Política

Banco Master usou Word e códigos para fabricar documentos falsos

14/09/2026 às 12:36

 

A Polícia Federal identificou uma estrutura organizada dentro do Banco Master para produzir, alterar e reunir documentos que seriam usados para sustentar operações de créditos consignados atribuídas à Tirreno Consultoria e apresentadas ao Banco de Brasília (BRB). Segundo material pericial obtido pelo g1, funcionários utilizaram desde ferramentas comuns, como Word e Excel, até códigos de programação e edição de arquivos PDF para montar os documentos.

A investigação aponta que dados reais de clientes foram extraídos de sistemas internos e usados como base para a produção em massa de documentos. Em uma das etapas, 2.700 procurações foram geradas de uma só vez, por meio da ferramenta de mala direta do Microsoft Word. A PF também encontrou evidências de que datas e informações capazes de revelar a origem dos arquivos foram retiradas ou modificadas.

O objetivo, segundo a perícia, era fazer com que documentos produzidos ou manipulados em 2025 aparentassem estar relacionados a operações realizadas anteriormente. Contudo, a análise dos arquivos encontrou vestígios digitais que permitiram reconstruir parte da cronologia.

Como funcionava a produção dos documentos

A perícia descreveu uma sequência que envolvia diferentes setores e ferramentas. O processo começava com a obtenção de informações reais de clientes e terminava com a montagem de um arquivo único contendo documentos que deveriam representar uma operação de crédito.

Veja as principais etapas identificadas pela Polícia Federal:

De acordo com o material analisado pela Polícia Federal, o processo era dividido em diferentes etapas e envolvia funcionários de áreas como Back Office, operações e tecnologia.

Primeiro, dados de clientes que já haviam realizado operações eram extraídos dos sistemas internos do banco. Essas informações eram organizadas em planilhas e serviam como matéria-prima para a produção de novos documentos.

Na sequência, os dados eram utilizados para preencher automaticamente procurações e outros arquivos. Depois, páginas de assinatura eram separadas dos documentos originais, enquanto Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) eram assinadas digitalmente.

Em outra etapa, informações que poderiam revelar a origem dos arquivos eram retiradas por meio da edição de PDFs. As diferentes peças eram então reunidas em documentos únicos, formando os dossiês que seriam apresentados como documentação das operações.

A perícia também identificou tentativas de alterar comprovantes bancários para retirar referências aos contratos originais. Quando surgiam questionamentos sobre inconsistências, mensagens internas mostram que funcionários discutiam como justificar os problemas.

Apesar das alterações, registros digitais deixaram pistas sobre a produção dos arquivos.

Dados reais foram usados como base

De acordo com a investigação, uma das primeiras etapas era reunir informações de clientes que já haviam realizado operações legítimas. Entre os dados utilizados estavam nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe.

A PF identificou, por exemplo, uma solicitação feita em julho de 2025 para levantar CPFs. Os dados foram consultados em sistemas internos e posteriormente organizados em uma planilha.

Parte das informações estaria relacionada ao CredCesta, produto de crédito consignado voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.

As próprias conversas analisadas pela perícia indicaram que havia dúvidas sobre a qualidade da base utilizada. Em uma troca de mensagens, funcionários da área de tecnologia discutiram problemas nos dados e apontaram que determinados CPFs não correspondiam ao perfil esperado.

A existência dessas inconsistências não impediu, segundo a investigação, que a base fosse utilizada nas etapas seguintes.

Word foi usado para criar 2.700 procurações

Com os dados reunidos, uma das ferramentas utilizadas para produzir os documentos foi a mala direta do Microsoft Word.

O recurso permite conectar um modelo de documento a uma planilha e preencher automaticamente campos diferentes para cada pessoa. Segundo a PF, o procedimento foi utilizado para produzir 2.700 procurações em lote, em junho de 2025.

Na prática, a ferramenta permitia transformar uma única estrutura de documento em centenas ou milhares de versões individualizadas.

A tecnologia teria sido usada como parte de uma produção documental em escala, em vez de os arquivos serem preparados individualmente.

Código separava páginas de assinaturas

A área de tecnologia também teria participado diretamente da manipulação dos arquivos.

Segundo a perícia, funcionários desenvolveram aplicações em C#, linguagem de programação utilizada nos sistemas da instituição. Uma das funções identificadas permitia extrair de arquivos PDF uma página específica, justamente a que continha a assinatura.

A investigação encontrou ainda um arquivo compactado com 1.833 PDFs contendo páginas de assinatura isoladas de Termos de Consentimento.

Essas páginas poderiam ser posteriormente utilizadas na montagem de novos conjuntos de documentos.

Assinatura digital revelou a verdadeira cronologia

Um dos principais vestígios encontrados pela perícia apareceu justamente nas assinaturas digitais.

Em determinados documentos, a data apresentada no corpo da Cédula de Crédito Bancário (CCB) indicava que a operação teria ocorrido meses antes. No entanto, o registro criptográfico da assinatura mostrava que o arquivo havia sido assinado apenas posteriormente.

Em um dos exemplos analisados, a CCB apresentava a data de 21 de janeiro de 2025, enquanto o registro da assinatura digital indicava 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.

A diferença chamou a atenção dos peritos porque permitia identificar que o arquivo havia sido formalizado digitalmente em uma data posterior àquela indicada no próprio documento.

Esse tipo de registro foi importante para a reconstrução da sequência dos acontecimentos, mesmo quando outras informações haviam sido alteradas.

“Precisamos excluir a data”

A tentativa de retirar rastros também aparece em mensagens internas analisadas pela PF.

Em uma conversa de 20 de junho de 2025, Allan da Silva Machado escreveu a Moacir Lourenço da Silva Junior ao tratar dos Termos de Consentimento: “e precisamos excluir a data”.

A perícia encontrou um exemplo concreto envolvendo um documento de Genilson Lima Leal. Originalmente, o arquivo apresentava o registro de 24 de fevereiro de 2023, às 13h05.

Posteriormente, em julho de 2025, essa informação foi retirada visualmente do documento.

A alteração não eliminou todos os vestígios. Outros elementos digitais permitiram aos peritos identificar informações sobre a produção e modificação do arquivo.

Documentos eram transformados em dossiês

Depois da produção e das alterações, as diferentes peças eram reunidas. CCBs, procurações e Termos de Consentimento eram agrupados em um único arquivo PDF. Para isso, segundo a PF, foi utilizado o PDF24.

Os arquivos eram armazenados em pastas relacionadas às demandas do BRB e da Tirreno, inclusive com referências a lotes de 2.700, 299 e 119 amostras.

O resultado era um dossiê que reunia, em um mesmo arquivo, documentos produzidos ou modificados em diferentes etapas.

Comprovantes de PIX também foram discutidos

A investigação aponta que a preocupação em retirar referências às operações originais não ficou restrita aos contratos.

Mensagens analisadas pela PF mostram uma discussão sobre a alteração de comprovantes de transferências bancárias feitas por SPB e PIX.

Segundo a perícia, havia interesse em retirar dos documentos informações como evento, número do contrato e histórico. Entre os registros que poderiam aparecer estava a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”.

O problema era fazer as alterações em larga escala. Em uma conversa, uma funcionária explicou que conseguia ajustar um ou outro comprovante, mas considerava inviável fazer o procedimento manualmente em 2.700 arquivos.

A troca de mensagens, segundo a investigação, mostra uma dificuldade encontrada na própria operação, já que algumas etapas podiam ser automatizadas, enquanto outras exigiam alterações individuais.

Auditoria da Deloitte também aparece na investigação

As mensagens analisadas pela PF indicam ainda que funcionários discutiam como responder a questionamentos da auditoria da Deloitte.

Em junho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar comunicou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria estava cobrando informações sobre a carteira da Tirreno.

Diante das inconsistências encontradas, Alberto teria sugerido que o problema fosse atribuído a um “erro operacional na seleção”.

A investigação analisa essas conversas como parte do conjunto de evidências sobre a forma como as inconsistências documentais seriam justificadas caso fossem identificadas durante verificações externas.

Daniel Vorcaro recebeu um “kit” de documentos

A documentação produzida durante a operação também teria chegado à cúpula do Banco Master. Segundo a PF, em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro , dono do Banco Master, pediu a Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”.

Na sequência, foram encaminhados arquivos relacionados às CCBs, procurações e assinaturas.

A informação é relevante para a investigação porque indica, segundo o material analisado pelos peritos, que a documentação não permanecia apenas com os funcionários diretamente envolvidos na produção dos arquivos.

O que a PF encontrou

A estrutura identificada pela Polícia Federal pode ser resumida em uma sequência:

  • Dados reais de clientes eram extraídos dos sistemas internos;
  • As informações eram organizadas em planilhas;
  • Os dados alimentavam documentos produzidos em massa;
  • Páginas de assinatura eram separadas dos arquivos originais;
  • CCBs eram assinadas digitalmente;
  • Datas e outras informações eram retiradas ou modificadas;
  • Comprovantes e documentos eram reunidos e editados;
  • Os arquivos eram transformados em dossiês únicos;
  • Registros digitais permitiam posteriormente reconstruir parte da cronologia.

A perícia concluiu que o processo combinava ferramentas convencionais de escritório com programação e edição digital. O uso dessas tecnologias permitia acelerar a produção dos documentos e, segundo a investigação, criar uma aparência de regularidade para operações cuja documentação estava sendo questionada.

O ponto central identificado pelos peritos foi que apagar uma informação visível não significava necessariamente eliminar todos os rastros digitais. Registros de assinatura, metadados e outros elementos dos arquivos ajudaram a Polícia Federal a identificar quando determinados documentos haviam sido efetivamente produzidos ou modificados.

Segundo o material pericial, a estrutura tinha como finalidade sustentar documentalmente a existência de uma carteira de créditos consignados atribuída à Tirreno Consultoria e posteriormente negociada com o BRB.

A PF investiga o conjunto de operações e as responsabilidades individuais dentro da estrutura. As conclusões descritas no relatório fazem parte da investigação e deverão ser submetidas à análise das autoridades responsáveis pelo caso.

Fonte: IG

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