A hanseníase segue como um dos principais desafios da saúde pública no Brasil. O país ocupa a segunda posição mundial em número de casos, atrás apenas da Índia, e convive com indicadores que revelam transmissão ativa e diagnóstico tardio. Entre 2014 e 2023, foram registrados 309.091 casos da doença, segundo o mais recente Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, cerca de 80% classificados como novos.
A queda abrupta na detecção durante a pandemia de COVID-19, seguida por uma retomada lenta dos diagnósticos, resultou em uma taxa de 10,68 casos por 100 mil habitantes em 2023. As regiões Centro-Oeste e Norte continuam concentrando os maiores índices, com destaque para Mato Grosso e Tocantins. O boletim também aponta um crescimento de 35,2% nos casos novos entre pessoas com 60 anos ou mais e traz um dado alarmante: aumentou em 69,7% a proporção de diagnósticos já acompanhados de incapacidade física grave (grau 2), evidência de que muitos pacientes chegam tardiamente aos serviços de saúde.
Outro fator de preocupação é o avanço da forma multibacilar, a mais transmissível da doença, que registrou aumento de 25% na classificação operacional. Em paralelo, persistem fragilidades no acompanhamento dos pacientes, como a avaliação incompleta do grau de incapacidade física ao término do tratamento, realizada em apenas 70,4% dos casos novos.
Apesar das lacunas, o boletim indica avanços na vigilância epidemiológica, especialmente na ampliação do exame de contatos, estratégia considerada essencial para identificar casos precoces e interromper a cadeia de transmissão.
Ferramenta para enfrentar o atraso no diagnóstico
Nesse contexto, o Sistema Único de Saúde passou a contar com um novo aliado no auxílio ao diagnóstico precoce da hanseníase: o teste rápido para detecção de anticorpos específicos contra o Mycobacterium leprae. A tecnologia, aprovada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), já está disponível na rede pública como exame complementar para pessoas com suspeita da doença e contatos de pacientes diagnosticados.
O teste é imunocromatográfico, semelhante aos utilizados durante a pandemia de COVID-19, e pode ser realizado com uma pequena amostra de sangue obtida por punção digital. O resultado é liberado entre 15 e 20 minutos, o que favorece ações de vigilância ativa e amplia a capacidade de testagem em áreas remotas, onde a limitação de infraestrutura frequentemente retarda o diagnóstico.
A ferramenta auxilia profissionais de saúde na classificação de casos suspeitos, na avaliação de contatos e no monitoramento de regiões com maior incidência. Em um país onde a hanseníase ainda avança de forma silenciosa, a agilidade na confirmação diagnóstica pode evitar incapacidades permanentes e contribuir para a redução da transmissão.
Participação da Bioclin
O teste incorporado ao SUS foi desenvolvido pela Bioclin, indústria nacional do setor de diagnóstico laboratorial. A empresa participou do 19º Congresso Brasileiro de Hansenologia, realizado em Foz do Iguaçu, evento que debateu estratégias de enfrentamento da doença na região da tríplice fronteira, área marcada por desafios geográficos, sociais e sanitários que dificultam o controle da hanseníase.
A incorporação da tecnologia ao SUS e ao rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) é vista como um avanço na estrutura de vigilância epidemiológica do país e um reforço à estratégia de ampliar o acesso ao diagnóstico precoce, etapa fundamental para reduzir incapacidades permanentes e interromper a transmissão da hanseníase.





