ARACAJU/SE, 14 de março de 2026 , 17:25:55

Os arroubos do jovem Promotor de Justiça

 

Concluídos os estudos jurídicos, o jovem bacharel preparou-se para o concurso. Almejava, como um dos irmãos, ingressar no Ministério Público estadual. Trocou as noites de agitação pela preparação como ‘concurseiro’. Valeu a pena. Ei-lo aprovado. Foi nomeado para uma cidade interiorana, marcada pelas brigas políticas. Independentemente disso, era uma cidade de certa posição no cenário das municipalidades. À frente, muito trabalho a fazer. Obstinado, o jovem Promotor não se fez de rogado. Processos e mais processos, para emitir pareceres, oferecer denúncias, tomar providências que lhe cabiam.

Eis que veio o recadastramento eleitoral. Na Zona Eleitoral havia denúncias de que muitas pessoas estranhas àquela circunscrição votavam ali. Vício antigo. Distorção que campeava pelo país afora. Enfim, uma enxurrada de títulos eleitorais cancelados. Os chefes políticos bufavam, maldizendo a Justiça Eleitoral e, em particular, o jovem Promotor. Eleitores perdidos em todos os lados. As discussões nas praças, nos bares e em todos os lugares, eram para saber qual Partido perdeu mais eleitores. “Eu sabia que Antunes Rios tinha mais gente de fora votando aqui”. Outro rebatia: “Que nada! O povo de Rosarinho tinha uma carrada de eleitores das redondezas e até da capital. Era um magote”.

As conversas prolongavam-se. Tinha vereadores com as mãos na cabeça, pois deviam suas eleições aos eleitores fabricados. Um deles, Manezinho de Sá Vitória, chegou a passar mal. O coração deu lá nele umas batidas em descompasso. Salvou-se, todavia.

Satisfeito com o resultado da peneira, o jovem Promotor não sabia o que lhe haveria de acontecer. Empolgado, dizia, em alto e bom som, aos colegas, que a limpeza foi grande. Uma vitória da lei e da justiça. Pois bem.

Na fase final da limpeza eleitoral, um problema. Problemão. No passado, um irmão do Promotor trabalhou naquela cidade, como servidor público estadual, onde fez grandes amizades. Há anos, estava servindo na capital, mas manteve o seu domicílio eleitoral naquela cidade, sob o pretexto de rever os amigos, ao menos nos dias das eleições, a cada dois anos.

Cadastro eleitoral na mão, o Promotor ligou para o irmão engenheiro. “Bom dia, Mundinho. Cara, estou com um problema do tamanho do mundo, para resolver”. O irmão: “Bom dia, doutor. Diga lá, em que eu posso lhe ajudar”. O Promotor: “Meu irmão, você é o problema. No recadastramento eleitoral, o seu nome está aqui, para ser excluído. Você não trabalha mais por aqui, perdeu o domicílio eleitoral. Vou pedir o cancelamento do seu título. Você sabe como eu sou, e a justiça para ser boa começa de casa. Não foi isso que o nosso pai ensinou”?

O irmão engenheiro fez uma pausa. A seguir, disparou uma estrepitosa gargalhada e disse: “Meu irmãozinho, como é que você sabe que eu não tenho domicílio eleitoral aí? Tenho, sim. De quem é a casa vermelha, onde funciona o cabaré de Donana Perninha, no beco do Lá Vai Dois? Hein? Você não sabia disso, sabia? Pois então, é minha. Eu comprei há mais de 20 anos, logo quando cheguei aí para trabalhar na Residência. Está alugada até hoje, porque, naquele tempo, a coitada não tinha para onde ir com as meninas. Comprei a casa e aluguei. E olhe, o aluguel cai em minha conta, todo dia primeiro do mês, certinho, sem atrasos”.

O jovem Promotor não esperava por aquela. Se era proprietário de um imóvel, o irmão tinha, sim, como justificar o domicílio eleitoral. O irmão Edmundo era danado, cheio de peripécias. Estava salvo. Ainda bem. Não precisaria ficar com a consciência pesada. Lei era lei.

No dia seguinte, o jovem Promotor, ao sair do Fórum, no fim da tarde, fez questão de passar pelo beco do Lá Vai Dois. A casa, pintada de vermelho açafrão, estava, ao menos na fachada, em boas condições. Baixou o vidro da porta do carro. Duas moças, na porta da casa, acenaram para ele.

Na verdade, a casa nunca pertenceu ao irmão.