ARACAJU/SE, 12 de fevereiro de 2026 , 9:10:19

Entre a Estética e a Saúde: O Alerta da Pancreatite

 

Nos últimos anos, a indústria farmacêutica e o mercado da estética testemunharam um fenômeno sem precedentes: a “febre” das canetas emagrecedoras. Medicamentos originalmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, como a semaglutida e a liraglutida, ganharam o mundo — e as redes sociais — como soluções supostamente milagrosas para a perda de peso rápida. No entanto, a recente onda de notícias relatando casos de pancreatite aguda associados ao uso dessas substâncias acendeu um sinal de alerta vermelho entre médicos e pacientes, transformando a euforia em preocupação.

O impacto dessas notícias tem sido imediato e dual. Por um lado, gera-se um pânico compreensível entre aqueles que utilizam a medicação sob prescrição correta; por outro, expõe-se a fragilidade da saúde pública diante da automedicação motivada puramente por padrões estéticos.

Para compreender o impacto das notícias, é preciso entender a biologia por trás do medicamento. As chamadas “canetas” funcionam imitando um hormônio natural do corpo, o GLP-1, que regula a saciedade e a produção de insulina. Embora eficazes e revolucionários para o controle da obesidade e do diabetes, esses fármacos estimulam as células do pâncreas.

A pancreatite aguda é uma inflamação súbita e grave desse órgão. Embora seja um efeito adverso raro — descrito nas bulas e conhecido pela comunidade científica —, o risco existe. O problema reside no fato de que, com a massificação do uso, o número absoluto de complicações tende a aumentar, ganhando destaque nos noticiários. A repercussão midiática de casos em que pacientes acabaram internados em UTIs serve como um freio de arrumação necessário em um cenário onde o medicamento vinha sendo tratado como cosmético.

O cerne da questão, amplamente debatido por endocrinologistas após a viralização dos casos de pancreatite, não é a segurança da droga em si, mas quem a está utilizando e como.

O impacto mais severo das notícias recai sobre o mercado paralelo e a compra sem receita. Uma parcela significativa dos pacientes que desenvolveram complicações não passou por uma triagem médica adequada. A pancreatite, muitas vezes, tem gatilhos prévios. Pacientes com histórico de cálculos biliares (pedra na vesícula), triglicerídeos excessivamente altos ou histórico familiar de doenças pancreáticas possuem um risco elevadíssimo ao utilizar análogos de GLP-1.

Sem a consulta médica, esses fatores de risco são ignorados. O indivíduo compra a caneta na farmácia ou na internet, inicia o uso por conta própria e, ao ignorar os sinais do corpo, pode evoluir para um quadro inflamatório grave. As notícias recentes têm o mérito de educar a população de que a obesidade é uma doença crônica complexa, e não algo que se resolve com uma “canetada” sem supervisão.

Diante do cenário atual, o pânico não deve substituir a prudência. Médicos reforçam que, para pacientes com indicação clínica (obesidade grau 1 com comorbidades, grau 2 ou 3, e diabéticos), o benefício do medicamento na prevenção de infartos e derrames supera os riscos, desde que haja monitoramento.

Os cuidados essenciais que devem ser observados incluem:

  1. Avaliação Prévia Rigorosa: Antes de iniciar o tratamento, é mandatório realizar exames de sangue (incluindo enzimas pancreáticas como amilase e lipase) e, preferencialmente, um ultrassom abdominal para descartar cálculos na vesícula, que são a principal causa de pancreatite.
  2. Monitoramento dos Sintomas: O paciente deve estar atento aos sinais do corpo. A pancreatite aguda manifesta-se tipicamente como uma dor abdominal intensa na região superior da barriga (“boca do estômago”), que irradia para as costas e não melhora, frequentemente acompanhada de náuseas severas e vômitos. Diante desses sintomas, o uso deve ser interrompido imediatamente e o socorro médico acionado.
  3. Hidratação e Alimentação: A desidratação, comum devido à redução da ingestão de água e alimentos pelo efeito do remédio, pode sobrecarregar o sistema renal e pancreático. Manter a hidratação é vital.
  4. Progressão de Dose: O erro comum da automedicação é pular as etapas de adaptação da dose para emagrecer mais rápido. O aumento súbito da dosagem é um fator de estresse agudo para o pâncreas.

As notícias sobre casos de pancreatite aguda não devem demonizar uma classe de medicamentos que mudou a história do tratamento da obesidade. No entanto, elas cumprem um papel social fundamental: tirar o glamour do uso dessas substâncias.

O emagrecimento saudável exige respeito à fisiologia humana. A “caneta” é uma ferramenta poderosa, e como toda ferramenta poderosa, exige perícia para ser manuseada. O impacto final dessa onda de informações deve ser a conscientização de que a busca pela estética não pode custar a saúde de um órgão vital. A prescrição individualizada e o acompanhamento médico contínuo continuam sendo as únicas blindagens seguras contra as estatísticas de complicações graves.