ARACAJU/SE, 30 de janeiro de 2026 , 16:26:15

Esclerose múltipla afeta cerca de 40 mil pessoas no Brasil e diagnóstico precoce ajuda a preservar a qualidade de vida

 

Dormências persistentes, sensação de choques nos membros, cansaço extremo mesmo após atividades leves e episódios de visão turva costumam ser associados ao estresse, à postura inadequada ou ao ritmo acelerado do dia a dia. Em muitos casos, esses sintomas surgem de forma intermitente, melhoram espontaneamente e acabam sendo minimizados. No entanto, quando persistem ou aparecem de maneira súbita, podem indicar alterações relevantes no sistema nervoso central e exigem avaliação médica imediata.

Esses sinais iniciais estão entre as manifestações mais comuns da esclerose múltipla, uma doença neurológica crônica de origem autoimune que atinge principalmente adultos jovens. No Brasil, estima-se que mais de 40 mil pessoas convivam com a condição, segundo dados da Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem). Embora ainda cercada por mitos e desinformação, atualmente a doença dispõe de tratamentos capazes de reduzir surtos, preservar funções neurológicas e permitir que os pacientes mantenham uma rotina ativa.

Uma doença autoimune

De acordo com o neurologista Helton Benevides, professor da Universidade Tiradentes (Unit), o fator tempo é determinante: quanto mais cedo a esclerose múltipla é reconhecida e tratada, maiores são as chances de controlar sua progressão e evitar sequelas permanentes. Nesse contexto, o diagnóstico precoce se consolida como um dos principais aliados da qualidade de vida.

“A esclerose múltipla ocorre quando o sistema imunológico passa a atacar a mielina, uma espécie de ‘revestimento protetor’ dos nervos do sistema nervoso central. Essa estrutura é essencial para a transmissão rápida e eficiente dos impulsos nervosos entre o cérebro, a medula espinhal e o restante do corpo. Quando a mielina é danificada, a comunicação entre essas áreas fica comprometida, gerando sintomas neurológicos variados. Esse processo dificulta a passagem das informações, fazendo com que o cérebro não consiga se comunicar adequadamente com determinadas regiões do corpo”, explica.

Dependendo da região atingida, o paciente pode apresentar alterações motoras, sensitivas, visuais ou de equilíbrio. As lesões não surgem de forma uniforme, o que explica a grande variabilidade de manifestações entre os pacientes. Ainda assim, há padrões clínicos que auxiliam na suspeita diagnóstica e orientam a investigação médica.

Sintomas iniciais

Entre os primeiros sinais da esclerose múltipla, muitos passam despercebidos justamente por parecerem comuns. Helton Benevides destaca o formigamento persistente e a sensação de choque ou queimação em braços, pernas, tronco ou face, frequentemente atribuídos à má circulação ou à postura inadequada. “Esses sintomas sensoriais merecem atenção quando não desaparecem rapidamente”, alerta.

Outras manifestações iniciais incluem fraqueza súbita em um dos lados do corpo ou nas pernas, quadro que pode lembrar um acidente vascular cerebral, além de alterações visuais, como visão embaçada, dor ao movimentar os olhos ou visão dupla. “A fadiga intensa e desproporcional ao esforço também é frequente, assim como a instabilidade ao caminhar, muitas vezes descrita apenas como tontura. A melhora espontânea de alguns sintomas contribui para o atraso na busca por atendimento especializado”, explica.

O diagnóstico precoce muda o curso da esclerose múltipla

Segundo Helton Benevides, o avanço terapêutico dos últimos anos trouxe medicamentos altamente eficazes capazes de modificar a evolução da doença. “Quanto mais cedo essas terapias são iniciadas, menor a probabilidade de surtos recorrentes e de perda neurológica permanente. Isso significa reduzir o acúmulo de lesões no sistema nervoso e preservar a reserva neurológica, responsável por manter funções motoras, cognitivas e sensoriais ao longo do tempo. O tratamento precoce está diretamente associado a menos sequelas e maior autonomia no futuro”, reforça.

No Brasil, o perfil mais frequente envolve adultos entre 20 e 40 anos, com predominância feminina, cerca de três mulheres para cada homem. “Apesar dessa tendência, a população brasileira é altamente miscigenada, o que gera grande diversidade nos casos diagnosticados”, observa o especialista.

Exames e diagnóstico

O diagnóstico da esclerose múltipla segue critérios internacionais bem estabelecidos e periodicamente atualizados, sendo a revisão mais recente publicada em 2024. Após uma anamnese detalhada e um exame neurológico criterioso, alguns exames são essenciais para confirmar a condição e excluir diagnósticos diferenciais.

“A ressonância magnética do cérebro e da medula espinhal é um dos principais exames, pois permite identificar lesões características da esclerose múltipla em diferentes regiões do sistema nervoso central. Em determinadas situações, a ressonância das órbitas também é indicada para avaliar o nervo óptico”, explica.

Outro exame relevante é a punção lombar, utilizada para detectar sinais de inflamação no sistema nervoso central e identificar marcadores específicos, como bandas oligoclonais e a cadeia kappa leve livre. Esses achados ajudam a confirmar o diagnóstico e a diferenciar a esclerose múltipla de outras doenças neurológicas. “Condições como neuromielite óptica, MOGAD, vasculites, deficiências graves de vitamina B12 e zinco, além de infecções e doenças reumatológicas, podem apresentar sintomas semelhantes, o que reforça a necessidade de investigação especializada”, alerta.

Tratamento, avanços e impacto na qualidade de vida

Embora ainda não exista cura definitiva, a esclerose múltipla é considerada uma doença tratável. O objetivo do tratamento é controlar a inflamação, reduzir surtos e retardar a progressão da condição. Em fases iniciais ou durante surtos agudos, a corticoterapia intravenosa costuma ser utilizada para alívio rápido dos sintomas, preparando o paciente para a terapia modificadora da doença.

“Nas últimas duas décadas, os avanços foram expressivos. Atualmente, mais de 15 medicamentos modificadores da doença estão aprovados no Brasil, incluindo opções orais e terapias intravenosas de alta eficácia, administradas mensal ou semestralmente. Essas medicações transformaram o prognóstico dos pacientes, permitindo maior controle da atividade inflamatória”, explica o neurologista.

Além do tratamento medicamentoso, o acompanhamento multiprofissional é fundamental. Atividades físicas, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, nutrição e apoio psicológico contribuem para manter a funcionalidade, o desempenho profissional e a vida social. “Quando esse cuidado é iniciado precocemente, as chances de independência a longo prazo aumentam de forma significativa”, afirma.

Apesar dos avanços, ainda persistem estigmas em torno da doença. A confusão com a esclerose lateral amiotrófica (ELA) e a ideia de que todos os pacientes evoluirão para o uso de cadeira de rodas não refletem a realidade atual. Para Helton Benevides, a disseminação de informação qualificada é essencial para evitar que sinais sejam ignorados. “Qualquer pessoa com sintomas neurológicos persistentes ou de início súbito deve procurar atendimento médico imediatamente. Não adiar essa decisão pode fazer toda a diferença”, conclui.

Fonte: Asscom Unit

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