ARACAJU/SE, 11 de março de 2026 , 13:32:38

Objetivos divergentes de EUA e Israel sobre o Irã devem dificultar fim da guerra no Oriente Médio

 

Horas após o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar na segunda-feira que a guerra contra o Irã “vai acabar em breve”, o governo israelense divulgou nesta terça-feira uma declaração do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, reafirmando a continuidade das ações militares contra Teerã. Em um momento em que as consequências do conflito aprofundam suas dimensões globais e os custos políticos se revelam para Washington e para as capitais do Oriente Médio, os aliados demonstram que a estreita coordenação no plano tático-militar não se repete com o mesmo nível de precisão no campo político — em que cada um parece ter um nível diferente de tolerância à permanência em estado de guerra e um cálculo estratégico para perseguir o que se mostrou uma lista de objetivos frouxa, fatores que podem dificultar o fim definitivo das ações.

— Nossa aspiração é que o povo iraniano se liberte do jugo da tirania. Em última análise, depende deles [povo iraniano]. Mas não há dúvida de que, com as medidas tomadas até agora, estamos quebrando os ossos deles [regime teocrático] e ainda não terminamos — disse Netanyahu durante uma visita ao Centro Nacional de Comando de Saúde na noite de segunda-feira, apesar da fala só ter sido divulgada nesta terça em um comunicado, após entrevistas ambíguas de Trump, em que evitou estimar a data, mas sugeriu que a campanha militar se encaminhava para o fim.

A divergência entre um flerte com a desescalada e o desejo pela continuidade aponta que, mesmo em um alinhamento que foi capaz de planejar e executar o letal ataque que resultou na morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, no primeiro dia de conflito, há limitação no campo material. Embora Israel e EUA sempre tenham demonstrado o interesse em transformar Teerã em um ator regional em sintonia com o Ocidente, e que tanto Trump quanto Netanyahu tenham justificado a ação, para além de razões de segurança, na libertação do povo iraniano de um regime opressivo, o preço que cada um se mostra disposto a pagar para atingir o objetivo final é diferente — sobretudo em um momento em que a estrutura da Revolução Islâmica demonstra capacidade de manter suas funções usuais e realizar a sucessão da liderança sob intenso fogo inimigo.

— Há menos divergências entre os objetivos finais almejados por EUA e Israel do que propriamente quanto aos possíveis impactos que outro resultado [que não uma mudança de posição do regime] teria nos respectivos países — afirmou o professor de Relações Internacionais Rodrigo Amaral, que leciona na PUC-SP. — Para Israel, o Irã representa uma inimizade terrena, em sua região. Os objetivos contemporâneos do Irã, de solidificar o seu Estado e garantir uma ordem hegemônica regional através de suas alianças diverge do objetivo israelense, que é fazer com que os Estados reconheçam sua existência e garantir sua segurança.

Pesos e custos

As opções para encerrar o conflito parecem mais viáveis para Trump do que para seus sócios em Israel. Autoridades americanas retiraram das declarações públicas, após o discurso do presidente no dia inicial da ofensiva, menções à queda do regime. Também passaram a listar objetivos militares que, em grande parte, podem ser alcançados por meio da campanha de bombardeios aéreos e navais, como a destruição da Marinha iraniana e das capacidades de mísseis, além do fim das supostas pretensões de Teerã de desenvolver uma bomba atômica.

Poder bélico como disfarce do improviso: Trump mantém objetivos movediços no Irã para criar miragem de vitória
Retirar-se cumprindo os objetivos militares também abafaria para Trump o que se tornou uma frente de pressão interna, uma vez que a maior parte da população americana se mostra contra o conflito — uma pesquisa Quinnipiac feita no fim de semana indicou que 53% dos eleitores registrados desaprovam a guerra — em ano de eleições parlamentares.

Em Israel, o cálculo é diferente. A ação contra o Irã conta com o apoio de 93% da população judia do Estado, segundo pesquisa recente do Instituto Democracia Israel. O apoio a Netanyahu também subiu com a ação contra o rival que culpou, em última instância, pelo ataque terrorista lançado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. O premier prometeu refundar os parâmetros de segurança do país após a falha que permitiu a morte de mais de 1,2 mil cidadãos.

Ao contrário do cenário para Trump nos EUA, o conflito por si só reforça a posição do primeiro-ministro antes das eleições parlamentares agendadas para outubro, segundo Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM, que aponta a vitória nas urnas como preocupação existencial para Netanyahu — réu em uma série de processos na Justiça e alvo de investigações policiais. A tendência para o líder israelense seria manter a ofensiva.

— Do ponto de vista de Netanyahu, essa guerra tem que continuar. E Israel pode continuar, se tiver o apoio de armamentos e financeiro dos EUA — avaliou o professor, projetando um cenário sem ataques diretos por parte de Washington. — As Forças Armadas do país podem continuar lutando sozinhas e teriam meios de continuar fazendo essa campanha aérea como mostrou a guerra dos 12 dias. Resta saber qual seria o interesse de Trump, considerando toda a pressão sobre o setor do petróleo e no Estreito de Ormuz.

Entre cálculos e bombardeios

A breve incongruência nos discursos oficiais não interrompeu as ações no campo de batalha nesta terça-feira. Os EUA lançaram o que o secretário de Defesa Pete Hegseth classificou como “dia mais intenso” de ataque contra alvos iranianos, enquanto Israel anunciou uma nova onda de bombardeios que teria, entre outros pontos de impacto, dizimado a infraestrutura das forças Basij na província de Ilam (sudoeste iraniano).

Ainda assim, diferenças foram marcadas. Em entrevista coletiva no Pentágono, Hegseth disse que o recente ataque israelense contra depósitos de combustível iranianos não era “necessariamente” um objetivo americano. Perguntado sobre o caso, que causou polêmica mesmo entre republicanos — que viram risco de prejuízo à imagem interna da ofensiva —, o secretário indicou que Israel “perseguiria” seus próprios “objetivos diferentes”. O secretário também voltou a rejeitar que os americanos estejam agindo por influência israelense e se negou a estimar a duração da ofensiva.

— [Trump] controla o acelerador. É ele quem decide — disse Hegseth. — Não cabe a mim dizer se é o começo, o meio ou o fim.

Trump disse recentemente que a ofensiva com o Irã duraria quatro ou cinco semanas. Apesar de ter reforçado a mensagem de que os EUA estão “ganhando a guerra”, ele demonstrou contrariedade pela ascensão do filho de Khamenei, Mojtaba, como novo líder supremo — uma indicação de que não está em curso uma mudança estrutural no regime. Na segunda, disse a apoiadores que a ofensiva era uma “excursão curta”.

— Parece-me que Trump acreditou que conseguiria uma queda do regime relativamente fácil — disse Rudzit. — Que diante da demonstração de força ao matar Khamenei, alguém mais moderado seria eleito para negociar a paz, que até poderia continuar, desde que fosse moderado. Com a negativa, sobretudo da Guarda Revolucionária do Irã, eles parecem agora estar decidindo o que fazer.

Em entrevista à rede americana PBS News, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, afirmou nesta terça-feira que EUA e Israel falharam em alcançar o objetivo inicial de forçar uma mudança de regime. O principal diplomata da nação persa disse duvidar que os inimigos tenham um plano de fato.

— Eu não acredito que eles tenham nenhum objetivo final realista em suas mentes, porque estamos diante de algo caótico — disse Araghchi. — Suas palavras e ações, eles apenas começaram a nos atacar de maneira indiscriminada.

A Guarda Revolucionária Iraniana, em uma declaração separada, afirmou que a organização decidiria quando se daria o fim do conflito, e não os inimigos.

Fonte: O Globo

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