Entrevista especial: Amamentação sem mitos: médica esclarece as dúvidas mais comuns

O tamanho das mamas interfere na produção de leite? A cesariana impede oaleitamento? Sentir dor intensa nos primeiros dias é normal? Essas são dúvidas frequentes entre gestantes e puérperas e, muitas vezes, informações incorretas aumentam a insegurança, justamente, quando a mulher precisa de acolhimento e orientação. Em referência ao Agosto Dourado, mês dedicado à conscientização sobre o aleitamento materno, e ao Dia Mundial da Amamentação, celebrado em 1º de agosto, a Dra. Silvia Regina Piza, presidente da Comissão Nacional Especializada em Aleitamento Materno da FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, esclarece alguns mitos e verdades sobre o tema. Confiram a seguir:
Correio de Sergipe- AJN1 – Mulheres que tiveram pouco aumento das mamas na gravidez produzem menos leite?
Silvia Regina – Mito. Durante a gestação, as mamas passam por alterações na circulação, nos ductos e nos tecidos, preparando-se para o aleitamento. No entanto,
o volume mamário não determina a capacidade de produção de leite. A
produção está diretamente relacionada ao estímulo provocado pela sucção
do recém-nascido. Quanto maior e mais adequado esse estímulo, maior
tende a ser a produção.
CS/AJN1 – A cesariana pode atrasar a descida do leite, mas não impede o sucesso
da amamentação?
Silvia Regina – Verdade. O parto cesáreo pode atrasar a apojadura — nome dado ao aumento da produção e à descida do leite nos primeiros dias —, mas isso não
significa que a amamentação será prejudicada. Segundo a especialista, algumas medidas ajudam a favorecer o processo, como evitar sedação excessiva na assistência ao parto, realizar o contato pele a pele e aleitamento ainda na sala de parto, preferencialmente antes da primeira hora de nascimento. O contato imediato e a busca espontânea do bebê pela mama já contribuem para os estímulos hormonais envolvidos na produção de leite”, afirma.
CS/AJN1 – Dor intensa nos primeiros dias deve ser considerada normal?
Silvia Regina – Mito. Algum desconforto inicial pode ocorrer por causa da descida do
leite, do ingurgitamento das mamas ou da adaptação da mãe e do bebê. Dor
forte, porém, não deve ser ignorada. A dor intensa precisa ser avaliada, pois pode indicar pega inadequada, favorecendo a ocorrência de fissuras, inflamação ou outras dificuldades que exigem correção e acompanhamento.
CS/AJN1 – Obesidade, diabetes e síndrome dos ovários policísticos podem
dificultar o início da amamentação?
Silvia Regina – Verdade. Alterações hormonais e metabólicas associadas à obesidade, ao diabetes e à síndrome dos ovários policísticos podem interferir no início da produção de leite. Porém isso não significa que essas mulheres não possam amamentar. Com acompanhamento, orientação e medidas adequadas, essas dificuldades podem ser superadas.
CS/AJN1 – Oferecer fórmula na maternidade pode interferir na amamentação
exclusiva?
Silvia Regina – Verdade. Em partos de risco habitual, quando mãe e bebê apresentam boas condições clínicas, a recomendação é manter o recém-nascido em
alojamento conjunto e oferecer o peito sempre que houver sinais de fome.
A introdução de fórmula sem indicação clínica pode reduzir a frequência
das mamadas e, consequentemente, o estímulo necessário para a produção
de leite. O bebê deve permanecer próximo da mãe e ser amamentado em livre
demanda, desde o nascimento até a alta hospitalar. A fórmula só deve ser
utilizada quando houver necessidade devidamente avaliada.
CS/AJN1 – A pega correta é mais importante do que o formato do mamilo?
Silvia Regina – Verdade. O formato do mamilo pode gerar preocupação, especialmente nos casos de mamilos planos ou invertidos, mas não é, por si só, um impedimento para amamentar. O bebê precisa abocanhar não apenas o mamilo, mas boa parte da aréola. Uma pega adequada favorece a retirada do leite, evita dor e lesões e aumenta as chances de continuidade do aleitamento. Com orientação correta, é possível ajustar a posição e a pega, inclusive quando existem características anatômicas que inicialmente
parecem dificultar a amamentação.
