ARACAJU/SE, 2 de fevereiro de 2026 , 12:16:13

Mercado Antônio Franco completa um século reunindo comércio, memória e gerações

 

Às vésperas de completar 100 anos, o mais antigo mercado municipal de Aracaju segue como um espaço que concentra não apenas comércio, mas também histórias de vida que ajudam a preservar a memória da capital sergipana. O Mercado Antônio Franco reúne famílias e trajetórias que atravessam gerações, resistindo às transformações urbanas e ao passar do tempo.

Inaugurado em 8 de fevereiro de 1926, o mercado foi implantado como parte do processo de modernização urbana da cidade, com o objetivo de centralizar a venda de gêneros alimentícios e fortalecer a economia local. À época, a iniciativa representou um avanço na organização do comércio e nas condições de trabalho dos comerciantes, além de melhorar o abastecimento da população. Desde então, o espaço se consolidou como um ponto de encontro entre histórias individuais e coletivas.

Ao longo das décadas, o Mercado Antônio Franco deixou de ser apenas um centro comercial para se firmar como um território de memórias, afetos e trabalho transmitidos entre gerações. Nos corredores do mercado, histórias familiares se confundem com a própria história de Aracaju, marcadas por reformas, mudanças urbanas e transformações sociais.

Entre os comerciantes mais antigos está Edilza Soares, que atua no mercado há 60 anos. Ao longo desse período, ela acompanhou as mudanças estruturais do espaço, os períodos de dificuldade e as reformas realizadas. Atualmente, é responsável por um box de artigos religiosos. “O mercado representa tudo para mim. Foi aqui que eu criei meus filhos e hoje ainda ajudo a criar meus netos e bisnetos”.

Edilza também relembra episódios marcantes, como um forte vendaval ocorrido há mais de 45 anos, que danificou parte da estrutura do prédio. “O vento levou as telhas, o prédio ficou danificado. Foi uma coisa muito forte, que marcou todo mundo”. Apesar das dificuldades, ela mantém uma relação de gratidão com o local. “Eu só tenho a agradecer a Deus por ter vivido e trabalhado aqui todos esses anos”.

A ligação com o mercado seguiu para a geração seguinte. A filha de Edilza, Silvaneide Soares, conhecida como “galega das ervas”, atua há 34 anos no comércio. Ela iniciou a trajetória no Antônio Franco, dando continuidade ao ofício aprendido com a mãe, e atualmente está estabelecida no Mercado Thales Ferraz. “Eu cheguei a trabalhar no comércio fora do mercado por uns dois anos, mas não gostei. Foi quando comecei a ajudar minha mãe na loja de ervas aqui no mercado”.

Segundo Silvaneide, a permanência foi consequência natural do envolvimento com o trabalho. “Depois de ver meu interesse pelo mercado, ela comprou um ponto para mim. Eu gostei, fiquei com ele e depois minha mãe foi trazendo minhas outras irmãs”. Hoje, a presença feminina da família é predominante. “Somos cinco mulheres aqui: uma no artesanato e quatro ao meu lado trabalhando com ervas”.

O aprendizado, segundo ela, veio da prática cotidiana. “A maior faculdade foi a vida. A gente aprendeu trabalhando, com o ensinamento da nossa mãe”. O box atende a demandas relacionadas à fé, à cultura popular e ao bem-estar. “As pessoas chegam pedindo ajuda para banho de descarrego, incenso para limpar a casa, imagens de santos ou de orixás, como Iemanjá e Oxum”. Em períodos específicos do ano, a procura aumenta. “Quando chega perto do São João e São Pedro, a venda cresce porque isso representa muito o Nordeste”.

A tradição familiar também está presente na trajetória das irmãs Valéria dos Santos Lima e Vanessa Lima, filhas de comerciantes que cresceram no ambiente do mercado. Valéria atua há 23 anos no local e administra o “Restaurante da Valéria”, dando continuidade ao negócio iniciado pelos pais. “Tenho muita honra e dignidade de continuar o legado deles”. Para ela, o reconhecimento do público é um dos principais retornos do trabalho. “Eles elogiam a comida, o tempero, o atendimento. Isso cria uma relação que atravessa o tempo”.

Já Vanessa é proprietária do “Aju Bar e Restaurante” e acompanha as transformações do espaço ao longo dos anos. “Esse era o antigo mercado da farinha”. Ela destaca as melhorias estruturais e organizacionais. “Antes era tudo misturado. Hoje o mercado está dividido, organizado, e isso ajudou muito, principalmente para atrair clientes”.

No cardápio, a culinária nordestina é o principal atrativo. “O turista vem atrás do carneiro, do sarapatel, do caranguejo. É a culinária que representa o Nordeste”. Para o futuro, ela defende maior valorização do espaço. “Aqui é o coração da nossa cidade. É importante que haja cada vez mais valorização porque assim também valorizaremos nossa cultura”.

A cultura popular também se mantém viva no box de Joelson de Souza Cabral, que há quase 20 anos comercializa literatura de cordel. Ele deu continuidade ao trabalho iniciado pelo pai, João Firmino Cabral. “Meu pai começou aqui. Depois que ele faleceu, em 2013, continuei vendendo os cordéis dele. Me sinto muito feliz em ajudar a deixar a memória dele viva.”

Os cordéis atraem principalmente turistas interessados em narrativas tradicionais do sertão nordestino. “O pessoal gosta muito dos temas do sertão, das histórias de Lampião, do cangaço, da música nordestina. São esses os temas dos cordéis que eles mais procuram”. Segundo Joelson, muitos visitantes já chegam ao local sabendo o que desejam. “Eles já vêm procurando esses temas, olham, escolhem e acabam levando”.

Outra trajetória que ilustra a relação entre o mercado e seus trabalhadores é a de Jouse Vieira. Há mais de 33 anos no Antônio Franco, ela chegou a Aracaju ainda jovem, vinda de Arapiraca (AL), e encontrou no mercado o espaço para construir sua carreira e sua vida. “O mercado me deu tudo o que eu tenho. Sou muito orgulhosa de dizer que trabalho aqui”.

O início foi simples, alugando uma cadeira em uma barbearia, até conquistar o próprio box. Nem mesmo o período de reforma entre 1997 e 2000, quando precisou se afastar temporariamente do local, rompeu o vínculo. “Foi um tempo difícil, mas eu sempre soube que ia voltar”.

A maternidade também fez parte dessa história. “Eu gerei meus filhos praticamente aqui. Um deles eu carreguei os nove meses dentro do mercado”. Hoje, Jouse acompanha as mudanças com sentimento de pertencimento. “Isso aqui é um paraíso”. Para ela, preservar o mercado é preservar histórias. “Esse lugar é parte da minha vida. O que eu sou, eu devo a ele.”

Ao completar quase um século de existência, o Mercado Antônio Franco se mantém como um símbolo que vai além da arquitetura e do turismo. É um espaço sustentado por famílias, ofícios transmitidos entre gerações e histórias de vida que se confundem com a própria história de Aracaju, mantendo viva a memória da cidade frente à passagem do tempo.

Fonte: AAN

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