Ceuta, “23.000 Vidas” e o verdadeiro nome da crise migratória

04/08/2026 às 06:20

 

Quase sessenta mortos. Foi esse o número que o alcaide-presidente de Ceuta, Juan Vivas, confirmou até o meio-dia da última sexta-feira, dia 31 de julho, ao atualizar o balanço da mais recente onda migratória entre Marrocos e a cidade autônoma espanhola. Em poucos dias, cerca de 60 mil pessoas entraram no território, o equivalente a 70% de toda a população local. Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, chamou as imagens de inaceitáveis. Já o Primeiro-Ministro espanhol, Pedro Sánchez, falou em ataque à integridade territorial da Espanha. Tropas foram enviadas, fronteiras reforçadas, e o noticiário seguiu seu roteiro previsível: choque, indignação, resposta de força. Falta, como quase sempre falta nesse tipo de cobertura, a pergunta mais óbvia. Por que essas pessoas estão ali, arriscando a vida no mar, em primeiro lugar? Assisti há pouco tempo a “23.000 Vidas”, filme alemão da Netflix que resgata a história real da ONG Jugend Rettet. O enredo é simples de contar e difícil de esquecer: um grupo de jovens, cansado de ver refugiados morrerem no Mediterrâneo enquanto os governos discutiam protocolos, decide agir por conta própria. Fazem um financiamento coletivo, compram um velho barco de pesca, reformam a embarcação e passam a sair para o mar em missões de resgate. Entre 2016 e 2017, em pouco mais de uma dezena de operações, ajudaram a salvar mais de 23 mil vidas. O número virou título. E o filme, no fundo, é menos sobre heroísmo do que sobre uma constatação incômoda: quando cidadãos comuns precisam comprar um barco para fazer o que era obrigação do Estado, alguma coisa já quebrou muito antes de qualquer corpo aparecer boiando no mar. É fácil — e, de certa forma, cômodo — tratar episódios como o de Ceuta apenas como um problema de controle de fronteira ou de política migratória europeia. Essa leitura não está errada, mas é rasa. Ela olha para o sintoma e finge que ali termina a explicação. Ninguém entrega os filhos a uma rede de contrabando humano, ninguém embarca num bote inflável superlotado por capricho ou vontade de conhecer a Europa. As pessoas que fazem esse tipo de travessia estão, na esmagadora maioria dos casos, fugindo de algo: guerra civil, fome que já virou rotina, perseguição política, ditaduras que enxergam qualquer discordância como ameaça ao regime. Estão fugindo, em última instância, da falta de qualquer garantia mínima de que suas vidas valem alguma coisa dentro das fronteiras do seu próprio país. E aqui chego ao ponto que talvez incomode: no fundo, no fundo, a origem dessa crise não está no Mediterrâneo nem em Ceuta. Está no baixíssimo grau de maturidade democrática que ainda marca boa parte do continente africano. Sei que essa afirmação pede cuidado. Não ignoro o peso do colonialismo europeu na criação de Estados frágeis, com fronteiras artificiais que juntaram à força etnias rivais e dividiram povos que sempre foram um só. Essa dívida histórica é real e não pretendo apagá-la aqui. Mas ela não anula a outra parte da equação: onde há eleições livres, alternância de poder, uma Justiça minimamente independente e algum mecanismo de responsabilização de quem governa, a vida das pessoas ganha um mínimo de previsibilidade. E onde nada disso existe, emigrar deixa de ser escolha e vira estratégia de sobrevivência – a única disponível. Norberto Bobbio dizia que democracia é, antes de qualquer coisa, um conjunto de regras do jogo: procedimentos estáveis que permitem disputar o poder sem guerra e que protegem quem perde a eleição de hoje para que possa tentar de novo amanhã. Onde essas regras não existem, onde o poder se mantém à base de fraude, golpe ou repressão, ao cidadão comum resta pouco: calar-se ou partir. Não é acaso que os países de onde mais partem os fluxos migratórios que hoje batem à porta da Europa estejam, ano após ano, entre os que menos oferecem liberdades civis básicas, processos eleitorais competitivos e instituições capazes de fiscalizar quem manda. A crise não começa no barco. Começa muito antes: no parlamento que não funciona, na corte que não julga com autonomia, na eleição fraudada, no regime que trata cada cidadão como suspeito em potencial. Dizer isso não significa isentar a Europa de nada. As responsabilidades ali são reais, tanto humanitárias quanto históricas, e cabe à Espanha e à União Europeia lidar com a situação de forma minimamente decente com quem chega. Mas reforçar fronteira, por mais necessário que às vezes seja no curto prazo, trata apenas do sintoma. A causa está em outro lugar. Enquanto ditaduras continuarem se perpetuando, enquanto eleições continuarem sendo encenação e a alternância no poder for tratada como exceção perigosa em vez de regra do jogo democrático, vai continuar havendo Ceuta. Vai continuar havendo Lampedusa. Vai continuar havendo jovens comprando barco de pesca usado para fazer o que os próprios governos de origem se recusam a fazer, que é simplesmente proteger a vida de quem deveriam representar. Cooperação internacional de verdade, nesse cenário, não pode se resumir a mandar mais tropa para a fronteira. Precisa incluir apoio real à construção de instituições democráticas nos países de origem: eleições monitoradas com seriedade, cortes independentes, proteção a jornalistas e opositores, sanção efetiva contra golpes de Estado. É um caminho mais lento e bem menos fotogênico do que o desembarque de militares em Ceuta. Mas é o único que ataca a raiz do problema, em vez de só administrar, com exaustão crescente, as suas consequências. Até lá, seguiremos contando, com dor e imenso pesar, corpos no mar de tempos em tempos e aplaudindo, com razão, jovens que têm mais coragem que os próprios Estados para fazer o que realmente importa: salvar vidas.

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