Em 2025, o mundo despertou para uma nova lógica nas relações comerciais internacionais: a de políticas baseadas no passado.
Depois de o Brasil enfrentar uma tarifa de 50% aplicada de forma ampla sobre seus produtos, sem considerar histórico ou relevância estratégica, agora é a vez da China adotar sua própria medida de proteção — mas com um desenho diferente.
A China aplicará uma tarifa de 55% sobre as importações de carne bovina que ultrapassarem cotas definidas com base no histórico de exportações. A diferença é que, no caso chinês, houve um estudo estruturado que respeita o passado comercial, criando regras que reconhecem a importância dos parceiros.
E, nesse cálculo, o Brasil virou referência. Pequim usa como parâmetro o volume exportado pelo país em 2024 — cerca de 1,3 milhão de toneladas, segundo a Abiec — e estabelece uma cota de aproximadamente 1,1 milhão de toneladas livres da tarifa.
Esse modelo é considerado menos agressivo para o Brasil quando comparado à tarifa de 50% sofrida em 2025, aplicada de forma ampla e sem considerar histórico ou peso estratégico de cada país. No caso chinês, a medida até penaliza o crescimento futuro, mas, ao mesmo tempo, reconhece a liderança passada do Brasil e sua relevância no abastecimento do mercado asiático.
Nos últimos anos, o Brasil consolidou-se como o maior fornecedor de carne bovina à China, respondendo por uma fatia expressiva das importações do país asiático. Foi exatamente essa relevância que garantiu ao Brasil a maior cota entre todos os exportadores, enquanto Argentina, Uruguai, Austrália e Estados Unidos ficaram com volumes menores, proporcionais ao seu desempenho histórico.
Ou seja, a política chinesa não mira especificamente o Brasil — ela reconhece a sua importância. Mas, ao mesmo tempo, limita o ritmo de crescimento das exportações brasileiras.
Dados da Abiec mostram que o modelo brasileiro de produção de carne é majoritariamente voltado ao mercado interno: cerca de 70% de toda a carne bovina produzida no Brasil fica no país, enquanto aproximadamente 30% é exportada.
Isso ajuda a entender o ponto-chave deste debate: a China importa muito do Brasil — mas o Brasil depende ainda mais do seu próprio mercado. Embora a tarifa chinesa represente um freio parcial às exportações acima da cota, o grande desafio da pecuária brasileira hoje é interno.
O agronegócio — que inclui produção agropecuária, agroindústria, serviços e logística — respondeu por cerca de 23,2% do PIB brasileiro em 2024, com valor agregado próximo de R$ 2,7 trilhões, segundo cálculos do Cepea/CNA.
Apesar desse peso monumental na economia, o setor enfrenta inadimplência crescente, que ultrapassou 8% entre produtores rurais em 2025, segundo a Serasa Experian, além de um ambiente de crédito mais restrito e caro, com bancos reportando recordes de calotes no agronegócio, conforme a Reuters.
Ao mesmo tempo, os pecuaristas lidam com custos logísticos elevados, reflexo de uma infraestrutura ainda limitada e altamente dependente do transporte rodoviário, como mostram estudos do Insper Agro Global. Somam-se a isso impactos climáticos recorrentes, como secas e eventos extremos que elevam despesas, reduzem produtividade e pressionam margens. Assim, antes mesmo das novas regras chinesas, a pecuária brasileira já convivia em um cenário de pressão financeira estrutural dentro do próprio país.
A tarifa chinesa terá impacto, sim, mas ela chega a um setor que já estava sob estresse. A combinação de crédito mais difícil, inadimplência crescente, logística cara e clima adverso mostra que o principal campo de batalha da pecuária brasileira não está na Ásia — está no Brasil.
A decisão da China não representa uma ruptura, mas uma reorganização baseada no passado. O Brasil ganhou a maior cota porque foi — e continua sendo — um fornecedor central. Porém, o futuro da pecuária brasileira não pode depender apenas da manutenção dessa posição histórica.
O caminho agora passa por reorganizar toda a cadeia de produção, fortalecendo eficiência, competitividade e capacidade de reagir a cenários adversos. Isso exige ação coordenada entre setor privado e governo: o governo brasileiro precisará criar soluções concretas para enfrentar dois dos maiores gargalos atuais — o crédito caro, que sufoca produtores e trava investimentos, e o custo logístico elevado, que corrói margens e reduz competitividade.
Ao mesmo tempo, será fundamental diversificar mercados e construir novas parcerias internacionais. A Austrália é um exemplo dessa estratégia. Em 2024, o país exportou cerca de 1,34 milhão de toneladas de carne bovina para o mundo, ampliando presença global e demonstrando a força de uma política comercial ativa e diversificada.
Mesmo após enfrentar restrições no passado, conseguiu recuperar espaço e voltar a crescer no mercado chinês, participando hoje de aproximadamente 8% das importações chinesas de carne bovina, além de fortalecer vendas para outros destinos.
Para o Brasil, isso significa que o setor privado terá papel decisivo: empresários e lideranças do agronegócio precisarão viajar, negociar, abrir portas, visitar outros países e estabelecer novas pontes comerciais, reduzindo a dependência de um único comprador e criando fluxos alternativos de receita.
Se o Brasil souber transformar este momento em oportunidade — reorganizando sua cadeia interna, garantindo melhores condições financeiras e logísticas e ampliando sua rede externa de parceiros — a liderança construída ao longo dos últimos anos poderá se consolidar como uma vantagem estratégica sustentável para o futuro.
Fonte: CNN Brasil





