O Censo da População em Situação de Rua de Aracaju identificou 623 pessoas vivendo nas ruas da capital sergipana, revelando um déficit significativo em relação à capacidade de acolhimento existente, que varia entre 120 e 150 vagas em abrigos municipais e estaduais. O levantamento inédito, agora detalhado no relatório final, foi coordenado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde e movimentos sociais, consolidando dados e metodologia de forma pioneira no país.
O estudo, realizado desde 2023 por meio de projeto de extensão da UFS, envolveu diretamente a população em situação de rua na definição de locais de abordagem e no processo de coleta, realizado entre 22h e 3h da manhã. “A metodologia participativa começou com o envolvimento direto da população em situação de rua, por meio dos seus movimentos sociais… A definição dos locais de abordagem contou com a orientação direta dessas pessoas, que conhecem a dinâmica da cidade”, explica o psicólogo Helmir Oliveira, do Departamento de Educação em Saúde do campus de Lagarto.
A abordagem valorizou a escuta das próprias pessoas recenseadas. Perguntas abertas sobre sonhos e perspectivas revelaram desejos de moradia, trabalho e capacitação, desconstruindo estigmas sobre a população em situação de rua. “Há um desejo explícito de mudança de condição, de acesso à moradia e ao mercado de trabalho. O censo oferece ao poder público um diagnóstico fundamentado na escuta direta dessa população”, acrescenta Helmir.
Para o professor Bruno Gama, do Departamento de Psicologia da UFS, a participação da Universidade foi essencial para integrar diferentes áreas do conhecimento e fortalecer a dimensão social do projeto. “Embora o censo tenha natureza de pesquisa, a opção pelo registro como extensão evidencia o caráter socialmente comprometido da iniciativa… Atuamos desde o planejamento até a sistematização e divulgação dos dados, consolidando uma experiência formativa para estudantes e professores e, ao mesmo tempo, socialmente transformadora”.
O levantamento orienta a formulação de políticas públicas mais alinhadas às necessidades reais da população em situação de rua, apontando a urgência de ampliar a rede de acolhimento e serviços sociais na capital. Segundo o professor Antônio Carlos Campos, do Departamento de Geografia da UFS, “a atuação da UFS reflete o papel socialmente engajado da universidade pública… Ao chancelar esse trabalho, a UFS assume uma bandeira fundamental na construção do debate e na formulação de políticas públicas municipais e estaduais”.
*Com informações Ascom UFS





