Bandido, sim!

O acontecimento do ano. Miraflores estava em festa. O padre Tomazonni chegou dois dias antes. Era um italiano alto, corpulento, que se danava a comer uma boa feijoada, fosse no almoço, no jantar ou no café da manhã. E comia mais que o esmeril da França, como alardeava Dona Toniquinha, viúva do finado Chico Ferrolho, que, em vida, foi, por décadas, o coveiro do lugar. Cidadezinha mal e mal saída dos cueiros, ainda com porte de povoação raquítica, que a política desvairada achou por bem de separar de Monte Belo. Separaram-se, ao mesmo tempo, três povoações, todas raquíticas, tornando-se municípios, por mero capricho de autoridades que nunca pensavam no povo, mas, sim, em conchavos espúrios, mais das vezes.
Festança. A cidadezinha modorrenta, enfim, teria um acontecimento para ser lembrado por anos a fio. Era o casamento de Quitéria, filha única de Afonso Coceira das Barracas, neto de um afamado rezador, que curava bicheira em lombo de animal, somente tocando o dedão no rastro do bicho, fosse jugue, bode, cavalo ou boi. Tinha fama em redor de trinta léguas circunferenciais. Cobrava caro, mas era reza garantida. De seu lado, Afonso Coceira era um destacado proprietário de terras, onde cultivava o melhor algodão das redondezas. Homem de boas posses, muito bem aquinhoado.
Pois não foi que Quitéria, noiva de Roberto de Sá Joaninha, deu nele um chega para lá, deixando-o quase morto de tanto sofrimento, para namorar e noivar com Fortunato de Belizário, um sujeito mal falado de Monte Belo a Serra Azul, de Timbiras a Bom Sucesso, e, dizia-se, muito mais além. Quitéria quedou-se anestesiada. Trocar Roberto por Fortunato? Um rapaz de bons modos, prestativo, trabalhador, que gostava de ajudar o padre Tomazonni em suas andanças para socorrer os pobres, que não eram poucos por ali. O filho de Sá Joaninha tinha um coração de ouro. Quitéria passou a não ver mais essas qualidades. Largou-o na rua da amargura. Trocou-o por um cabra perdido.
Verdade foi que a cidade se engalanou. Belizário fez uma pequena fortuna contrabandeando mercadorias em lombo de uma alentada tropa de burros, mercadejando pelo sertão afora. Afirmava-se, sem segredo, que ele tinha surrupiado bens de dois tios, que eram seus sócios, no negócio de tropeiro. O filho não ficava para trás, quando se tratava de falcatruas. Todo mundo sabia disso. Quitéria também sabia. Ela não era tapada, não era uma cabeça oca. Porém, estava de pá virada. Deu lá nela um redemoinho no coração. Um desmantelo!
O rebuliço foi grande, quando Quitéria anunciou o namoro com Fortunato, após desvincular-se de Roberto. “Tá doida”! – vociferou alguém. “Não sabe em quantas varas vai se meter” – gritou Manelão de Zacarias Três Quibas. “Tem mulher que não se ajunta com formiga porque não sabe qual é o macho” – vaticinou Belinha, que cuidava da papelada da igreja, dos batizados e casamentos.
Enfim, o namoro e o noivado de Quitéria com Fortunato não encontraram guarida em quase ninguém, a não ser em parte de sua família e nas gentes do fulano. A família da moça rachou. A parte da mãe, interesseira, teceu loas. Já a parte do pai, de Afonso Coceira, deu de ombros, esconjurou o enlace. Nenhum parente do lado paterno prontificou-se a apadrinhar o casamento. Ninguém iria à igreja. Decisão unânime. E a raça de Clarismundo Coceira, pai de Afonso e avô de Quitéria, não era de “mais ou menos”. Era pau, casca!
A celebração matrimonial estava marcada para o primeiro sábado de janeiro. Até convidados da capital marcariam presenças. Gente da política, da jogatina (familiares do noivo controlavam o jogo do bicho, na capital e em cidades do interior) e muito mais. Gente boa e gente ruim. O mundo é assim.
Triunfalmente, entrou o noivo, de braço dado com a madrasta, Zuleide de Zuzu Tanajura. Padrinhos e madrinhas em roupas chiques do mesmo tom. Muito, muito mais triunfalmente, entrou a noiva, com arranjos inovadores para a marcha nupcial, a cargo do mestre Biriba, militar reformado, que tocou por anos a fio na Banda da Polícia Militar.
O pai da noiva a entregou a Fortunato. Ela com os olhos marejados. Ele com um sorriso cínico.
Quando o padre Tomazonni ia começar a cerimônia, eis que Roberto de Sá Joaninha, bêbado como uma pipa, coisa que ele nunca tinha bebido, entrou na igreja e, no meio da pequena nave, lavrou o seu protesto: “Fortunato, você é um bandido! E eu provo. Olhe aqui esses papeis, suas falcatruas. Um monte delas, que um amigo meu da Polícia levantou. Tudo isso são provas contra você. Mas, ela quis você. O problema é dela. Você a enganou, como enganou muita gente. Você é bandido, Fortunato. Bandido, sim”!
Alvoroço. O padre não sabia o que fazer. Quitéria desmaiou. Fortunato quis partir para a briga. Contiveram-no. Roberto de Sá Joaninha caiu. Não aguentou a bebedeira. Papeis terrivelmente escusos se espalharam na igreja.
