JOSÉ LIMA SANTANA
PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL, ASLJ, ASE, ADL, ABLAC E IHGSE
Qualquer instituição, religiosa, política, econômica, astronômica ou de outro segmento, passa por divergências no seu interior, o que é, absolutamente, natural. Com a Igreja Católica não poderia ser diferente. Desde os primórdios do cristianismo, surgiram divergências conceituais, litúrgicas etc. Aliás, na primeira comunidade seguidora de Jesus, formada pelos doze discípulos, já se viam divergências. Basta lembrar a revolta dos dez, quando a mãe de João e Tiago pediu ao Divino Mestre uma posição de destaque para seus filhos, para que, no Reino, um ficasse à direita e o outro à esquerda d’Ele (Mt 20,20-28).
O pensamento dos Padres da Patrística não seria repetido, in totum, pelos congêneres da Escolástica. O tempo avançou, propiciando novas compreensões em torno de tudo que se liga à Igreja. O que não muda, o que não passa é a Palavra. Porém, as instituições vão se aprimorando em seus afazeres, em suas missões. Nada é para sempre, nas sociedades humanas, nem mesmo nas religiosas. Repito: o que não muda nem passa é a Palavra de Deus, contida na Bíblia.
Católicos há, contudo, que esbravejam por isto ou por aquilo. Vêm as divisões de entendimento e de ação. Que bom! O que é perniciosa é a tentativa de querer impor o que ficou para trás, por decisão de quem tem o poder de decidir sobre o governo da Igreja: a autoridade papal, os concílios, os consistórios, os sínodos, as conferências nacionais, as normatizações regionais, enfim, os governos diocesanos a cargo dos senhores bispos e arcebispos.
Quando se trabalha em grupo e a maioria decide por uma posição, deve-se ir em frente. Querer impor a posição vencida é, antes de tudo, falta de demonstração de unidade, que deve ser buscada na diversidade. Não é a diversidade querer quebrar a unidade. E unidade jamais significará unanimidade. Em qualquer situação, no tempo e no espaço, a maioria toma as decisões, nas ações colegiadas.
O Papa Pio V (1504-1572) teve um papel importante no Concílio de Trento, na Contrarreforma e na padronização do Rito Romano da Igreja Latina. A inadvertidamente chamada “missa de sempre”, portanto, não passa da padronização proposta pelo Concílio de Trento, pois havia ritos diversos. Não é “de sempre”, pois. Nunca foi.
Assim, para implementar a decisão do Concílio, Pio V padronizou a Santa Missa promulgando a edição de 1570 do Missal, tornando-o obrigatório em todo o rito latino da Igreja Católica, exceto quando uma liturgia em massa que datava de antes de 1570 estava em uso. Esta forma da Missa permaneceu essencialmente inalterada por 400 anos até a revisão do Missal Romano pelo Papa Paulo VI em 1969-70. E assim como coube a Pio V, coube a Paulo VI padronizar o novo Missal. A autoridade papal é a mesma exercida por este ou aquele Pontífice.
Grupos ultraconservadores rebelaram-se contra a também inadvertidamente chamada “Missa de Paulo VI”, pois o rito da Santa Missa é da Igreja, no seu todo considerada, que tem a chefia única, no topo, do Santo Padre, sucessor de Pedro. Quem não entende que o Papa é o chefe da Igreja universal, nega a sucessão petrina. E se nega a sucessão petrina, está fora da comunhão. Simples assim.
No início deste mês, o Vaticano viveu dias de reflexão com o primeiro Consistório Extraordinário do Papa Leão XIV, que abriu um novo capítulo na administração da Igreja. Cerca de 170 cardeais, de todos os continentes, foram convocados para ajudar o Pontífice a definir as prioridades do seu pontificado. Lembrando que um Consistório é uma reunião formal do Papa com o Colégio Cardinalício, durante a qual são discutidas questões importantes para a vida da Igreja.
Na abertura, o Papa deu o tom do encontro. Diante do Colégio Cardinalício, afirmou: “Estou aqui para ouvir”. Por ampla maioria, os cardeais escolheram para debate dois temas que foram refletidos nos dois dias de trabalho: “Sínodo e sinodalidade” e “Evangelização e espírito missionário na Igreja à luz da Evangelii gaudium” (Encíclica do Papa Francisco). Os dois outros temas que estavam postos para reflexão, e foram descartados, por enquanto, eram Liturgia e Reforma da Cúria. Ficarão para outra oportunidade.
Grupos contestadores espernearam, almejando que o tema Liturgia estivesse em debate, como a querer uma tomada de decisão, além da que já foi tomada, sobre a Missa Tridentina, através do Motu Proprio “Traditionis Custodes”, de 16 de julho de 2021, em que o Papa Francisco afirmou que é competência exclusiva do bispo autorizar o uso do Missal Romano anterior na sua Diocese.
Há um saudosismo em torno de certas ações litúrgicas, que não fazem mais parte do Rito Latino. Quem está à frente disso, aqui no Brasil? Determinados padres, bispos, freis, freiras e grupos do laicato, que patinam nos rituais passadistas. Alguns dos “arautos da internet e da televisão”. Mas, o que importa mesmo é que a Igreja siga o seu caminho, sob a liderança do Papa Leão XIV e com a iluminação do Santo Espírito.