ARACAJU/SE, 10 de fevereiro de 2026 , 16:15:14

“O horror, o horror”

Evânio Moura

 

Com esta frase o escritor Joseph Conrad termina sua obra-prima “O coração das trevas”. Cuida-se de livro escrito em 1899 e que retrata a exploração colonial do Congo pela Bélgica a época governada pelo Rei Leopoldo II, neste que é apontando como um dos episódios mais brutais e infames do colonialismo europeu na África. Disfarçado de uma missão civilizatória e filantrópica, em verdade se tratava de extrativismo mineral, exploração de marfim e de todas as riquezas existentes no território do país africano que rapidamente foi transformado em propriedade pessoal do monarca, sendo saqueado e seu povo escravizado, torturado e dizimado, resultando na morte de milhões de pessoas.

O capitão Kurtz, personagem central do livro, após descrever sua travessia do rio Congo e ser exposto à carnificina que o transformaria em um tirano, perde completamente o controle de suas condutas, ficando louco antes de concluir sua jornada. A barbárie e a violência que impingiu em pessoas inocentes, são resumidas na frase final da narrativa, afirmando que aquilo que viveu, concordou e praticou era “o horror, o horror”.

Essa é a última reflexão do capitão Kurtz sobre a verdade que ele descobriu, após pensar e analisar sobre a brutalidade da colonização, a perda de sua própria humanidade e a escuridão que habitam no coração do homem que por ganância, sadismo e crueldade é capaz dos atos mais sórdidos, completamente desapartado dos princípios civilizatórios mais básicos e essenciais.

A obra ganhou mais reconhecimento quando foi adaptada para o cinema no clássico filme de Francis Ford Copolla “Apocalypse Now”, ambientado na guerra do Vietnã, denunciando o que a maldade pode fazer no homem, ao ponto de desumanizá-lo completamente.

Eis que no início deste mês, de forma surpreendente e estarrecedora foi divulgado para o mundo que a Promotoria de Milão na Itália investiga denúncias de que turistas italianos, americanos e russos pagaram verdadeiras fortunas para participarem de um “Safari Humano” durante a guerra da Bósnia, atirando em civis desarmados e desesperados que arriscavam suas vidas em uma zona de guerra em busca de água, remédios e comida, durante o cerco realizado na cidade de Sarajevo.

Segundo investigações iniciadas após a denúncia formulada pelo jornalista e romancista Ezio Gavazzeni, existia uma “caçada humana” praticada por pessoas muito ricas que cultivavam paixão por armas e pagavam vultosas quantias (chegando até 100 mil Euros) para poderem ser levadas à zona de conflito e matarem civis indefesos, sendo que havia uma taxa extra se as vítimas fossem crianças.

Ainda de acordo com as assombrosas investigações iniciais, esses “turistas da morte” saiam da cidade de Trieste na Itália na sexta-feira, voando até a Bósnia-Herzegovina e de lá, iam de carro ou helicóptero até as colinas ao redor de Sarajevo, para participarem dessa caçada de seres humanos, atuando como franco-atiradores.

Após o macabro final de semana praticando safari humano, voltavam para suas casas e atividades na segunda-feira, como se nada tivesse ocorrido.

É absolutamente espantoso saber que isso aconteceu entre os anos de 1993-1995, durante a famigerada guerra da Bósnia. Inacreditável que no país que foi o berço do Renascimento, pátria que deu ao mundo gênios de todas as artes e ciências, como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Giordano Bruno, Nicolau Maquievel, Galileu Galilei, Rafael Sanzio, Tintoretto, dentre outros, responsável pela redefinição do conceito de humanismo, ainda tenha entre seus habitantes pessoas que acham normal pagarem para serem caçadores de criaturas indefesas.

A acusação é de homicídio triplamente qualificado e conta com os depoimentos de Jovica Stanišić, chefe da agência de inteligência da ex-Iugoslávia (atual Sérvia) que foi condenado pelo Tribunal Penal Internacional situado em Haia, à pena de prisão perpétua, considerado culpado pela autoria de crimes contra a humanidade e de testemunhas que foram preservadas pelos promotores.

As investigações inicialmente apontam para a identificação de alguns cidadãos italianos cuja identidade ainda está sendo mantida em sigilo e segundo reportagem do Jornal La Repubblica, o perfil dos atiradores não mudava muito: eram políticos ou simpatizantes da extrema-direita, fanáticos por armas, gostavam de atirar – tanto em estandes de tiros ou em viagens de caça – e procuravam por uma diversão com uma espécie de adrenalina mórbida, passando a “caçar seres humanos” ao invés de animais.

Cuida-se de safari humano que aconteceu reiteradas vezes há pouco mais de 30 anos, evidenciando como a perversidade do homem é ilimitada e como a barbárie e a desumanidade ainda estão tão próximas da gente. A loucura, cobiça, ira e maldade do homem não possuí limites, sendo capaz de praticar as maiores atrocidades sem qualquer remorso ou piedade.

O que aconteceu no Terceiro Reich na Alemanha nazista (1933-1945) governada por Adolf Hitler, com a criação de campos de concentração e locais de extermínio de mais de 6 milhões de judeus, contando com apoio maciço da população e de uma burocracia estatal, responsável pelo surgimento do conceito de banalidade do mal, cunhado pela filósofa Hannah Arendt, está mais próximo da gente do que imaginamos.

Não por outro motivo ainda existem partidos de extrema-direita pelo mundo com clara inspiração nazista, pregando um discurso que almeja implantar um regime político totalitário, expansionista, xenófobo e claramente contrário às conquistas dos direitos humanos.

Também não é por acaso que subsistem inúmeras células neonazistas espalhadas pelo mundo, responsáveis por disseminar discurso de ódio contra negros, homossexuais, estrangeiros, dentre outras minorias.

Em pleno século XXI existem pessoas endinheiradas que residem em países ditos civilizados que consideram normal participarem de um grupo que corrompe milícias e mercenários para adentrarem em um local em guerra, sitiado e trucidado, com o propósito de caçar crianças, idosos e mulheres. Matar seres humanos indefesos pelo simples prazer sádico e celerado de praticar tiro ao alvo.

Cuidam-se de facínoras que devem ser investigados, presos, processados, julgados e condenados, servindo de exemplo para o mundo de que a estupidez humana deve ter limites.

Acaso o capitão Kurtz estivesse entre nós, no final do ano de 2025 e assistisse a entrevista coletiva dos promotores de Milão narrando os detalhes dessa investigação, desligaria a TV ou o computador e de forma inconsolável repetiria que a humanidade fracassou e que vivemos “o horror, o horror”.