A fila que também adoece: exames e tratamentos complexos no SUS

20/08/2026 às 06:20

 

Enquanto o paciente espera, a doença não espera. É essa lógica implacável que expõe o gargalo histórico do SUS: o tempo entre o pedido de uma tomografia, ressonância ou o diagnóstico de um câncer e o início efetivo do cuidado. Em muitos municípios, esse intervalo ainda se conta em meses — prazo que, em medicina, pode separar a cura da metástase.

O que dizem os números

IndicadorDadoFonte
Descumprimento da Lei dos 60 dias (10 cânceres com piores métricas)73,6% dos pacientes em médiaRadar do Câncer (2021-2025)
Descumprimento da Lei dos 30 dias (mesmo grupo)60,5% dos pacientes em médiaRadar do Câncer (2021-2025)
Pacientes oncológicos que iniciam tratamento dentro do prazo legalapenas 26%SBOC / Jornal da Record
Risco de óbito quando o tratamento passa de 60 dias15% dos pacientesSBOC
Câncer de mama iniciado após 60 dias54% das pacientesRevista Mastology (DATASUS-SISCAN, 2017-2022)
Crescimento de tomografias no SUS-SPde 2,4 mi para 3,6 mi de exames/anoSES-SP
Crescimento de ressonâncias no SUS-SPde 480 mil para 700 mil exames/anoSES-SP
Espera por tomografia em Aracajucaiu 95%, de 387 para 19 diasPrefeitura de Aracaju (fev.-jun. 2026)
Novos processos judiciais por saúde pública600 mil (jan/2024-ago/2025), com 880 mil pendentesCNJ/PNUD
Liminares deferidas na saúde pública73%, com 84% de procedência finalCNJ/PNUD
Judicialização no gasto público com medicamentos33% em médiaIpea

Um problema de gestão, não só de recursos

Os números mostram que o atraso é regra, não exceção. Estudo publicado na revista Saúde em Debate, a partir de auditorias do DenaSUS, aponta que as falhas no cumprimento da Lei dos 60 dias não se restringem a problemas pontuais, mas revelam limites estruturais da capacidade do Estado de sustentar políticas universais. O SISCAN, sistema criado para monitorar esses prazos, segue subutilizado — o que dificulta responsabilizar gestores e direcionar investimento a quem mais precisa.

Avanços pontuais, retrato nacional ainda desigual

Casos como São Paulo e Aracaju mostram que investimento direcionado — via credenciamento de rede privada e filantrópica, a exemplo do programa federal Agora Tem Especialistas — reduz filas de forma mensurável. Mas são recortes localizados: a distribuição de aparelhos de imagem segue desigual entre regiões e entre os setores público e privado, tornando a fila tanto um problema de equipamento quanto de regulação do acesso.

A Justiça como válvula de escape

Diante da barreira administrativa, o paciente recorre ao Judiciário — e quase sempre vence, sinal de que os pedidos costumam ser legítimos. Há sinal recente de desaceleração, atribuído a critérios mais rígidos do STF para concessões judiciais, mas o volume de ações segue elevado e onera o orçamento da saúde.

Perspectivas

Três frentes convergem para destravar o sistema: reforço financeiro e regulatório para ampliar a oferta de exames e tratamentos; modernização dos sistemas de monitoramento de filas, para permitir fiscalização real; e um equilíbrio jurídico entre o direito individual à saúde e a sustentabilidade orçamentária do SUS. Para quem aguarda o resultado de um exame ou a primeira sessão de quimioterapia, porém, essas variáveis pouco importam — o que conta é o tempo biológico da doença, que nenhuma portaria consegue prorrogar.

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