o INSS, esses registros não traziam informações básicas como limite de crédito, taxa de juros, forma de pagamento e número de parcelas, o que fere regras mínimas de transparência.
Esta nova frente de investigação se soma à já em andamento que apura a venda de carteiras de crédito sem lastro ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12,2 bilhões, além da tentativa de venda do Banco Master à instituição estatal que foi barrada pelo Banco Central no ano passado.
Fonte: Gazeta do Povo



