ARACAJU/SE, 10 de março de 2026 , 18:59:35

Obesidade no Brasil cresceu 118% entre 2006 e 2024

 

 

Dados recentes mostram que o Brasil enfrenta um crescimento expressivo dos índices de sobrepeso e obesidade. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025, aproximadamente 68% da população brasileira adulta está acima do peso, sendo que 31% vivem com obesidade (Índice de Massa Corporal ≥ 30) e 37% têm sobrepeso, proporções com tendência de crescimento nos próximos cinco anos.

 

Dados da pesquisa Vigitel 2025, do Ministério da Saúde, mostram que a obesidade no Brasil cresceu 118% entre 2006 e 2024, refletindo mudanças profundas nos hábitos alimentares, estilo de vida e fatores ambientais. Esses números estão alinhados às projeções globais de que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com obesidade no mundo, com tendência de atingir 1,5 bilhão até 2030.

 

A obesidade é considerada uma doença crônica e multifatorial, associada a fatores genéticos, metabólicos, comportamentais e ambientais. Além disso, pode ser o ponto de partida para outros problemas como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e até alguns tipos de câncer.

 

Diante deste cenário, neste ano, no Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março, o debate foi sobre tratamentos para perda de peso ganha ainda mais relevância. Nos últimos anos, medicamentos injetáveis conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, como Ozempic e Mounjaro, passaram a ocupar espaço central nas discussões sobre o controle da obesidade, tendo como atrativo a “promessa de emagrecimento rápido”.

 

O que são as canetas e como elas agem? 

As canetas emagrecedoras estão na categoria dos peptídeos e são análogos de hormônios produzidos pelo próprio organismo. Tanto o Ozempic, que tem a semaglutida como princípio ativo, quanto o Mounjaro, que é a tirzepatida, são análogos do GLP-1, que é um hormônio produzido pelas nossas células intestinais.

 

Explicando de forma simplificada, quando estamos nos alimentando e começamos a mastigar, o hormônio GLP-1 já começa a ser produzido e é ele o responsável por nos dar a saciedade. Só que este hormônio dura pouco tempo no nosso corpo, cerca de 5 minutos e logo depois baixa na corrente sanguínea e nos faz sentir fome novamente. Ou seja, ele atua neste circuito fome/saciedade.

 

Já as canetas emagrecedoras vão fazer a mesma função deste hormônio, porém com uma durabilidade muito maior, que pode ser de até 7 dias. Isso significa que a pessoa vai se sentir saciada por muito mais tempo.

 

“Imagina ir de algo que dura minutos, para algo que dura dias. É o que acontece com quem usa a caneta. Além de mexer neste centro da fome e da saciedade, ela também age em centros do cérebro, que acabam tendo uma enxurrada de dopamina quando são ligados à comida. Já que a comida também é um mecanismo dopaminérgico, pois comer é prazeroso!”, comenta Elaine Henzel, Nutricionista e Comunicadora Científica  da True.

 

A especialista esclarece que o fato destes “análogos” agirem tanto promovendo a saciedade por muito mais tempo, quanto atuando também reduzindo a vontade de busca pelo prazer por meio da comida, é extremamente positivo para quem enfrenta problemas neste sentido. A comida passa a não ser mais uma ameaça, o que é muito importante para muitas pessoas que têm problemas em relação ao peso.

 

“O ato de comer envolve muito mais coisas, é muito mais emoções e sentimentos que estão ligados àquele comportamento. Então os análogos de uma forma bem resumida agem tanto aumentando a saciedade e reduzindo a fome, quanto também diminuindo o desejo pela procura de comida. E é por isso que eles têm tanto sucesso.”, completa.

 

 Julgamento x Acompanhamento

Muito utilizadas nos tratamentos de obesidade, diabetes tipo 2 e síndromes metabólicas, a eficiência e a importância das canetas não podem ser negadas.

 

“Apesar de inicialmente serem desenvolvidas para o tratamento de diabetes tipo 2, em estudos “off label”, observou-se que elas atuavam com a redução de peso drasticamente, algo que pode, por exemplo, significar a retirada de uma pessoa para indicação de cirurgia bariátrica”. 

 

Mais do que julgar os motivos, ou até mesmo questionar quem opta pelas canetas por questões estéticas, mesmo que seja para perder poucos quilos, a nutricionista reforça que o principal papel dos profissionais de saúde é estarem prontos para acolher e orientar estes pacientes. Existem alguns casos que é preciso ficar em alerta: pessoas que têm problemas no pâncreas, alguma alteração hepática ou intestinal, ou ainda para quem faz o uso de hormônios, como anticoncepcional ou para a tireoide, com o risco inclusive de interferir em outros tratamentos. E por ser algo relativamente novo, efeitos e sintomas a longo prazo, ainda não são totalmente conhecidos.

 

Por agir de forma semelhante ao hormônio que o nosso corpo já produz, é uma categoria de medicamento considerada segura. Porém a procedência do medicamento é um fator determinante para garantir que realmente este seja um tratamento seguro. Além disso, uma pré-avaliação médica é que vai determinar a dosagem ideal e o tempo de tratamento. Da mesma forma é necessário um acompanhamento ao longo do processo, tanto para que o paciente possa lidar com possíveis sintomas, quanto consiga fazer a “manutenção” correta e não corra o risco de posteriormente, ao deixar de fazer o uso do remédio, tenha uma regressão ou até ganhe mais peso do que estava antes.

 

A nutricionista explica que a maioria dos obesos é desnutrida, na verdade são obesos porque comem uma alta quantidade de comidas calóricas e energéticas, porém baixa densidade nutricional. Por isso é importante fazer um acompanhamento pré-uso de medicamento, para saber como está o padrão nutricional dessa pessoa, já que elas tendem a ter muito mais carências nutricionais. E através desta deficiência, surgem vários outros sinais e sintomas: fraqueza, memória fica ruim, não conseguem ter uma boa cognição, a imunidade fica fraca, o paciente começa a ter vários problemas em consequência de uma má nutrição.

 

Outro ponto de atenção é o baixo consumo de proteína. Naturalmente se é um paciente que  já não consumia proteína direito, ao tomar a medicação e não sentir fome, a tendência é comer menos ainda e isso pode levá-lo a perder massa muscular, o metabolismo fica mais lento do que já era e corre-se o risco de terminar o tratamento pior do que quando começou. A proteína tem que estar dentro da dieta dessa pessoa, por isso a necessidade de um acompanhamento com o nutricionista, para fazer o cálculo bem direitinho.

 

“Não é simplesmente comer um pratão de frango e de carne, senão isso vai ficar ali parado, porque esse medicamento causa uma “paralisia”, uma lentidão do movimento do estômago e do intestino. A gente causa uma gastroparesia, o estômago fica cheio durante muito mais tempo e por isso inclusive às vezes pode-se ter azia, eructação fétida (arroto com cheiro), o intestino pode ficar mais preguiçoso, porque ele está se movimentando de forma muito lenta. Precisamos pensar em toda técnica dietética, em como eu vou ofertar essas proteínas e nestes casos os nutrientes em forma de suplementos vão ser ótimos para esses pacientes”, conclui a nutricionista da True.

Você pode querer ler também