CIRANDA, CIRANDINHA

31/07/2026 às 21:18

*ANTÔNIO WELLINGTON BRITO JÚNIOR é Mestre em Direito, Professor de Direito Penal e Processo Penal da Faculdade de Direito 8 de Julho e da Universidade Tiradentes e Delegado de Polícia.

 

A vida é feita de ciclos. Foi o que senti ao levar minha filha ao primeiro dia de aula. Não importa a geração. Sempre será impressionante o olhar das criancinhas que, pela primeira vez na vida, são separadas dos pais, ainda que momentaneamente. Um mundo novo fora do cordão umbilical as arrebata.

Na tentativa de conter o pavor da separação, os genitores entregam aos pequenos um objeto que funciona como elo sentimental. São meninos e meninas carregando de carrinhos a bonecas. O costume do brinquedo escolar é curioso e ancestral. Carrega duas esperanças paternas. Uma centrada na superstição do que seria um amuleto da sorte. Outra fundada na tentativa de minimizar o impacto do primeiro encontro com o desconhecido. 

Não por outras razões, ganhei de meu pai, nos idos da década de oitenta, uma maletinha branca e multifuncional. Dentro dela, havia equipamentos para medir pressão arterial e batimentos cardíacos. A aquisição foi cara para os padrões da época. Porém, havia uma justificativa para o esforço paterno. Ele supunha que eu seria forte no futuro se optasse pela Medicina. No final do século XX, a preocupação da paternidade era o porvir. Do que meu pai imaginou do presente que me deu, acertou apenas na necessidade do estetoscópio que os anos me trouxeram.

À minha filha, seguindo o hábito familiar, dei um castorzinho de pelúcia. Pedi que meu irmão o trouxesse da Europa quando cruzou o oceano numa dessas viagens únicas que a classe média faz na vida para guardar de recordação. No imaginário de quem nunca atravessou o mar, o Velho Mundo conserva certa aparência de lugar seguro. Como bom supersticioso, vejo no castor — bicho zeloso que constrói refúgios, diques e tocas — o meu fidelíssimo guardião.

Abraçada no roedor de estimação, minha rebenta pisa os pezinhos no colégio. Ela olha para o pai, volta os olhos para a mãe e depois fita o castor. É como se pensasse em fugir nas costas do animalzinho se o perigo surgir. E, diferentemente do avô, que pensava na segurança do futuro, fixo o pensamento no presente. Quando o século virou, as coisas ficaram perigosas demais para refletir calmamente sobre época distante.

Notando minha angústia, a professora aparece:

— Paizinho e mãezinha, hora de deixar o bebê conosco.

Permite que fiquemos no pátio do lado de fora. Seremos acionados se a novata não se acostumar logo com nossa ausência repentina.

Convidado a sentar, eu me perco em pensamentos no banquinho do pátio. Minha memória resgata coisas antigas. Lembro-me de como tudo começou. O presente se entrelaça ao passado e ao futuro. Recordo-me de meu pai dizendo para minha mãe que eu seria um grande médico enquanto sorria ao me ver mexendo nas funcionalidades da maletinha. Em meio a divagações perdidas no espaço-tempo, Exupéry se acomoda ao meu lado no banco. Uma luz pedagógica é lançada no momento vivido, quando me relembra uma inesquecível lição: “Todas as grandes pessoas foram crianças um dia, embora poucas se lembrem disso.” Ali, sentado naquele banco, ladeado pela esposa ansiosa e pelo amigo literato, eu me vejo no seleto rol dos que guardam a memória profunda da infância envelhecida. Vendo minha filha entrar no colégio, reencontro o menino que um dia fui. A maletinha de médico, a inocência pueril e o futuro que a ascendência em vão almejava.

É no que penso quando, do banquinho, olho para o interior do colégio, pressentindo toda sorte de perigos. É inusitado, pois os ares escolares transmitem grande organização. A cada instante, vejo funcionários transitando às pressas, à cata dos traquinas que correm, como se estivessem afoitos em novas descobertas. Será que, entre tantas novidades, os pequenos príncipes já se veem como aviadores prestes a cruzar o oceano?

No final, minha mente confusa retorna à frase da professora. Lanço o olhar para o corredor de acesso ao maternal e vejo o castor correr em alta velocidade. O veloz talismã irrompe trazendo consigo minha menina ao portão da frente, onde o cordão umbilical a resgatará.

 

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