Entrevista especial: “Endometriose: dor incapacitante não é normal”, alerta o médico

A endometriose continua sendo um dos grandes desafios da saúde feminina. Caracterizada por um processo inflamatório crônico, a doença pode provocar dores incapacitantes, comprometer a fertilidade e afetar a vida profissional, emocional e afetiva das mulheres. Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, muitas pacientes ainda convivem durante anos com sintomas que são equivocadamente considerados normais. Em entrevista ao Correio de Sergipe, o Dr. Kelso Passos, obstetra, ginecologista integrativo e especialista em estética íntima, compartilha sua experiência de 35 anos na medicina e destaca a importância de reconhecer os sinais da doença, individualizar os tratamentos e ampliar o acesso à assistência especializada. Referência no tratamento da endometriose em Sergipe, o médico também aborda fertilidade, saúde metabólica, sexualidade, políticas públicas e a importância de aliar conhecimento científico, tecnologia e acolhimento no cuidado com a mulher.
Correio de Sergipe/AJN1- Dr. Kelso, a ginecologia integrativa busca olhar para a mulher como um todo, indo além dos sintomas isolados. Como essa perspectiva transforma a jornada de diagnóstico e o tratamento de pacientes que sofrem com a endometriose?
Kelso – Ao longo dos meus 35 anos de medicina, aprendi que não podemos tratar uma doença e esquecer a pessoa que convive com ela. A endometriose é um exemplo muito claro disso. Não estamos falando apenas de lesões que acometem órgãos pélvicos e extra-pélvicos, mas de uma doença inflamatória crônica que pode comprometer profundamente a qualidade de vida, a fertilidade, a sexualidade, o sono, a saúde emocional e até a capacidade profissional e familiar da mulher.
A ginecologia integrativa amplia nosso olhar. Além de investigar e tratar adequadamente a endometriose, procuro compreender como aquela mulher dorme, se alimenta, lida com o estresse, pratica atividade física e enfrenta as consequências da dor crônica. Isso não significa substituir os tratamentos convencionais, mas associar os recursos da medicina baseada em evidências a um cuidado verdadeiramente individualizado.
O tratamento pode envolver terapia hormonal, acompanhamento multidisciplinar e, em casos selecionados, cirurgia minimamente invasiva. Ter endometriose não significa que a mulher necessariamente precisará ser submetida a uma cirurgia.
Nos casos cirúrgicos, costumo dizer que não basta retirar as lesões de endometriose; precisamos ajudar a mulher a recuperar a vida que a doença lhe tirou. O verdadeiro sucesso do tratamento não está apenas em um exame ou em uma cirurgia bem-sucedida, mas também em devolver à paciente a possibilidade de viver sem dor, com mais autonomia, confiança e qualidade de vida.
CS/AJN1 – A endometriose ainda carrega um histórico de diagnóstico tardio, muitas vezes confundida com cólicas menstruais normais. Quais são os principais sinais de alerta que a mulher deve observar para procurar ajuda médica a tempo?
Kelso – Existe uma ideia cultural muito prejudicial de que sentir dores menstruais intensas faz parte da vida da mulher. Não faz! Uma cólica que impede uma estudante de frequentar a escola, uma profissional de trabalhar ou uma mulher de realizar suas atividades habituais precisa ser valorizada e investigada. A dor incapacitante não pode ser banalizada.
Os principais sinais de alerta são cólicas menstruais progressivas ou incapacitantes, dor durante ou após as relações sexuais, dor para evacuar ou urinar, especialmente durante a menstruação, dor pélvica persistente e dificuldade para engravidar. Outros sintomas comuns são distensão abdominal, alterações intestinais e fadiga importante.
É fundamental compreender que a intensidade da dor nem sempre corresponde à extensão da doença ou à quantidade de lesões. Existem pacientes com endometriose profunda e poucos sintomas, enquanto outras apresentam dores intensas mesmo com poucas lesões.
Um aspecto fundamental é compreender por que tantas mulheres ainda levam anos para receber o diagnóstico. A endometriose é uma doença complexa, mas parte desse atraso está relacionada à falta de reconhecimento dos sinais e sintomas e à necessidade de maior capacitação dos profissionais de saúde. Muitas pacientes passam por diversas consultas e exames antes que a possibilidade de endometriose seja considerada. Precisamos mudar essa realidade por meio da educação médica continuada, da valorização da história clínica e da investigação direcionada.
Outro ponto importante é que a ultrassonografia com preparo intestinal não é obrigatória para toda investigação de endometriose. A ultrassonografia transvaginal convencional, mesmo sem preparo, pode identificar lesões e sinais sugestivos da doença, desde que o profissional tenha conhecimento específico e examine cuidadosamente as estruturas envolvidas.
Um estudo realizado na Universidade de Ottawa, no Canadá, demonstrou a importância da experiência do examinador: a sensibilidade da ultrassonografia convencional foi de 25%, enquanto a avaliação direcionada por especialista alcançou 78% no grupo estudado. Esses resultados reforçam a importância da capacitação profissional para a identificação da doença.
A ultrassonografia especializada e a ressonância magnética continuam sendo recursos valiosos, principalmente para mapear lesões e planejar tratamentos cirúrgicos. Entretanto, nenhum exame de imagem isoladamente exclui todas as formas de endometriose. A avaliação clínica, baseada na história detalhada, nos sintomas e no exame físico direcionado, também é fundamental.
Depois de tantos anos dedicados ao tratamento da endometriose, tenho uma convicção: muitas vezes, o primeiro passo para encurtar o caminho até o diagnóstico não é solicitar um exame mais sofisticado, mas saber ouvir a paciente, reconhecer os sinais da doença e investigar com conhecimento e sensibilidade.
Minha mensagem às mulheres é simples: se a dor está limitando sua vida, não aceite que lhe digam que isso é normal. Sua dor merece respeito, investigação e tratamento com um profissional capacitado.
CS/AJN1 – Como especialista em obstetrícia, o senhor lida frequentemente com o planejamento familiar. De que maneira a endometriose afeta a fertilidade feminina hoje e quais são as principais abordagens para preservar ou viabilizar o sonho da gravidez?
Kelson – A endometriose pode comprometer a fertilidade por diferentes mecanismos. O processo inflamatório, as aderências pélvicas, as alterações anatômicas das trompas e dos ovários e, em determinadas situações, o comprometimento da reserva ovariana podem dificultar a gravidez. Entretanto, faço questão de tranquilizar as pacientes: ter endometriose não significa ser infértil. Muitas mulheres conseguem engravidar espontaneamente, enquanto outras necessitam de acompanhamento especializado ou técnicas de reprodução assistida.
A identificação precoce da doença é importante para individualizar o planejamento reprodutivo. Precisamos considerar a idade da paciente, a reserva ovariana, a extensão da doença, a presença de dor, as condições das trompas e também a avaliação do parceiro.
Em alguns casos, o tratamento clínico é suficiente para controlar os sintomas enquanto planejamos a gestação. Em outros, podemos indicar cirurgia minimamente invasiva ou encaminhamento para reprodução assistida. A cirurgia, entretanto, não deve ser indicada para todas as pacientes com endometriose com o objetivo de melhorar a fertilidade, especialmente quando envolve endometriomas ovarianos, pois o procedimento também pode comprometer a reserva ovariana.
Em situações selecionadas, a preservação da fertilidade por meio do congelamento de óvulos deve ser discutida antes da cirurgia, especialmente com mulheres jovens que apresentam comprometimento ovariano importante. Essa decisão precisa ser individualizada e compartilhada entre médico e paciente, considerando os riscos, os benefícios e os planos reprodutivos de cada mulher.
Depois de tantos anos acompanhando histórias de maternidade, sei que por trás de cada diagnóstico existe um projeto de vida. Nosso compromisso é oferecer informações claras, preservar possibilidades e construir o melhor caminho para cada mulher, sem criar falsas promessas.
CS/AJN1 – Sabemos que a endometriose é uma doença inflamatória crônica. Qual é o papel da nutrição, da regulação do estresse e do estilo de vida no controle dos sintomas e na melhora da qualidade de vida dessas pacientes?
Kelson – A endometriose envolve mecanismos inflamatórios, hormonais, imunológicos e neurológicos complexos. Por isso, acredito que o tratamento não deve ficar restrito à prescrição de medicamentos ou à cirurgia. A alimentação, o sono, a atividade física e a saúde emocional precisam fazer parte do planejamento terapêutico, com uma abordagem multidisciplinar.
Uma alimentação equilibrada, rica em vegetais, frutas, fibras, leguminosas, boas fontes de proteína e gorduras saudáveis, pode contribuir para a saúde metabólica e o bem-estar geral. A prática regular de exercícios, adaptada à condição clínica, também pode melhorar a disposição, o humor e a percepção da dor.
O estresse crônico e a privação de sono podem intensificar a experiência dolorosa, motivo pelo qual estratégias de manejo do estresse, apoio psicológico e higiene do sono são recursos importantes. É preciso esclarecer, contudo, que ainda não existe uma dieta específica comprovada capaz de curar a endometriose. A alimentação saudável é um complemento do tratamento clínico, não um substituto.
Na minha prática, valorizo muito a participação ativa da paciente. Não adianta construirmos um excelente planejamento terapêutico se não houver continuidade e comprometimento com hábitos saudáveis. Mas isso deve ser feito sem culpabilizar a mulher pela doença. A medicina oferece os caminhos, e a paciente precisa encontrar apoio para percorrê-los. O objetivo é reduzir o sofrimento, melhorar a funcionalidade e proporcionar resultados sustentáveis.
CS/AJN1 – Muitas mulheres com endometriose enfrentam dores durante a relação sexual, o que afeta diretamente a saúde íntima e a autoestima. Quais são os recursos terapêuticos modernos, incluindo os cuidados integrativos e a estética íntima funcional, que ajudam a resgatar o bem-estar dessas mulheres?
Kelso – A dor durante a relação sexual é uma das consequências mais delicadas da endometriose, porque atinge uma dimensão muito íntima da vida feminina. Muitas pacientes passam a evitar o contato sexual, sentem culpa, insegurança e percebem mudanças no relacionamento afetivo. Algumas chegam ao consultório acreditando que perderam definitivamente a possibilidade de ter uma vida sexual prazerosa. É importante mostrar que existem alternativas de tratamento e que elas não precisam aceitar a dor como parte inevitável da sua sexualidade.
O primeiro passo é identificar a origem dessa dor. Ela pode estar relacionada à endometriose profunda, especialmente quando acomete estruturas posteriores da pelve, mas também pode envolver alterações do assoalho pélvico, sensibilização dos nervos, ressecamento vaginal e fatores emocionais associados à dor crônica.
Dependendo do caso, o tratamento pode incluir terapia hormonal, fisioterapia pélvica especializada, acompanhamento psicológico e outras abordagens individualizadas. A cirurgia laparoscópica para tratamento das lesões pode ser indicada em situações específicas, após avaliação criteriosa.
A mulher tem o direito de viver sua sexualidade sem medo, sem constrangimento e, sempre que possível, sem dor. Resgatar essa dimensão da saúde também significa devolver autoestima, segurança e qualidade de vida.
CS/AJN1 – Ainda sobre a saúde integral da mulher, temas como a endometriose e o acompanhamento ginecológico contínuo exigem atenção redobrada, muitas vezes esbarrando na lentidão de diagnósticos e tratamentos. Na sua avaliação, o que ainda falta em termos de políticas públicas, tanto em nível nacional quanto aqui em Sergipe, para que a mulher tenha acesso mais célere, humanizado e eficaz à saúde preventiva e especializada?
Kelso – Acredito que um dos grandes desafios da saúde pública brasileira é transformar o acesso inicial ao atendimento em uma verdadeira linha de cuidado, capaz de acompanhar a mulher desde os primeiros sintomas até o tratamento especializado e o seguimento a longo prazo. Não basta oferecer uma consulta se a paciente precisa enfrentar uma longa espera para realizar exames, conseguir um diagnóstico ou ter acesso ao tratamento adequado.
No caso da endometriose, considero fundamental ampliar a capacitação dos profissionais da atenção primária, estabelecer fluxos de encaminhamento mais eficientes e fortalecer centros de referência com equipes multidisciplinares. Precisamos de acesso oportuno à ultrassonografia especializada, à avaliação da fertilidade, ao tratamento clínico e, quando necessário, à cirurgia de alta complexidade.
Aqui em Sergipe, defendo o fortalecimento de uma rede regionalizada, com critérios claros de encaminhamento e integração entre a atenção básica, os serviços de diagnóstico e os hospitais de referência. Também é essencial garantir a continuidade do cuidado após a cirurgia.
Outro ponto é a educação em saúde. Precisamos ensinar desde cedo que dores menstruais incapacitantes não devem ser normalizadas. Investir em informação e diagnóstico oportuno reduz o sofrimento e pode evitar o agravamento de determinadas condições.
Uma política pública verdadeiramente humanizada não deve apenas contar quantas mulheres foram atendidas, mas avaliar quantas conseguiram resolver seus problemas e recuperar sua qualidade de vida. Esse precisa ser o compromisso de todos nós.
CS/AJN1 – Estamos em pleno Outubro Rosa, período de conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer. Sabemos que a prevenção vai muito além dos exames de imagem tradicionais. Hoje, discute-se o impacto da resistência à insulina e da saúde metabólica na origem de diversas doenças, incluindo os processos tumorais. Qual é a relação entre os níveis de insulina, o metabolismo e a prevenção do câncer, e como a mulher pode cuidar disso no dia a dia?
Kelson – O Outubro Rosa é uma oportunidade importante para ampliarmos a conversa sobre a saúde da mulher. Além de reforçar a importância do rastreamento e do diagnóstico precoce do câncer de mama, precisamos falar sobre fatores de risco modificáveis, especialmente obesidade, sedentarismo, consumo de álcool e alterações metabólicas.
A insulina é um hormônio essencial para o funcionamento do organismo. Entretanto, quando existe resistência à insulina, o corpo precisa produzir quantidades maiores desse hormônio para manter a glicose controlada. Esse quadro frequentemente está associado ao excesso de gordura visceral, à inflamação metabólica e a alterações em vias de sinalização relacionadas ao crescimento celular.
Estudos associam obesidade, diabetes tipo 2 e alterações metabólicas ao aumento do risco de determinados tipos de câncer, incluindo o câncer de endométrio e, em determinados contextos, o câncer de mama. É importante esclarecer que essa associação não significa que a insulina, isoladamente, cause câncer, nem que reduzir seus níveis seja uma estratégia comprovada de prevenção oncológica.
Na prática, oriento as mulheres a cuidar da saúde metabólica por meio de alimentação equilibrada, atividade física regular, fortalecimento muscular, manutenção de um peso saudável, sono adequado e redução do consumo de álcool. A avaliação laboratorial e metabólica deve ser indicada conforme os fatores de risco individuais.
E faço um alerta fundamental: esses cuidados não substituem a mamografia e os demais exames recomendados para cada faixa etária e perfil de risco. Prevenir é muito mais do que procurar uma doença. É construir, todos os dias, condições para viver com mais saúde.
CS/AJN1 – No último dia 18 de outubro foi celebrado o Dia do Médico. Em um cenário de tantas transformações tecnológicas, desafios estruturais e exigências emocionais na profissão, qual mensagem o senhor deixa para os colegas médicos? Depois de toda essa trajetória, o que verdadeiramente significa ser médico hoje?
Kelson – Ao olhar para os meus 35 anos de profissão, sinto uma profunda gratidão a Deus pelo privilégio de exercer a medicina. Foram milhares de encontros, histórias, desafios, decisões difíceis e momentos que marcaram minha vida. A medicina me ensinou muito sobre ciência, mas foi o contato com o sofrimento humano que me trouxe algumas das lições mais importantes.
Vivemos uma época extraordinária de avanços tecnológicos. Temos equipamentos de imagem cada vez mais precisos, técnicas cirúrgicas menos invasivas, novos tratamentos e a inteligência artificial transformando nossa maneira de trabalhar. Tudo isso é valioso, mas nenhuma tecnologia substitui a capacidade de ouvir, acolher, examinar com atenção e compreender o sofrimento de quem está diante de nós.
Acredito que a excelência médica nasce do encontro entre conhecimento científico, responsabilidade ética, atualização permanente e sensibilidade humana.
Aos colegas, especialmente aos mais jovens, deixo uma mensagem: nunca permitam que a pressa, a rotina ou as dificuldades da profissão retirem de vocês a capacidade de se emocionar com a história de um paciente. Precisamos cuidar também da nossa própria saúde física e emocional, porque a medicina exige muito de quem a exerce.
Depois de tantos anos, continuo acreditando que ser médico não é apenas tratar doenças. É receber a confiança de alguém em um dos momentos mais vulneráveis da sua vida e honrar essa confiança com conhecimento, honestidade, respeito e compaixão.
Se hoje pudesse resumir minha trajetória em uma única reflexão, seria esta: a tecnologia pode tornar a medicina cada vez mais avançada, mas é a humanidade que a torna verdadeiramente grandiosa.
