ARACAJU/SE, 16 de março de 2026 , 0:56:24

Moradores denunciam vazamento e temem rompimento da barragem do Poxim

Da redação, Joângelo Custódio

Os moradores dos povoados Quissamã, Cardoso, Bita, Lavandeira, Tabua, Rosa Luxemburgo e São Luiz, em São Cristóvão, estão apavorados com um possível rompimento da barragem Sindicalista Jaime Umbelino Souza, conhecida popularmente como barragem do Rio Poxim, a maior represa gerida pela Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso). Inaugurada em maio de 2013, a estrutura armazena mais de 32 milhões de metros cúbicos de água, tem 15 metros de altura e se estende por 5 mil m², além de ter uma área de 5,2 km².

De acordo com os moradores, há surgimento de vazamento de água em diversos pontos adjacentes à barragem, inclusive, formação de um rio que estava morto e que agora voltou a serpentear mata adentro.

O morador Elenildo Figueiredo | Foto: Divulgação

“A gente conhece esse problema com muita propriedade e as autoridades também sabem. Tivemos no local onde a água está brotando. Formou-se um riacho corrente, de forma contínua, que deságua próximo à BR-101, numa área de mato. Ali é uma prova viva disso de que está havendo vazamento da barragem. Em pleno verão, também há surgimento de água próximo a uma estrada que liga o povoado Cardoso ao Quissamã, e nunca aconteceu isso em outras ocasiões. Agora, tem até atoleiro. Atingiu também o povoado Bita. Muitas árvores nativas estão morrendo por causa do excesso de água no solo”, relata Elenildo Figueiredo, conselheiro tutelar do município de São Cristóvão.

Elenildo, que compõe uma comissão formada por integrantes dos povoados, disse que o governo do Estado tem ciência desse problema há mais de um ano. Ele conta que mostrou os vazamentos a Olivier Chagas, quando ele era ainda secretário da extinta Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos, hoje reduzida pelo Governo à mera superintendência, e a técnicos da Deso, mas nenhuma resposta foi passada até o momento.

“Embora não seja uma barragem de rejeito, ela preocupa porque se ela estourar, atingirá em cheio a BR-101 perto da fábrica Fruteb, e conjuntos Parque dos Faróis, Eduardo Gomes, Cajueiro e até Santa Lúcia, na capital. É muita água. As autoridades têm ciência do problema, eles sabem disso, mas eles dizem que não é vazamento da barragem. Quando uma tragédia acontecer, eles vão querer encontrar um culpado”, alerta Elenildo.

 Infiltração no IFS-SC

A reportagem do Correio de Sergipe foi até um dos locais denunciados pelos moradores e constatou o surgimento de água, situado dentro de uma área pertencente ao Instituto Federal de Sergipe, em São Cristóvão (IFS-SC), antiga Escola Agrotécnica.

O diretor do IFS-SC, Marco Meri

E o diretor da unidade de ensino, Marco Meri, relata que algumas estruturas do IFS estão comprometidas em virtude do encharcamento do solo. “Nós já sondamos a Defesa Civil, porque tem alguns prédios nossos que estão sofrendo fissuras por conta de infiltração. Tem um rio aqui na escola que antes da barragem estava morto, tanto é que nós chamávamos de ‘Rio Morto’, e depois da barragem o rio voltou a perenizar, está vivo em pleno verão e isso deve ser por conta da barragem. Possa ser que a barragem esteja com infiltração”, comenta.

Respostas

A reportagem do Correio de Sergipe procurou a Deso para dar explicações dos surgimentos de vários olhos d’água na região em volta da barragem. De acordo com o Coordenador de Segurança de Barragens e Revitalização de Mananciais, Luiz Carlos, não há motivos para alarde.

“A barragem está sobre uma estrutura de calcário. Existem algumas bolinas no entorno e dentro do lago, porém, isso é monitorado com geofísica, acompanhado por técnicos especializados. Nós temos monitoramentos diários da barragem e estamos com todos os números referentes a peso, nível, volume e vazão sob controle. A comunidade não tem esse conhecimento por não entender, de fato, como isso funciona. A barragem está segura, não há risco nenhum. Não precisa se preocupar”, assegura.

Luiz destaca ainda que os vazamentos no entorno são naturais. “Após o enchimento da barragem, acrescentou um volume de 32 milhões de toneladas sobre aquele espaço. É um peso grande e em alguns pontos, onde havia fissura, o peso da água foi abrindo, mas isso é natural num terreno como aquele, não há risco. O risco é de perda de volume, mas estrutural, nenhum. Vai alimentar é o lençol freático e alguns rios”.

O coordenador da Deso fez questão de lembrar que a barragem ainda não está sendo utilizada para abastecimento humano. “Ela é de regularização de vazão do rio Poxim e a Deso busca água no rio Poxim, que fica próximo à Universidade Federal. Daqui a seis meses, nós estaremos tirando água da barragem para abastecimento humano, quando a adutora for concluída”.

 Calcário

A explicação de Luiz Carlos sobre o solo de calcário é ratificada pelo geólogo João Carlos, da Superintendência de Recursos Hídricos. Ele frisa que o calcário é uma rocha sedimentar que contém minerais com quantidades acima de 30% de carbonato de cálcio e, com o tempo, a rocha apresenta pontos vazios, fazendo com que a água mine.

“Só para se ter uma ideia, o lago do Ibura, que abastece parte de Aracaju, ali tem uma vazão de 1000 metros cúbicos por hora de água e essa água é minada de uma rocha calcária. Então, quando se constrói uma barragem e ela aumenta o nível de água, começam a aparecer pontos de água”, afirma.

Lista negra

João Carlos diz ainda que a barragem do Poxim está na lista negra da Agência Nacional de Águas (ANA), isto é, das que mais preocupam o país. Mas isso tem uma explicação.

“A ANA fez um questionamento ao Governo para saber qual é a barragem que mais preocupa. E o estado disse que é a do Poxim, porque embaixo da barragem tem Aracaju e demais povoados circunvizinhos, ou seja, ela tem um dano em potencial elevado, isto é, se ela arrebentar, ela causaria dano muito grande. Isso não significa que ela está para arrebentar ou está com problema. É lógico que tem que se preocupar, é a maior barragem do Estado, a que está mais próxima de Aracaju”, conclui.

Barragens

Além do Poxim, as barragens administradas pelo governo são: Ribeira e Jacarecica I, em Itabaiana; Jacarecica II, situado entre os municípios de Malhador, Riachuelo e Areia Branca; Piauí, em Lagarto; e Jabiberi, em Tobias Barreto.

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