Falta de fiscalização e policiamento, acesso a rotas marítimas nacionais e internacionais menos conhecidas, proximidade a portos e grandes centros urbanos, facilidade de acesso, mercado imobiliário e comércio dinâmico para lavagem de dinheiro, esconderijos variados e grande mercado consumidor de drogas ilegais. Com essa receita, localidades famosas e pequenas de Norte a Sul no litoral brasileiro têm atraído cada vez mais a atenção do crime organizado.
Antes de maneira discreta e longe dos olhos da maioria do público, o interesse e domínio de praias e cidades conhecidas como “paraísos tropicais” Brasil afora por parte de facções criminosas locais e nacionais hoje acontece a olhos vistos — escancarando o problema e tirando a sensação de segurança que sempre foi característica nesses lugares pelos turistas e pela população residente.
“São lugares que oferecem muito dinamismo econômico, mercado imobiliário aquecido, comércio com alta rotatividade, o que também oferece oportunidades de ganhos e lavagem de dinheiro, sem falar na venda de drogas em si, que costuma ser alta”, afirma Wagner Mesquita, ex-secretário de Segurança Pública do Paraná e delegado da Polícia Federal.
Muitos desses chamados paraísos tropicais também ficam próximos a centros urbanos importantes, como Fortaleza ou Rio de Janeiro, por exemplo, o que facilita a circulação dos criminosos por ali e funciona também muitas vezes como esconderijo, conforme aponta Mesquita. “Por fim, principalmente no Nordeste, o acesso à Europa e aos Estados Unidos que você tem ali pelo litoral da região é muito facilitado pela distância e menor fiscalização, então vai se tornando uma região importante inclusive para o tráfico de drogas internacional.”
No início deste mês de agosto, as polícias Civil e Militar de oito estados do Nordeste foram às ruas com 510 mandados de prisão e de busca e apreensão para cumprir, em uma megaoperação contra o crime organizado. Mais de 5 mil agentes participam da ação simultânea no Piauí, Pernambuco, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe.
O objetivo da operação denominada “Nordeste Integrado”, segundo as autoridades, foi o de combater o avanço de organizações criminosas que praticam crimes como homicídios, roubos e furtos de veículos e cargas, além de envolvimento com o tráfico de drogas e de armas. Dentre os mais de 5,9 mil agentes que participaram da operação “Nordeste Integrado”, 1.172 eram do Ceará.
Divisor de águas
No final de 2024, tornou-se emblemático desse movimento de invasão e domínio o caso do adolescente paulista Henrique Marques de Jesus, de 16 anos. Ele foi capturado e arrastado em plena praça central por um bando de homens, espancado e encontrado morto em uma lagoa de Jericoacoara, famosa vila remota com praias paradisíacas e dunas de areia no litoral do Ceará. Ele visitava o local de férias com o pai.
Em abril deste ano, a Polícia Civil esclareceu o caso: o adolescente, que não tinha envolvimento com nenhum tipo de crime, foi identificado erroneamente por membros de uma facção criminosa que domina o local, o Comando Vermelho (CV), como integrante de uma facção rival, o Primeiro Comando da Capital (PCC), ambas de atuação nacional e internacional. Ele teria chamado a atenção dos bandidos com gestos ao posar para fotos na praia, que foram interpretados como parecidos aos do bando rival.
A presença mais ostensiva das facções no Ceará acontece desde 2015, em Fortaleza.
“Ele estava com o pai na praça e resolveu voltar sozinho para a pousada. No caminho, ele foi abordado por esse grupo de pessoas que atribuíram a ele, ninguém sabe por qual motivo, a participação nessa organização criminosa”, disse na época o diretor da Polícia Civil do estado, Marcos Aurélio França. Oito pessoas foram identificadas como autores do crime — seis estão presas, uma morreu em confronto com a polícia e uma está foragida.
O Comando Vermelho começou a se estabelecer na região em 2016, quando a cidade de Jijoca, que engloba a vila de Jericoacoara, atingiu um pico no número de assassinatos, segundo dados do Atlas da Violência. A presença mais ostensiva das facções no Ceará acontece desde 2015, em Fortaleza. Entre 2016 e 2017, elas avançam para o interior e litoral.
De lá para cá, a violência só aumentou. No centro de Jijoca, em março, uma mulher foi assassinada na frente da principal igreja da cidade após receber “ordem” da facção para deixar a cidade. Em dezembro, uma mulher e uma adolescente foram resgatadas do “tribunal do crime”, transmitido online.
Porto de Galinhas, Praia da Pipa e Búzios dominados por facções criminosas
A situação se repete em “paraísos tropicais” de outros estados. Na praia de Porto de Galinhas, em Pernambuco, turistas vão às famosas lagoas naturais de água do mar na praia sob a vigilância dos olheiros da facção criminosa local Trem Bala. De acordo com reportagem da BBC Brasil, que visitou a região recentemente, nas comunidades de Salinas, Socó e Pantanal, onde vive grande parte da força de trabalho da praia, moradores são proibidos de chamar a polícia, câmeras instaladas na rua pelas gangues monitoram o movimento de quem entra e sai e agentes públicos precisam baixar os vidros de carros e se identificarem para acessar a região.
Em Porto de Galinhas, segundo a reportagem, há leis informais da facção que proíbem roubos e brigas nas ruas. Em um caso que chegou à Promotoria da Criança de Ipojuca, uma menina com menos de 18 anos foi torturada até a morte por praticar pequenos furtos.
Na Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, quem manda é o Sindicato do Crime, uma facção local surgida em 2013, no presídio de Alcaçuz. Em 2017, o local foi alvo de um massacre com 26 mortos durante uma disputa pelo controle entre a facção local e o PCC, que tentava se fixar na região.
Após expulsar o PCC e dominar o presídio, a facção firmou um acordo com o Comando Vermelho e tornou-se hegemônica em Natal. Nos últimos anos, vem se expandindo por todo o litoral do estado nordestino. O Rio Grande do Norte é o ponto do Brasil mais próximo da Europa. Um voo entre Lisboa, em Portugal, e Natal, pode ser feito em menos de sete horas. Assim, o estado também é utilizado pelo crime organizado como ponto de envio de cocaína para o continente europeu.
Em Búzios e Cabo Frio, no litoral norte do Rio de Janeiro, quem comanda a distribuição do sinal de internet e a grilagem de terras é a milícia. De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, em denúncia oferecida à Justiça neste ano, uma milícia formada por policiais pagava uma espécie de pedágio para atuar nas cidades para a facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP), que domina o tráfico de drogas na região.
“O crime organizado de fato consolidou presença nessas áreas turísticas estratégicas, impondo regras próprias e reduzindo a primazia estatal sobre o território”, afirma Fernando Capano, advogado e especialista em temas de segurança pública. “Isso não foi da noite para o dia, ocorreu de forma gradual com ocupação logística, infiltração social e domínio territorial ao longo de anos sem ação estatal efetiva”, avalia.
Fonte: Gazeta do Povo