A história se repete, mas não como farsa: como hiper-realidade. Desde a posse de Donald Trump para um segundo mandato, em janeiro de 2025, o mundo assiste a uma sucessão de atos que, até recentemente, seriam impensáveis no cenário internacional: a imposição de sanções comerciais unilaterais a dezenas de países; a operação militar que resultou no sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, levado aos Estados Unidos em flagrante violação da soberania venezuelana e do direito internacional; e, mais recentemente, as ameaças públicas de anexação da Groenlândia — ecoando delírios expansionistas coloniais do século XIX.
Os eventos que se acumulam desde então não são meros desvios ou excentricidades de um líder errático. São, antes, sintomas da falência do arranjo internacional baseado nas instituições criadas no pós-Segunda Guerra Mundial e, mais profundamente, expressões do esgotamento histórico da democracia liberal enquanto formato de governabilidade do capitalismo.
É nesse cenário que se torna imperioso debater o conceito de tecnofeudalismo, tal como formulado por Yanis Varoufakis, para compreender como o poder das grandes plataformas digitais — os novos senhores feudais — se alia aos novos autoritarismos globais, não apenas viabilizando suas ações, mas estruturando uma forma inédita de dominação.
O sequestro de Nicolás Maduro por tropas norte-americanas não é apenas uma afronta à soberania da Venezuela. É, sobretudo, a negação concreta daquilo que se pretendia com a constituição de uma ordem internacional fundada no direito, na cooperação e na regulação multilateral dos conflitos.
A lógica de Trump é de guerra: econômica, cultural, política. Não há diálogo, nem mediação institucional, tampouco busca de consenso. Há imposição pela força — seja ela armada ou tarifária. A soberania dos Estados sempre foi o grande obstáculo à efetividade dos organismos multilaterais. Mas agora, nem mesmo o verniz do multilateralismo é respeitado.
Não se trata mais de tensionar tratados ou contestar cortes internacionais. Trata-se de ignorá-los abertamente, deslegitimá-los e substituí-los por ações unilaterais violentas — normalizadas por uma opinião pública domesticada e uma comunidade internacional que se mostra, quando muito, perplexa, mas impotente.
O que ocorre nos EUA sob Trump — e não apenas lá — é a demonstração prática de que a democracia liberal não é um valor inegociável para o capitalismo, mas sim um recurso funcional que pode ser descartado quando deixa de ser útil.
Desde 2016, temos argumentado que o esvaziamento das instituições democráticas, no Brasil e alhures, não se trata de anomalia, mas de movimento orgânico do capital em contextos de crise. A forma representativa-liberal, com suas eleições periódicas, sua imprensa livre e seu sistema de freios e contrapesos, cumpre um papel de legitimação enquanto garante estabilidade à reprodução do capital.
Quando essa forma não assegura mais essa estabilidade — seja por tensões sociais internas, seja por desajustes no ciclo de acumulação — ela é rapidamente substituída por formas de exceção institucionalizadas, muitas vezes com o apoio dos mesmos setores econômicos que antes defendiam a “democracia”.
Trump, ao suprimir liberdades, intervir no Judiciário, militarizar a fronteira, ampliar a vigilância interna e agir abertamente contra o sistema de freios e contrapesos constitucional, não destrói a democracia americana: apenas a revela como aquilo que sempre foi — um instrumento do capital, e não um fim em si.
A ruptura da democracia liberal não se dá no vazio. Ela é acompanhada por uma transformação mais profunda no modo de produção, como alerta Varoufakis. O capitalismo de vigilância cede lugar ao tecnofeudalismo, uma estrutura de poder em que os grandes conglomerados digitais (as “Big Techs”) — Amazon, Google, Meta, Microsoft, Apple, Tencent, Alibaba — controlam não apenas os fluxos econômicos, mas os dados, as identidades, os desejos e as práticas sociais.
Sob o tecnofeudalismo, o lucro não se extrai da exploração direta da força de trabalho produtiva, mas da captura de renda informacional e da imposição de taxas sobre o uso de plataformas indispensáveis à vida cotidiana. Os usuários, transformados em “súditos” digitais, não participam da economia: estão à sua mercê.
Esse modelo combina perfeitamente com os regimes autoritários: fornece os mecanismos técnicos para o controle social (vigilância, censura algorítmica, manipulação da informação) e os justificadores ideológicos (segurança, eficiência, neutralidade). As Big Techs não apenas toleram governos como o de Trump: elas os alimentam, os sustentam — e deles dependem.
A nova (des)ordem internacional, marcada pela ruptura do direito internacional, pelo colapso da democracia liberal e pela consolidação de um novo modo de produção baseado na tecnologia e na submissão dos dados, não é uma distopia distante. Ela é o nosso presente.
Mas reconhecer o quadro não é aceitar sua fatalidade. Ao contrário: é condição para superá-lo. É preciso construir novas formas de organização social, de resistência democrática e de ruptura com a lógica do capital — seja ele industrial, financeiro ou digital.
A democracia, se quiser sobreviver, não pode mais ser apenas liberal.
É tempo de refundação. E essa tarefa, como toda tarefa histórica, é coletiva, conflitiva e inadiável.