Estudo piloto com orientação do Dr. Marcio Mancini, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP), identificou 80 regiões diferencialmente metiladas no DNA de mulheres com alto consumo de alimentos ultraprocessados (AUPs), em comparação às que consumiam menos desses produtos. O seja, o DNA destas mulheres sofreu uma modificação química que altera a expressão gênica.
A maioria dessas regiões mostrou-se hipometilada no grupo de maior ingestão. Esse fenômeno significa que pode haver uma ativação de genes que normalmente estariam silenciados, causando desequilíbrio genômico. Além disso, de acordo com o estudo, sugere-se um possível mecanismo epigenético (mudanças na expressão gênica que não alteram a sequência do DNA, mas que podem ser herdadas e são influenciadas pelo ambiente e pelo estilo de vida), que ajuda a explicar a já conhecida associação entre ultraprocessados, obesidade e doenças crônicas não transmissíveis (entre elas, câncer).
No estudo observacional transversal, 30 mulheres foram avaliadas e divididas conforme a classificação. A dieta foi medida por registro alimentar de três dias e as análises epigenéticas utilizaram DNA de leucócitos do sangue periférico, com sequenciamento de nova geração.
“Nossos achados reforçam a hipótese de que o impacto dos ultraprocessados pode ocorrer já no nível epigenético, modulando a metilação do DNA e, potencialmente, a expressão gênica”, afirma o Dr. Marcio Mancini. “É um estudo piloto, com amostra pequena, mas que abre caminho para pesquisas maiores e longitudinalmente desenhadas, capazes de demonstrar causalidade”, complementa.
Segundo o especialista, alterações na metilação do DNA podem representar um elo biológico entre dieta e riscos cardiometabólicos. “A mensagem prática continua válida: reduzir ultraprocessados e priorizar alimentos in natura e minimamente processados é uma estratégia consistente para promoção da saúde”, acrescenta.
Por que isso importa:
- Consumo de AUPs em alta: a expansão desses produtos acompanha o avanço global da obesidade e de DCNTs.
- Mecanismo ainda obscuro: embora estudos associem AUPs a piores desfechos, como isso acontece no organismo não estava claro; a epigenética surge como peça importante desse quebra-cabeça.
- Sinal biológico: a detecção de 80 regiões diferencialmente metiladas sugere que padrões epigenéticos podem responder à qualidade da dieta.
Limitações e próximos passos – Trata-se de um estudo piloto, transversal e com pequena amostra, o que não permite inferir causalidade. Os autores recomendam ensaios com amostras maiores e seguimento longitudinal, além de explorar tecidos-alvo metabólicos e a função das regiões diferencialmente metiladas.





