Uma abordagem de rotina da Polícia Rodoviária Federal, em maio de 2023, foi o ponto de partida para desvendar um esquema bilionário de adulteração de combustíveis que culminou na operação que, nesta quinta-feira, atingiu gestoras, fundos e fintechs usadas para lavar dinheiro do PCC. A apreensão de um único caminhão carregado com metanol, produto químico importado e de uso restrito, revelou uma rota de desvio que abastecia postos na Grande São Paulo, dando origem à megaoperação Carbono Oculto.
Como começou o esquema criminoso descoberto pela PRF?
Tudo começou em 14 de maio de 2023: em uma fiscalização, agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) pararam um semirreboque, conduzido por Renan Diego Inocência da Silva. A carga de metanol, elemento muito usado no setor químico, especialmente em usinas de biodiesel. A suspeita inicial dos agentes se confirmaria como a ponta de um iceberg de um esquema criminoso robusto.
O carregamento encontrado com Renan Diego estava vinculado a um esquema recorrente de desvio para adulteração de combustíveis vendidos em postos de gasolina. A operação criminosa se apoiava em documentos fiscais falsos e rotas desviadas para abastecer postos da Grande São Paulo.
As investigações, aprofundadas a partir de um inquérito policial, ganharam força com a análise de dados extraídos de celulares apreendidos em uma operação anterior, batizada de “Boyle”. As informações contidas nos aparelhos confirmaram a atuação da quadrilha especializada no desvio de metanol para adulterar combustíveis.
Como funcionava o desvio de combustível para postos na Grande SP?
A prova material veio na forma de centenas de “tickets de pesagem” emitidos pela empresa Cattalini, que indicavam carregamentos no Paraná. Embora as notas fiscais destinassem o produto a empresas químicas, os veículos eram desviados para postos de gasolina na Grande São Paulo.
O esquema não apenas fraudava o sistema fiscal, mas também colocava em risco os consumidores. A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estabelece um limite máximo de 0,5% de metanol na composição da gasolina. No entanto, em alguns dos núcleos investigados, como o apelidado de “Serginho”, o produto chegava a representar 50% do combustível vendido na bomba, uma adulteração em larga escala.
Em postos ligados ao grupo dos irmãos D’Amico, por exemplo, motoristas flagrados em conversas de celular admitiam rotas pela Régis Bittencourt até São Paulo, onde a descarga ocorria no Auto Posto Bixiga Ltda., em total desacordo com a documentação fiscal apresentada.
Como funcionavam as notas fiscais “quentes”?
Segundo estimativas da Polícia Federal, o esquema foi responsável pelo desvio de mais de 10 milhões de litros de metanol, contando com a participação e o apoio de distribuidoras para legalizar a fraude com notas fiscais “quentes”, que simulavam o transporte de álcool ou gasolina. Distribuidoras também aparecem nas investigações como responsáveis por emitir a documentação que simulava legalidade às cargas.
Esse núcleo inicial do inquérito revelou não apenas a adulteração sistemática dos combustíveis, mas também as conexões financeiras que, mais tarde, levariam a Receita e o Ministério Público a identificar o papel de fundos de investimento e instituições financeiras na engrenagem do esquema. Foi a partir desse ponto que a apuração se expandiu, culminando na Operação Carbono Oculto.
Como a Faria Lima se envolveu com o PCC?
A Operação Carbono Oculto, que investiga a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em atividades da economia formal, especialmente o setor de combustíveis, atingiu nomes de peso da Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo.
A investigação apura como o Primeiro Comando da Capital (PCC) se infiltrou na economia formal, em especial no setor de combustíveis, utilizando gestoras e fintechs para lavar dinheiro. Dos 350 alvos da operação, 42 estão concentrados na Faria Lima.
Segundo a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo (MPSP), tratava-se de um esquema complexo com várias frentes, que começava nas usinas sucroalcooleiras e na formulação de gasolina e diesel, e seguia com um esquema de ocultação de dinheiro por meio de fintechs e fundos de investimento.
De acordo com as investigações, entre 2020 e 2024, empresas formuladoras de combustível ligadas ao PCC importaram R$ 10 bilhões em nafta, hidrocarbonetos e diesel, usando dinheiro ilegal da facção. Essas empresas sonegavam impostos — que totalizaram R$ 8,67 bilhões — e também adulteravam combustíveis distribuídos nos postos.
Além do setor de combustíveis, outros setores da economia formal são utilizados pelo crime organizado para lavagem de dinheiro. Entre eles, estão o mercado imobiliário, transporte público, mineração, cigarros, comércio de bebidas, e o próprio setor financeiro. Estas atividades ajudam a esconder produtos de atividades criminosas e diversificar os negócios das organizações criminosas, criando uma aparência de legalidade para a sua atuação.
Fonte: O Globo